Maria Miss é triunfo do talento sobre a limitação, da paixão sobre a burocracia

Montagem teatral de conto de Guimarães Rosa expõe disputa entre herdeiros e dificuldade de acesso à obra do escritor, cuja morte completa 45 anos

Ana Ribeiro - iG São Paulo | - Atualizada às

Paulo Malta/Divulgação
Em cena de "Maria Miss", os atores Tânia Casttello e Daniel Alvim

Em época de boom de (bons) musicais nacionais, “Maria Miss” se destaca pelo efeito contrário: um grande espetáculo de teatro pode ser feito de pouca coisa também. “Maria Miss” é um acerto com o essencial. A aridez da direção e do cenário casa com o texto como se fosse obra da abundância, nunca da falta.

E tem o elenco, enxuto e tão preciso. Sobretudo Tânia Casttello, no papel da protagonista, que instiga, cativa e emociona. Seus companheiros de palco são Daniel Alvim e Cacá Amaral. A direção é de Yara de Novaes.

O mergulho no texto sólido de Guimarães Rosa provoca a mesma sensação dos livros do escritor. Você começa a ler como se tivesse sido atirado ao mar sem saber nadar, e tem a impressão de que vai se afogar. De repente, percebe que parou de engolir água e que está sendo levado ao sabor da correnteza.

Sem saber como, você entende o ritmo, dança conforme a música, entra em sintonia com a dureza daquele universo.

Paulo Malta/Divulgação
Tânia Casttello e Daniel Alvim em cena

Dez anos de canseira

Até parece que “Maria Miss” estava fadada a acontecer. A primeira vez em que a atriz Tânia Casttello pensou nesse projeto foi mais de 10 anos atrás. Ela tinha de preparar uma cena para disputar um papel na minissérie global “Hoje é Dia de Maria”, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e foi buscar algo na obra de Guimarães Rosa. Encontrou no conto “Esses Lopes”, do livro Tutaméia, a personagem que precisava. O teste veio e foi, Tânia não ganhou o papel, mas ficou com Maria Miss na cabeça. “Vi que aquilo dava uma peça”, lembra.

Logo entendeu que a dificuldade de adaptar “Esses Lopes” para o teatro não passava apenas pela tarefa complexa de traduzir para o palco a linguagem roseana. Antes de efetivamente encarar o texto, adaptado por Evill Rebouças, a atriz teve de lidar com a burocracia, alimentada por todo tipo de emoção, que envolve os direitos autorais sobre a obra de Guimarães Rosa.

Em poucas palavras: Rosa foi casado com Lygia e teve duas filhas, Vilma e Agnes. Depois se casou com Aracy, que era desquitada e tinha um filho, Eduardo. Hoje são as filhas e o enteado que dividem (ou disputam) os direitos sobre a obra do escritor.

“Quando quis montar a peça, fui atrás da editora Nova Fronteira, que me disse que as filhas de Rosa tinham direito sobre a obra. O primeiro contato foi com a Agnes, que me pediu para falar com a irmã, e depois soube que teria de consultar também o enteado. Fui falando de um por um. Isso tudo levou tempo, eles são bastante minuciosos. Você negocia com um lado, depois negocia com o outro, vai e volta... Quando acertei a história do conto, fui atrás de captar dinheiro para montar a peça. Nesse processo perdi o prazo do edital do Banco do Brasil, porque faltava a assinatura de uma das filhas e ela saiu de férias.”

Então Tânia apelou para o Proac (Programa de Ação Cultural), que tem uma categoria de patrocínio empresarial que prevê a isenção de ICMS da empresa que investisse dinheiro na montagem. O valor que pleiteava era pouco, já que a inscrição da atriz na lei é de pessoa física, e o resultado é a montagem que está em cartaz em São Paulo, no Teatro Eva Herz, até dia 29 de agosto.

“Ficou pequeno, foi montado com recursos limitados, mas estou infinitamente feliz que finalmente conseguimos montar o espetáculo”, celebra ela. De novo: o minimalismo da montagem funciona a seu favor. Assim fica no centro da cena o que realmente importa nesse caso: o texto e as atuações.

João Caldas/Divulgação
Tânia Casttello, Daniel Alvim e Cacá Amaral

Um Guimarães Rosa na plateia

Levou uma década e uma bolada de dinheiro para Tânia acertar com os herdeiros o direito por dois anos de encenação da adaptação do conto. Na noite em que fui assistir à peça, no Teatro Eva Herz, estava na plateia um senhor distinto, de terno e gravata, que depois da apresentação foi cumprimentar efusivamente a atriz. Mais tarde fiquei sabendo que se tratava de Eduardo, o enteado de Guimarães Rosa. Ele, que é tão cuidadoso com o que é feito da obra de seu padrasto, ficou muito satisfeito com o espetáculo.

Sua mãe, Aracy, viveu com Rosa até a morte dele, em 1967. Foram quase 30 anos de vida em comum, período em que Rosa publicou Grande Sertão: Veredas, que dedicou a ela. Aracy viveu até os 102 anos e morreu no ano passado, ocasião em que o filho Eduardo herdou sua parcela na obra de Guimarães Rosa, que se trata, além dos direitos integrais de “Grande Sertão”, de um terço da produção literária publicada até a morte do escritor (os outros 2/3 são de Vilma e Agnes). Na produção inédita, Aracy - e agora Eduardo - tem 50%, e cada uma das filhas, 25%.

SERVIÇO –  "Maria Miss" em São Paulo
Terças e quartas às 21 horas. Até 29 de agosto no Teatro Eva Herz. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos: R$ 30. Teatro Eva Herz da Livraria Cultura - Conjunto Nacional - Avenida Paulista, 2073, Metrô Consolação. Bilheteria: (11) 3170-4059. De segunda a sábado, das 14h às 21h e aos domingos e feriados, das 12h às 20h. Ingressos à venda pela Internet nos sites www.teatroevaherz.com.br ou www.ingresso.com.br . Vendas/Call-center: 4003-2330.

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