Exposição revela vida dos negros em bairro de Nova York nos anos 1970

Em cartaz em museu de Chicago, fotos de Dawoud Bey retratam cenas e personagens comuns do Harlem

NYT |

NYT

No início de 1969, David Smikle, um estudante negro de 16 anos e morador do Queens, decidiu visitar o Museu Metropolitano de Arte pela primeira vez. Ele tinha escutado no rádio que as pessoas estavam um pouco desconcertadas com uma exposição, "Harlem on My Mind" (Harlem na Minha Mente, em tradução literal), e queria conferir pessoalmente.

Para sua decepção, não havia manifestantes fora do museu, que estava sendo criticado por excluir obras de artistas negros em seu retrato do Harlem, bairro de Nova York. Mas dentro do local ele presenciou algo que o marcou bastante: paredes repletas de fotografias de negros comuns que pareciam chamar a atenção dos presentes, que pareciam intrigados.

Veja também: Imigrantes ilegais que vivem nos EUA viram super-heróis em ensaio

Dez anos depois, após ter mudado seu nome para Dawoud Bey e estudado fotografia na Escola de Artes Visuais, ele fez sua estreia com uma exposição no Museu Studio, no bairro do Harlem. Intitulada "Harlem USA", ela era composta por 25 fotos em preto e branco de moradores do bairro, de veteranos de guerra tocando em uma banda a mulheres idosas a caminho da igreja.

Bey, que agora vive em Chicago e ensina fotografia na Columbia College, tornou-se um aclamado fotógrafo de retratos, conhecido por transmitir uma perceptível autoconsciência e introspecção em suas imagens. Seu trabalho tem sido mostrado nos Estados Unidos e na Europa e está nas coleções permanentes do Museu de Arte Moderna, no Museu Whitney de Arte Americana e no Museu do Brooklyn.

Getty Images
O fotógrafo Dawoud Bey

Agora, sua exposição sobre o Harlem está em cartaz na íntegra no Instituto de Arte de Chicago - pela primeira vez desde sua primeira exposição no Museu Studio em 1979. O Instituto de Arte montou uma unidade especial de captação de recursos para comprar impressões, principalmente as antigas, da série original (por um preço que Bey descreveu como por volta dos "seis dígitos") e também está apresentando outras obras de pioneiros da fotografia de seu acervo, incluindo James Van Der Zee, Irving Penn e Roy DeCarava, todos influenciados por Bey.

Siga o iG Cultura no Twitter

Em uma tarde recente, Bey, 58, visitou a exposição do Instituto de Arte e falou sobre a relação entre suas fotos e a exposição "Harlem on My Mind".

"Naquela época", disse ele, "eu apenas andava por tudo que é lado com uma câmera que havia herdado do meu padrinho porque achava que era bacana. Mas eu não sabia o que fazer com ela. A exposição do Museu Metropolitano de Arte me marcou, me fez pensar."

Ele começou a ir a outros museus e galerias para apreciar as fotografias dos inovadores do começo do século, como Walker Evans e Henri Cartier-Bresson. "As obras deles me deram uma ideia do que eu queria fazer e do que eu não queria fazer", disse. "Não eram apenas obras ilustrativas. Eram subjetivas e interpretativas. Essas fotos começaram a apontar para uma direção, para mostrar que as fotos de pessoas comuns, poderiam, quando feitas de maneira correta, ter bastante significado."

Veja também:  Fotógrafo registra bastidores da beatlemania entre 1964 e 1966

Em meados dos anos 1970 ele estava utilizando uma câmera de lente única e havia começado a tirar fotografias das ruas do Harlem, que eventualmente acabaram fazendo parte de sua exposição no Museu Studio.

No período de quase mais de três décadas desde a exposição do Museu Studio, Bey tem continuado a explorar imagens de americanos negros e, mais recentemente, adolescentes de diversas origens. No processo, ele mudou de fotos em preto e branco para coloridas, começou a utilizar câmeras de grande formato e optou por intercalar fotos feitas em seu estúdio e nas ruas.

NYT
Menino em frente à cinema do Harlem, fotografado por Dawoud Bey

Esta evolução foi refletida em outra exposição feita em Chicago, a “Dawoud Bey: Picturing People” (Dawould Bey: Retratando Pessoas, em tradução literal), uma retrospectiva de sua carreira que ficou exposta na galeria da Sociedade Renascentista na Universidade de Chicago de meados de maio a meados de julho e vai viajar pelo país no ano que vem.

Para o crítico Arthur Danto, que escreveu um ensaio para o catálogo de "Retratando Pessoas", um humanismo subjacente unifica toda a obra de Bey. "Há uma qualidade de clareza, de simpatia e compreensão", disse Danto. "As pessoas às vezes falam que algumas de suas fotos possuem a mesma qualidade que as obras de Rembrandt".

"Dou um passo para trás, brinco um pouco com a câmera, faço algo para que elas tenham a oportunidade de se sentir confortáveis", disse. "Então presto atenção no momento. A mão no joelho, o cotovelo apoiado na cadeira, tudo isso nos mostra quem são essas pessoas e como a narrativa do espaço e dos indivíduos interagem. "

O elemento que distingue Bey, no entanto, é menos a precisão geométrica com a qual ele apresenta o espaço em seus retratos do que o que David Travis, ex-curador de fotografia no Instituto de Arte, refere-se como a "bússola moral" de Bey.

Veja também: Fotógrafo registra bastidores da beatlemania entre 1964 e 1966

"Ele realmente quer descobrir coisas sobre as pessoas, ele não quer ficar apenas na superfície de suas vidas e sim realmente mostrar quem são ", disse Travis. Mas ao contrário de Richard Avedon, que muitas vezes fazia com que uma luz estroboscópica aparecesse quando as pessoas menos esperavam, ou Diane Arbus, que disse uma vez que fotografar era como "entrar de fininho na cozinha tarde da noite para roubar biscoitos", Bey insiste que o processo tem que ser colaborativo.

"Dawoud acredita que as pessoas que posam para ele possuem uma voz, e ele não vai roubar algo que não queiram que seja mostrado", disse Travis. "Ele sempre toma muito cuidado para ter certeza de que não irá roubar um momento da pessoa que ele está fotografando. Ele não quer ser um intruso."

    Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG