ABL é acusada de censura por historiador

Jorge Coli afirma que sua palestra sobre erotismo nas artes teve a transmissão cortada

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Hermano Taruma/Wikimedia Commons
O historiador da arte Jorge Coli

O historiador da arte Jorge Coli acusa a Academia Brasileira de Letras (ABL) de ter censurado a transmissão pela internet de uma conferência sua com o título "Sexo não é mais o que era". Ele tratava de questões como pornografia, erotismo e sexualidade no universo das artes e se referia a quadros como "A origem do mundo", do pintor francês Gustave Courbet, de 1866, que mostra a genitália de uma mulher, e obras do norte-americano Jeff Koons.

Professor da Unicamp, Coli divulgou no site da série de conferências, intitulada "O futuro não é mais o que era", um texto em que diz que sua fala "sublinhava o caráter conservador do moralismo atual e criticava os puritanismos repressivos que oprimem o imaginário". Para ele, a postura da ABL corrobora sua tese. "Ilustrou, de modo preciso, o acerto de minha tese sobre a hipocrisia pudibunda (termo no qual certamente ela ainda censurará as duas últimas sílabas) de nosso tempo". E concluiu: "Não apenas os acadêmicos são imortais: eles também não têm sexo, como os anjos".

Foi na quarta-feira (12), no teatro da ABL, no Rio de Janeiro, e a conferência estava anunciada no site da academia. Procurada nesta sexta-feira (14), a ABL informou que não era um evento "da Academia, mas na Academia", e que a transmissão ao vivo por seu site, que acontece nos casos da programação própria da casa, não é uma "obrigação contratual". A decisão de suspender a transmissão foi da diretoria da casa, que considerou o conteúdo inconveniente levando-se em consideração que menores integram o público-alvo de sua página.

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"A suspensão da transmissão, ao vivo, da conferência em questão, foi autorizada por não estar em conformidade com os parâmetros que permitem a sua utilização, notadamente diante das advertências apresentadas pelo conferencista, professor Jorge Coli, entre outras, de que envolvia imagens impróprias até 18 anos e de que iria tratar de pornografia. O público-alvo das mensagens da Academia via internet abrange todas as idades, em destaque jovens estudantes de todos os graus de ensino. A diretoria da ABL é contra toda a forma de censura, mas é também consciente de sua responsabilidade pela matéria que divulga no seu site", informou.

Coli afirma em seu texto, replicado nas redes sociais, que a palestra foi interrompida quando ele citou "trecho de um autor que continha algumas palavras indelicadas: crítica de Philippe Murray ao quadro de Courbet publicada em 1991 na revista Art Press". A ABL nega a interrupção. No site da série, no entanto, internautas reclamaram do corte súbito sem mais explicações. "Coincidência com o tema 'hard' me leva a crer que se trata de um puro e simples ato de censura por parte da ABL", escreveu um deles.

Patrocinado pelo Ministério da Cultura e a Petrobras, o ciclo de conferências na ABL é organizado pelo filósofo Adauto Novaes. Reúne intelectuais de renome e vai até 10 de outubro. Propõe-se a investigar "a percepção do tempo na contemporaneidade a partir de inspirações filosóficas de pensadores clássicos". A reportagem procurou Coli no fim da tarde desta sexta-feira, mas ele não atendeu o telefone porque, segundo Novaes, estava em outra conferência. "Faço esses ciclos há 30 anos e é a primeira vez que acontece isso", disse Novaes.

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"A transmissão da conferência foi interrompida e eu só fui saber no fim. Não sei se o problema foi com as imagens. 'A origem do mundo' pode ter chocado a Academia. Não foi um problema técnico, foi algo deliberado da Academia. É um site que era transmitido para estudantes e eles têm lá suas normas. Eu acho que essas normas devem ser discutidas".

Novaes acredita que a ABL se provou conservadora. "A gente jamais imagina que possa haver qualquer tipo de censura com uma conferência. O Coli mostrou como hoje vemos uma regressão nos costumes em relação ao que tivemos nos anos 60. As instituições hoje são muito mais conservadoras".

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