"A obra de Niemeyer tem muito mais poesia do que tecnologia", diz Carlos Bratke

Arquitetos como Norman Foster falam sobre a importância e a influência dos projetos de Oscar Niemeyer

iG São Paulo | - Atualizada às

Morto nesta quarta-feira (dia 5), aos 104 anos, Oscar Niemeyer deixou uma herança imensurável na arquitetura brasileira e internacional. Em depoimentos ao iG , arquitetos comentam a importância e a influência de Oscar Niemeyer em seus ofícios.

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Bya Barros, ao iG : “Já o conheci pessoalmente com o maior orgulho. O maior orgulho brasileiro. Para ele o trabalho era um lazer, assim como é para mim. Me identifico com o dinamismo das cores e das formas do Niemeyer. Ele sempre declarou que as curvas das mulheres são as maiores inspirações para o seu trabalho, o que gosto muito também. Assim como ele, meus projetos são felizes. Acredito que a obra de arte é o protagonista do espaço, é a essência do arquiteto, e as obras dele mostram isso. É uma perda muito grande para o Brasil e para a arte.”

Carlos Bratke, ao iG: “Meu pai era muito amigo dele. Tive bons contatos com Niemeyer, o último foi sobre as exigências de segurança sobre o prédio da Bienal de São Paulo, que levou a construção sem muita importância da escada externa ao prédio. Eu acho que a arquitetura brasileira está perdendo um arquiteto romântico, um próprio criador, autor, que não deixava ninguém mexer nas coisas dele. Ele tinha um bruto amor pelo que fazia. Não ligava para dinheiro, tanto que fez Brasília como funcionário público. Diferente dos atuais, Niemeyer não tinha pose. Hoje os arquitetos tem um batalhão de arquitetos em seus escritórios, o que não torna mais obra deles. A obra de Niemeyer tem muito mais poesia que tecnologia em cada trabalho.”

TUDO SOBRE OSCAR NIEMEYER

Divulgação/Luiz Garrido
O arquiteto Oscar Niemeyer

Norman Foster (por meio do site Archdaily): "Fiquei profundamente triste ao saber da morte de Oscar Niemeyer. Ele foi uma inspiração para mim – e para uma geração de arquitetos. Poucas pessoas têm a oportunidade de conhecer seus heróis e eu sou grato por ter tido a oportunidade de passar um tempo com ele no Rio no ano passado. (...) Durante o nosso encontro, conversamos longamente sobre o seu trabalho – e ele ofereceu algumas lições valiosas ao meu. Parece absurdo descrever como jovial um homem de 104 anos, mas sua energia e criatividade são inspiradoras. Fui tocado pelo seu carisma e por sua grande paixão pela vida e pela descoberta científica – ele queria entender sobre o cosmos e o mundo em que vivemos. Em suas palavras: “Estamos a bordo de um navio fantástico!”. Ele me disse que a arquitetura é importante, mas que a vida é mais importante. E que, finalmente, sua arquitetura é o seu legado. E como homem, eternamente jovem – ele deixa conosco uma fonte de prazer e inspiração para muitas gerações.

Marcos Acayaba, ao iG: "Decidi ser arquiteto aos 10 anos de idade quando conheci o Parque do Ibirapuera recém construído para o Quarto Centenário, em 1954. Aquilo foi tão forte, tão marcante, me senti como se estivesse no futuro. E perguntei a minha mãe quem tinha feito aquilo. Ela disse que tinha sido uma arquiteto carioca chamado Oscar Niemeyer. A partir daí decidi fazer arquitetura. Ao ver os projetos dele em revistas, eu, que era um menino que gostava de futebol, passei a adorá-lo como se ele fosse um jogador da seleção brasileira. A arquitetura, não só a brasileira, foi influenciada pelo Oscar Niemeyer - o próprio mestre dele, o Le Corbusier, passou a fazer desenhos com curvas a partir da arquitetura do Oscar. No futuro, daqui a 2 mil anos, antropólogos e historiadores vão descobrir que houve um gênio no Brasil durante o século 20. E esse foi o Oscar Niemeyer."

AE
Oscar Niemeyer com a medalha da Ordem Nacional da Legião da Honra

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Álvaro Puntoni, ao iG: "Uma ideia que considero bonita é a que enxerga toda a nossa existência como um mar e nela, nesse século, o Oscar foi um farol que nos orientava. Ele vai deixar um legado enorme e nós teremos que aprender a navegar nesse mar sem esse farol."

Joia Bergamo, ao iG: "Ele foi o nosso melhor arquiteto, nosso maior representante no exterior, o tanto que ele contribuiu para internacionalizar o trabalho do Brasil. O que mais em encantava nele era sua alegria de viver, contagiante até agora no final. Como também nasci em Minas, sinto uma saudade eterna ao lembrar das curvas da Igreja da Pampulha, que revelam a inspiração dele nas curvas sensuais femininas. Niemeyer tinha uma rapidez, uma naturalidade nos traços que do nada ele rabiscava um papel e fazia um projeto grandioso. Ele é imortal. E apesar da perda muito grande, temos a felicidade de ter tantas obras dele no Brasil."

Decio Tozzi, ao iG: "Você me pede palavras, mas não há palavras. Nesse momento a melhor coisa é um silêncio denso, profundo e de reverência ao grande arquiteto e ao grande homem que ele foi."

Luis Mauro Freire, ao iG: "Além do que todos já falaram, que ele é um gênio da arquitetura, um homem cuja contribuição vai além dos aspectos da sua profissão, da arte da arquitetura. Ele foi responsável por criar a cara do Brasil, pela identidade do País. A arquitetura dele foi tantas vezes repetida Brasil afora, só a vem a reforçar isso. São poucos os brasileiros que conseguem elevar o espírito brasileiro, definir um pouco o perfil do que é ser brasileiro através da sua arte."

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AE
Oscar Niemeyer em 2004

Regina Meyer, ao iG: "Quando conheci o Palácio da Alvorada senti uma forte emoção. Em primeiro lugar porque ele realmente tem uma beleza extraordinária. Em segundo, porque eu nunca tinha imaginado que um palácio pudesse ter traços tão específicos. Ali, Oscar Niemeyer reinventou o programa palácio residencial do governante, um programa que havia se extinguido no século 18. Em suas mãos ele foi modernizado, ganhando espaços muito amplos e generosos onde se dá a vida social do palácio, e um pequeno espaço na parte superior reservado para a vida íntima, criando quase que uma inversão. Essa reinvenção também acontece no projeto da Praça dos Três Poderes, que não é só dele, é também do Lúcio Costa. Nela temos um momento de reinvenção do que é uma praça urbana, onde a natureza pôde entrar como quarto elemento - junto dos os três poderes está o quarto poder, o cerrado, que surge como elemento da praça."

Roberto Loeb, ao iG: "Acho que o que se destaca na obra do Niemeyer é tudo que emana dessa cordialidade, desse talento, dessa humanidade que ele sempre teve em relação à vida, às suas ideias políticas, aos amigos... Isso sempre ficou muito patente. O que se destaca dessa enorme produção de 104 anos é a procura por inovação, pela surpresa. Acho que ele criou para o mundo, e principalmente para os arquitetos, um caminho novo de libertação, com um desenho livre, sem compromisso fechado com uma técnica ou com um traçado específico. Ele ousou e fez uma diferença muito importante. E deixou uma mensagem, que o que vale na vida é a criatividade, a inovação. E aí estão as obras dele, para mostrar sua coerência."

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AE
Oscar Niemeyer em 1977

Gilberto Belleza, ao iG: "O Oscar Niemeyer foi um marco não só na arquitetura, mas na cultura brasileira, atingindo um grau de repercussão internacional como poucos brasileiros tiveram - só ele e Pelé chegaram a esse nível. A presença de Niemeyer e sua obra vão permanecer, apesar dele não estar entre nós."

Ruy Othake, para a rádio CBN: "Durante mais de 30 anos, fui para o Rio todo dia 15 de dezembro para almoçar ou jantar com Niemeyer no aniversário dele. Era uma pessoa muito gentil e muito aberta, deixa um conjunto de obras e um legado que nenhum arquiteto do mundo deixará."

Grazzieli Gomes Rocha: "Algumas pessoas vieram ao mundo a passeio, Niemeyer certamente não, veio para acrescentar algo a todos nós deixando um legado arquitetônico para ser contemplado e um valor à vida para ser apreendido."

Leonardo Junqueira: "Perdemos o arquiteto que mostrou ao mundo que a melhor distancia entre dois pontos pode ser a curva."

Dado Castello Branco:  "A linha curva jamais será a mesma depois da morte do genial Niemeyer."

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