No Brasil, roteirista de "CSI" rotula série de "televisão comfort food"

Ex-perita da polícia de Los Angeles, Elizabeth Devine comenta novidades da 13ª temporada, fórmula do programa e a dificuldade do público em lidar com os novos personagens

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Em 2000, "CSI" provocou furor na TV norte-americana ao criar uma fórmula de programa policial que combinava assassinatos e investigação de alta tecnologia. Podia-se mergulhar, em detalhe, na rotina de um perito criminal, glamourizado pelo carisma de William Petersen e Marg Helgenberger, os atores principais. Foi a largada para outras séries na mesma linha invadirem a programação, inclusive duas franqueadas, em Miami e Nova York. Passaram-se 12 anos, os protagonistas já não estão no elenco e os índices de audiência, longe do auge, mas "CSI" segue para a 13ª temporada, que começa a ser exibida no Brasil, pelo canal Sony, no próximo dia 22.

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Imagem da nova temporada do seriado "CSI"

Em passagem por São Paulo para divulgar o programa, a consultora e roteirista Elizabeth Devine diz que o time de escritores sempre tenta introduzir novidades, depois de tanto tempo no ar. "Pensamos em algo que nunca fizemos antes e investimos nisso. Algo novo, fresco, para manter nossa equipe e atores interessados." A temporada inteira ainda não foi decidida, mas seguindo esse raciocínio já estão confirmados episódios sobre basquete, cachorros da polícia e até um acidente de avião.

Perita da polícia de Los Angeles por 15 anos antes de entrar para a televisão (e com uma breve passagem pelo cinema, em filmes como "Sem Limite para Vingar", de 1991, e "Jennifer 8", 1992), Devine conta que chegou a usar casos reais como inspiração, mesmo que não de forma literal. "Na vida real, não há tantas mudanças e reviravoltas. Quando alguém é assassinado, muitas vezes é o namorado, marido, pode-se perceber quem é bem rápido. No nosso programa, é preciso que pareça ter sido essa pessoa, mas espere, foi essa! Precisamos construir um mistério, andar na montanha-russa, e nem todos os casos reais são assim."

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A ex-perita da polícia Elizabeth Devine

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Ao mesmo tempo em que há essa busca pelo frescor, a roteirista admite que as inovações tem seu limite. Ao falar da série "The Killing", refilmagem de um programa de sucesso dinamarquês, sobre a investigação do assassinato de uma adolescente, as diferenças ficam claras.

"É muito devagar, devagar demais. É um tipo diferente de narrativa, que foca nas emoções e nos sentimentos da família. É muito pesado lidar com isso o tempo inteiro. Em 'CSI', às vezes fazemos episódios engraçados, mais leves, porque se fizermos coisas sombrias o tempo inteiro, fica difícil de assistir. A ideia é balancear assassinatos e investigações com piadas e coisas leves."

Devine chega a rotular "CSI" como "televisão comfort food", o que seria um dos segredos da longevidade. "Depois de um dia de mau humor, o público não quer ver algo sombrio. Você gosta dos seus personagens, no início do episódio algo ruim acontece e no final daquela hora o vilão vai para cadeia. É um pacote. As pessoas gostam de poder sentar, relaxar e saber que seus heróis vão conseguir resolver o problema e aquele vilão vai ser pego. Se sentem confortadas sabendo que o mocinho vai vencer. Aí você pode dormir sossegado e ir para o trabalho no dia seguinte."

Por conta desse apego dos fãs aos personagens a série tem enfrentado diversos desafios. Depois de nove anos, William Petersen aposentou seu doutor Gilbert Grissom e na sequência Laurence Fishburne, o substituto, fez o mesmo com o Dr. Raymond Langston. Mas o baque mesmo veio com a saída de Marg Helgenberger, intérprete da agente Catherine Willows, que deixou o programa em janeiro, após 12 temporadas – Devine chega a ficar com os olhos marejados ao falar da amiga. Atualmente, Ted Danson e Elizabeth Shue estão nos papéis principais, para desgosto dos tradicionalistas, que expressam sua ira nas redes sociais.

"Tento não ler muito, porque pode magoar", conta a roteirista. "Temos muitos fãs que gostam de Grisson, que estão muito zangados por ele não estar mais lá. Também gostávamos dele e se tivesse continuado, estaríamos felizes, mas não o temos mais. Queremos que o público conheça os novos personagens e goste deles tanto quanto nós. Sabemos que eles amam quem saiu, por isso buscamos personalidades diferentes – não queremos que um ator novo entre e seja o mesmo personagem. Mas às vezes na internet não querem nem saber, não dão chance. Trabalhamos duro, e os atores também, para criar os personagens e fazer com que o público se interesse por eles. E quando isso não acontece, dói."

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Marg Helgenberger e Elizabeth Devine nos bastidores do seriado "CSI"

Devine afirma que uma reação comum à saída dos heróis é simplesmente deixar de assistir ("várias pessoas fizeram isso e já me disseram"), mas ela não atribui a isso a queda de audiência na última temporada, a menor da história de "CSI" (12 milhões de espectadores, contra os 26 milhões do auge, em 2004). "Nos EUA, caiu porque o dia mudou. Saímos de quinta-feira, o dia de maior audiência, para quarta. Nosso trabalho é vencer a audiência do horário, e isso continuamos fazendo. Se eu acho que as pessoas não assistem tanto quanto antes? Sim, mas também não acho que elas assistam tanta TV quanto faziam antes. Por isso, nossos números nunca mais serão como antes."

Mesmo assim, "CSI" segue firme no mercado internacional: em junho, venceu pela quinta vez o prêmio de série dramática mais assistida no mundo. No momento, o programa não sofre nenhuma ameaça de ser cancelado, mas o fim de "CSI: Miami", em maio, confirmou que é impossível não pensar nisso.

"Sabemos que vai acontecer um dia, não há como continuar para sempre. No final de cada temporada, percebemos o quanto gostamos um de outro. Tem gente que está junta desde o início, e 13 anos é um bocado de tempo, não é comum na TV. Ter um show por todo esses anos é uma benção. Será um dia triste quando 'CSI' acabar."

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