20/10 - 13:05 - Marco Tomazzoni
SÃO PAULO – Um dos nomes mais celebrados do cinema argentino contemporâneo, Pablo Trapero está sendo homenageado na 32ª edição da Mostra Internacional de São Paulo. Aos 37 anos, o cineasta ganhou uma retrospectiva com seus cinco longas-metragens e ministra nesta segunda-feira (20) um workshop sobre direção na FAAP, já com vagas esgotadas. Além disso, apresenta na cidade, junto com a atriz e esposa Martina Gusmán, “Leonera”, candidato argentino ao Oscar que tem Rodrigo Santoro no elenco – o filme será exibido às 19h, também na FAAP.
O longa é uma co-produção entre Argentina, Coréia do Sul e Brasil, através da Videofilmes, produtora de Walter Salles que apóia Trapero desde o longa “Família Rodante” (2004). Em entrevista ao iG no final de semana, depois de uma feijoada promovida pela organização da Mostra, Trapero comentou que esse tipo de parceria entre sul-americanos favorece a circulação de filmes na região, já que a produção audiovisual local não é vista na América Latina.
“É mais fácil assistir filmes latino-americanos em festivais da Europa do que aqui. Por isso as co-produções são interessantes, ajudam a cruzar fronteiras”, disse. “O ‘Leonera’ já tem estreia garantida no Brasil, mas há dez anos isso não aconteceria. O quadro está mudando muito lentamente, mas está.”
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Rodrigo Santoro em cena de "Leonera", no qual fala espanhol / Divulgação |
Nesse sentido, também ajuda a escalação de Santoro para o elenco, apesar, segundo o diretor, do “marketing” da escolha nunca ter sido levado em conta. “Em primeiro lugar, Santoro é um grande ator, com muito compromisso. Assisti à interpretação dele em ‘Carandiru’, e essa experiência foi muito boa para mim e para ele”, admitiu.
Isso porque em “Leonera” Santoro interpreta Ramiro, preso por suspeita de assassinato assim como Martina Gusmán, a protagonista do filme. As poucas cenas do ator se passam ou na prisão ou no tribunal. Mesmo pequena, a participação do astro brasileiro chamou a atenção da crítica internacional e rendeu elogios rasgados de Trapero. Apesar disso, o diretor deixou claro que foi fundamental o fato de Santoro já estar aprendendo espanhol para “Che”, de Steven Soderbergh. “Se ele levasse dois anos para aprender a língua, não ia funcionar.”
Crianças na prisão
Mas não é só com atores e contratos internacionais que se garante a exibição. Na opinião de Trapero, esse é um trabalho de diversas partes, dos produtores, do circuito exibidor e do próprio roteiro, que precisa interessar a públicos diferentes. “Há uma subestimação dos espectadores, vistos como burros por filmes que usam uma linguagem infantil, para crianças de 4 anos. É preciso explorar as possibilidades de dialogar com o público”, advertiu.
E é por aí que Trapero navega na escolha de seus projetos. O diretor tem a característica de mostrar realidades distantes dos moradores de Buenos Aires (o gelado e ermo sul argentino em “Nascido e Criado”) ou histórias de fundo social (a polícia portenha em “Do Outro Lado da Lei” e o sistema prisional em “Leonera”). “São dois anos, em média, de dedicação a um filme, então tem que ser uma história que te interesse. Tento abrir espaço para assuntos esquecidos, que não estão na primeira página dos jornais e na televisão”, explicou. “Tento fazer o retrato de uma situação, de uma época, através da ficção.”
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Martina Gusmán, protagonista |
Trapero se deparou com as peculiaridades do sistema carcerário ao dirigir um documentário no início da década. A preparação para “Leonera” envolveu um ano de pesquisas e entrevistas de Gusmán com detentas. Além disso, o elenco tem a presença de atores não-profissionais e de presas e policiais reais, mas o diretor nega que, por isso, o filme tenha um lado documental. “Qualquer forma expressiva tem ligação com a realidade. Um documentário tem uma olhar mais objetivo, entre aspas. Mas já que há um roteiro, o filme se torna uma ficção, com suas regras e equipe específicas.”
Celebração da diversidade
Apesar de parte da crítica enxergar certa unidade no cinema argentino de hoje – histórias humanas, com elenco afiado e personagens bem construídos –, Trapero defende que a situação é exatamente oposta. “Não há uma definição formal nem um manifesto, o que seria um erro. Há, sim, uma celebração da diversidade, com os filmes da Lucrecia [Martel], do [Daniel] Burmán, mais filmes experimentais, outros comerciais. Existe uma curiosidade por caminhos próprios, e essa diversidade é o que há de mais lindo e o que talvez dê unidade a essa cena.”
Com relação à homenagem da Mostra, batizada de “Apresentação Especial – Pablo Trapero”, o diretor se mostrou apreensivo, feliz e, acima de tudo, modesto. “Me agrada e também me dá muito medo”, brincou, “deviam fazer esse tipo de coisa para os grandes”. Trapero admitiu, porém, que esta não é a primeira vez que ganhou uma retrospectiva: depois de São Paulo, ele viaja a Paris para abrir evento similar na Cinemateca Francesa, e já foi assunto de ciclos no Uruguai e em Londres, no ano passado. “Sinto-me lisonjeado, mas meu negócio é continuar fazendo filmes”, esclareceu.
Veja o trailer de "Leonera", de Pablo Trapero:
Assista a trailers dos filmes da Mostra na TV iG
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