Polêmico artista chinês vira tema de documentário

Ai Weiwei é o centro de filme que estreia nos Estados Unidos

The New York Times |

No verão de 2006, recém-formada pela Universidade de Brown com uma licenciatura em História e um desejo de conhecer o mundo, Alison Klayman foi para a China. Ela chegou lá sem falar chinês, com apenas um contato e uma vaga noção de que tentaria aprender uma nova língua e, talvez, encontraria um emprego como jornalista.

Nesta sexta-feira (27 de julho), o resultado da aventura de Klayman, um premiado documentário chamado "Ai Weiwei: Never Sorry" (Ai Weiwei: Sem Desculpas, em tradução livre), irá estrear em Nova York. Típico exemplo de estar no lugar certo na hora certa, Klayman se deparou com uma das histórias mais interessantes vindas da China nos últimos anos: a transformação do artista avant-garde Ai Weiwei em um dos dissidentes políticos mais conhecidos do país.

"Eu tive sorte", Klayman, agora com 27 anos e fluente em mandarim, disse em uma entrevista no mês passado. "No começo, eu não tinha ideia de onde o filme poderia chegar, certamente não imaginava que fosse ser exibido no festival de Sundance ou que teria uma estreia tão esperada. Eu só queria encontrar uma maneira nova de analisar a China, fazer algo realmente bom e mostrar quem é esse cara."

Capturar a enigmática personalidade de Ai, que tem um estúdio chamado Fake Design, seria um desafio mesmo sob circunstâncias comuns. Um artista conceitual e de instalações, fotógrafo, designer e cineasta a quem a revista ArtReview no ano passado colocou no topo de sua lista Power 100, Ai tem uma imaginação inquieta e uma capacidade de confundir tanto seus críticos quanto seus amigos, algo que fica evidente no filme.

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Mas na época que Klayman começou a filmar, Ai, 55, elevou sua arte ao criticar publicamente o monopólio do Partido Comunista da China no poder, assim como a sua manipulação dos Jogos Olímpicos de 2008 e de um devastador terremoto que abalou Sichuan meses antes. No ano passado, quando ela estava editando seu documentário, ele foi preso no aeroporto de Pequim e ficou incomunicável durante 81 dias e depois foi colocado sob prisão domiciliar durante um ano e acusado de "crimes econômicos" - Klayman teve que trabalhar com de todos esses acontecimentos. Além disso, dois mecenas de Pequim que administram alguns dos trabalhos de Ai foram detidos na Pprimavera deste ano por suspeita de terem cometido crimes econômicos.

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A diretora Alison Klayman

"Uma das partes mais difíceis de fazer um filme como este é que você não sabe como ele irá acabar", disse Evan Osnos, o correspondente de Pequim para a revista The New Yorker, que se reuniu com Klayman pouco antes de ela começar o projeto. "Se você está fazendo um filme sobre Muhammad Ali ou George Foreman, é mais tranquilo estruturar a história. Mas se você está fazendo um filme em tempo real sobre um cara que está trilhando um caminho desconhecido, tudo o que você pode fazer é acompanhá-lo e ver para onde ele vai. Alison persistiu e ficou com ele, porque ela viu que uma história importante poderia ser contada".

Klayman, disse que queria usufruir da situação de Ai para mostrar que não existem apenas "pessoas interessadas em ampliar as fronteiras da China", mas também que "há brechas para que essas pessoas possam agir". Citando o seu uso do Twitter, de blogs e outras formas de mídias sociais para enviar sua mensagem política e obras de arte para fora do país, ela acrescentou, "eu vejo a China como uma sociedade com espaço suficiente para que muitas coisas interessantes possam acontecer, apesar da natureza difícil das autoridades."

Mas ela também capta o Estado chinês de uma maneira crua e despida, desrespeitando leis e convenções internacionais sobre direitos humanos das quais o país é signatário. Autoridades em Xangai, por exemplo, convidam Ai para construir um estúdio, e acabam demolindo o local após o término de sua exposição: ele responde com uma festa no lugar, servindo caranguejo de rio, cujo nome é homônimo em mandarim a "harmonia", algo que o governo alega querer.

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Talvez no trecho mais interessante da filmagem, fornecido por Ai, a polícia de Sichuan invade seu quarto de hotel no meio da noite e bate nele tão severamente que ele tem que se submeter a uma cirurgia na Alemanha por causa de uma hemorragia craniana. Quando ele reclama, eles zombam dele, dizendo que deve ter batido em si mesmo, e quando ele tenta apresentar uma queixa em uma delegacia da região, um episódio que Klayman filmou até ser forçada a sair, seu esforço quixotesco é vencido por uma burocracia kafkiana.

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Ai Weiwei em cena do documentário

"Eu não tinha uma ideia pré-concebida de como eu queria retratar o Estado", disse Klayman. "Mas eu acho que eles mesmos acabaram definindo seu próprio papel no filme.”

Ao decorrer do documentário, Ai parece deliberadamente cruzar a linha tênue entre seu trabalho criativo, esforços políticos e sua vida privada. Klayman mostra um projeto em que o artista, com seu dedo médio estendido, é fotografado na Praça Tiananmen, onde em 1989 o Exército de Libertação do Povo abateu centenas de estudantes e outras pessoas que buscavam reforma política.

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Até mesmo durante um jantar em um restaurante ao ar livre em Chengdu, Sichuan, sob o olhar atento da polícia, parece ser encenado como se fosse um projeto de arte. De acordo com certas informações reveladas no próprio filme, as influências artísticas de Ai incluem Joseph Beuys e Marcel Duchamp, que se especializou nesse tipo de coisa.

"Se você perguntar a Ai Weiwei, tudo o que ele faz é parte de uma performance artística, e por isso, de uma certa maneira, tudo o que você vê no filme também faz parte dessa performance", disse Zhang Hongtu, um artista chinês em Nova York que fez amizade com Ai durante a década que ele viveu nos Estados Unidos e que também aparece no filme. "Ele faz tudo de maneira calculada, com uma estratégia, e o documentário consegue captar isso."

“Se você pensar sobre Ai Weiwei entenderá que tudo o que ele faz é uma performance, portanto o próprio documentário é uma performance artística para ele”, disse Zhang Hongtu, um artista chinês que ficou amigo de Ai durante a década em que ele viveu em Nova York. “Ele faz tudo de uma maneira calculada, com uma estratégia, e ‘Never Sorry’ captura isso.”

Mas, apesar das obras provocativas de Ai e de seus conflitos com o Partido Comunista terem feito dele uma figura conhecida entre os conhecedores de arte do mundo todo e aqueles que acompanham os eventos na China, sua formação e motivação permanecem desconhecidas. O documentário de Klayman ajuda a preencher algumas destas lacunas.

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