Arquiteto provocou uma reviravolta histórica com seu traçado simples e uma inequívoca dedicação a estruturas monumentais

Oscar Niemeyer, morto nesta quarta (dia 5) aos 104 anos , redescobriu o uso da curva na arquitetura. Talvez seja esta a grande marca de sua obra, mas não a única contribuição responsável por nomeá-lo um dos principais arquitetos do século 20 no mundo.

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Nascido em 1907, o carioca que liderou a construção da cidade de Brasília nos anos 50, que projetou o edifício Copan em São Paulo e o Museu de Niterói no Rio de Janeiro, provocou uma reviravolta histórica na arquitetura brasileira, com seu traçado simples e uma inequívoca dedicação a estruturas monumentais.

Seus projetos são conhecidos por possuírem sentido escultórico condicionado à organicidade das diversas paisagens que os envolvem. E, aliado às formas moldadas por ele graças às possibilidades do concreto protendido, o recorte de seu trabalho faz também um convite à reflexão sobre questões sociais.

Niemeyer desenhou residências para todas as classes, militou pela esquerda socialista com a intenção de fomentar a igualdade social no Brasil, embebeu de sentidos ideológicos os vários projetos desenhados para o poder público brasileiro, como os prédios que cercam a praça dos três poderes, em Brasília.

Oscar Niemeyer com a presidente Dilma Roussef
EFE
Oscar Niemeyer com a presidente Dilma Roussef
Seu legado inspira profissionais do mundo inteiro. O brasileiro Paulo Mendes da Rocha, o inglês Norman Foster e a iraquiana Zaha Hadid, para citar alguns dos nomes internacionais mais influentes de uma geração posterior à sua, são alguns dos que declararam em público a importância fundamental de sua obra.

Formado engenheiro-arquiteto na escola de Belas Artes do Rio em 1934, sempre procurou o contraponto para uma arquitetura que considerava comercial. Em busca de novos caminhos, iniciou sua carreira no escritório de Lúcio Costa, urbanistas que anos depois assinaria o projeto urbano da cidade de Brasília.

Le Corbusier foi outro mestre e uma de suas principais influências. Niemeyer o conheceu no Rio de Janeiro, durante o governo de Getúlio Vargas. O arquiteto francês esteve aqui para atuar como consultor nos projetos do Ministério da Educação e Saúde Pública, no Rio de Janeiro.

Uma das primeiras grandes obras de Niemeyer foi encomendada por Juscelino Kubitschek ainda nos anos 1940. Trata-se de um conjunto de edifícios da Pampulha, em Belo Horizonte (MG), um marco do modernismo arquitetônico no Brasil. Ali aparecem pela primeira vez as intenções do arquiteto de criar uma identidade brasileira, por meio de uma representação de formas leves e curvas.

Edifício Copan, no centro de São Paulo, obra de Niemeyer
AE
Edifício Copan, no centro de São Paulo, obra de Niemeyer
Em pouco tempo, o nome de Niemeyer passou a ser conhecido no mundo inteiro. Além dos edifícios erguidos em território nacional, ele tem projetos assinados nos Estados Unidos, na França, na Itália, em Portugal, na Argélia, na Noruega e na Rússia. Uma de suas principais obras é o Centro Cultural de Le Havre, apelidado de Le Volcan (o vulcão), inaugurada em 1982, na comuna francesa Le Havre.

Embora seu trabalho seja reconhecido mundialmente, não foram poucas as críticas dirigidas a ele. O crítico do jornal americano “The New York Times” Nicolai Ouroussoff, por exemplo, em 1997, publicou texto contestando alguns preceitos da arquitetura de Niemeyer, de onde se extrai o seguinte trecho: “Não é apenas que suas últimas construções sejam de qualidade displicente, mas é que algumas das suas obras mais prestigiadas, desde a Catedral de Brasília ao Eixo Monumental da cidade, têm sido arruinadas pelas próprias mãos do arquiteto”.

Sobre o museu de Niterói, o crítico chega a escrever que “é como se o museu fosse desenhado por um talento menor que conseguisse imitar as linhas cheias de graça dos desenhos de Niemeyer, mas lhe faltasse habilidade e paciência (...).

A principal questão apontada por Ouroussoff, assim como por outros críticos da obra de Niemeyer, é a valorização da beleza estética em detrimento da funcionalidade de boa parte de seus edifícios. Da mesma forma, fala-se de sua inflexibilidade diante de possíveis ajustes em seus projetos, como a falta de vegetação em torno do Memorial da América Latina, em São Paulo.

Ainda assim, aos 104 anos, Niemeyer continua produzindo. Há obras projetadas por ele a serem inauguradas ainda. Na lista estão a sede da Fundação Oscar Niemeyer, em Niterói, e o Museu Pelé, orçado em R$ 20 milhões, que deve ficar pronto em 2012, em Santos.

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