Elizabeth de Portzamparc: "Niemeyer foi o criador da arquitetura contemporânea"

Arquiteta e urbanista fala ao iG sobre a importância e a influência do ícone brasileiro

Guss de Lucca - iG São Paulo |

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A arquiteta e urbanista Elizabeth de Portzamparc

"Ele não foi só o maior de sua geração, mas o criador da arquitetura contemporânea." É dessa forma que a arquiteta e urbanista Elizabeth de Portzamparc classifica Oscar Niemeyer , comparando a importância do brasileiro na arquitetura à de Marcel Duchamp nas artes.

TUDO SOBRE OSCAR NIEMEYER

Ao apresentar em uma exposição um urinol de porcelana branco, batizado de "A Fonte", Duchamp causou uma reviravolta na arte contemporânea. Da mesma forma, segundo Elizabeth, a Igreja da Pampulha ( veja foto abaixo ), de Niemeyer, representou a "ruptura total com a evolução natural do movimento moderno de arquitetura".

Nascida no Brasil e radicada na França, Elizabeth de Portzamparc, mulher do também arquiteto Christian de Portzamparc, falou ao  iG  sobre a importância e a influência de Oscar Niemeyer e disse que o brasileiro gera ciúmes no exterior.

iG: Oscar Niemeyer foi o maior de sua geração?
Elizabeth de Portzamparc: Ele não foi só o maior de sua geração, mas o criador da arquitetura contemporânea. Niemeyer promoveu uma revolução arquitetônica com o que ele desenhou em 1940 para a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte. Ao criar as quatro arcadas de concreto, ele estava em ruptura total com os métodos construtivos e com a estética do movimento moderno. Com suas curvas livres, Niemeyer deu início a uma nova estética e paralelamente desenvolveu novas possibilidades estruturais. Ele representa para a história da arquitetura exatamente a mesma coisa que Marcel Duchamp representa para a história da arte. Duchamp foi o ponto de ruptura entre a arte moderna e a arte contemporânea. Niemeyer foi o ponto de ruptura entre a arquitetura moderna e a arquitetura contemporânea.
Outra invenção dele é a leveza. A história da arquitetura é a história da busca pela leveza. Com seu avanço, a tecnologia foi permitindo que ela alcançasse mais leveza nos projetos. E a fineza do concreto, das colunas e dos pilares de Niemeyer revolucionou a maneira de se desenhar arquitetura. Todos os palácios que ele fez em Brasília são exemplos únicos na história da arquitetura.

iG: Como o legado de Niemeyer é tratado no exterior?
Elizabeth de Portzamparc: Sinceramente eu nunca vi nenhuma análise que mostrasse a real influência, o real papel que ele teve na história da arquitetura. Existe uma espécie de ciúmes em todos os países, da parte dos arquitetos, em reconhecer a verdadeira importância de Niemeyer. Alguns o apresentam como um grande criador de formas, mas é raro vê-lo retratado como esse arquiteto completo, que revolucionou a estética e o sistema construtivo.

iG: Você lembra quando entrou em contato com a obra de Niemeyer pela primeira vez?
Elizabeth de Portzamparc: Estou em contato com seu trabalho desde os meus dois anos de idade (risos). Meu pai era advogado, mas era apaixonado por arquitetura. E sempre que íamos para algum batizado ou evento na Pampulha, ele falava com o Juscelino Kubitschek, que era seu amigo, sobre o gênio Oscar Niemeyer. As obras provocavam muita emoção nele. Como arquiteta eu quis tentar entender de onde viria esse gênio.

Mais: "A obra de Niemeyer tem muito mais poesia do que tecnologia", diz Carlos Bratke

AE
Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte

iG: Você conheceu Niemeyer. Quais lembranças guarda dele?
Elizabeth de Portzamparc: Eu era muito pequena. Tenho lembranças dele na casa do Juscelino, que já não era mais presidente. Niemeyer era muito gentil com as crianças, cheio de brincadeiras. Me lembro dele falando com adultos, mas de vez em quando olhando para nós e fazendo uma piadinha. Me recordo de ouvi-lo falar que fazia arquitetura só para os ricos, mas que no fundo adoraria fazer uma favela bonita. Nunca me esqueci disso.

iG: Qual obra de Niemeyer é a mais impressionante do ponto de vista profissional?
Elizabeth de Portzamparc: São tantas. A Praça dos Três Poderes, o Palácio do Itamaraty e a fachada da editora Mondadori, na Itália, estão entre as minhas favoritas.

iG: Você consegue apontar a influência de Niemeyer em seu trabalho?
Elizabeth de Portzamparc: Acho que todo bom arquiteto que olhou o trabalho do Niemeyer, sobretudo desde os dois anos de idade (risos), adquiriu lições valiosas. No meu caso, a maior delas foi a leveza. Talvez nos meus primeiros trabalhos eu tivesse alguns traços herdados inconscientemente. Posteriormente eu tentei fugir, mas em relação à leveza, que ele foi o mestre, sempre procurei a maior possível em meus projetos.
Essa preocupação pode ser vista no último projeto que ganhei, para fazer o museu da cidade de Nimes, no sul da França, que fica em frente às arenas romanas do século 1º. Foi um desafio extraordinário conseguir uma arquitetura contemporânea que dialogasse com essas arenas. As arenas são ancoradas no solo. O meu museu, em levitação, escorado do solo. As arenas são minerais. O meu museu é de vidro. Elas são compostas de linhas verticais. O museu tem linhas horizontais que dançam no espaço de vidro. As arenas são redondas. Meu museu é quadrado. Foram os pontos de oposição que produziram um diálogo muito justo entre os dois edifícios, que são separados por 20 séculos de história da arquitetura.

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Projeto do museu da cidade de Nimes, no Sul da França, assinado pela arquiteta Elizabeth de Portzamparc

iG: Quais os caminhos da arquitetura depois de Niemeyer?
Elizabeth de Portzamparc: Eu acho que ele abriu caminhos maravilhosos nos anos 1940 e 1950 com a construção de Brasília, mas vejo esse período da morte do Niemeyer corresponder a uma grande decadência no mundo todo e também na arquitetura. Algumas pessoas que não entenderam o tamanho de Niemeyer, que classificam sua obra como uma revolução estética e ignoram seu caráter estrutural, têm feito uma arquitetura de imagem, de espetáculo, onde não há cuidado com o conteúdo, com o significado, com o contexto e até mesmo com o meio ambiente. E esse desprezo com a paisagem urbana, com o meio ambiente, são sinônimos de uma grande decadência da arquitetura. Niemeyer sempre tomou muito cuidado com o conteúdo dos projetos. E isso foi desvirtuado. Essa arquitetura de Dubai, de Pequim, junto com o período da morte do Niemeyer, marca o fim do período da arquitetura contemporânea. Acredito que está nascendo alguma outra coisa agora, que será mais forte, interessante, humana e cuidadosa.

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