09/08 - 01:47 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
No próximo dia 14 de agosto, começa a "20ª Bienal do Livro", que, na cidade de São Paulo, ocorre a cada dois anos. É oportunidade para o leitor travar contacto com os livros das mais relevantes editoras de modo direto, sem a mediação da imprensa e das livrarias, que adquirem, sobretudo, os que foram resenhados nos jornais impressos. Nessa Bienal, 350 editoras e 900 selos editoriais expõem os seus 210 mil títulos, quatro mil deles especialmente lançados agora.
| Divulgação |
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| Cartaz de Mulholland Drive, de Lynch |
Não se deve idealizar o mundo dos livros e das letras e tampouco a Bienal: a literatura impregnou-se do marketing e da autopromoção e o visitante vai se deparar com autores estrangeiros e brasileiros de pouca qualidade, anunciados como “atrações”. Há até os autodenominados escritores como Gabriel Chalita – um caso grave – e Chico Anysio. Um estrangeiro desconhecido em seu país receberá aqui tratamento de “estrela”. Há uma evidente falta de critério literário e ou artístico nos convites, o que me faz pensar sobre o papel crítico da imprensa na vida dos livros e da cultura.
Os portais e a tevê não se interessam pelos livros
Os maiores portais brasileiros não têm editoria de cultura e de livros. O "UOL", o "Terra", o "iG" e o "Globo.com" têm editorias de entretenimento e diversão, em outras palavras, de celebridades e mulheres nuas – de fatos irrelevantes. Uma irresponsabilidade, porque perdem em audiência somente para a tevê, que nunca teve editores de cultura, relegando esse papel aos jornais impressos.
A literatura na tevê existe naquelas adaptações duvidosas da "Rede Globo". Ao contrário do panorama brasileiro, o portal do "The New York Times", o mais influente do mundo, e o portal de "El País" (espanhol), o mais importante do universo ibero-americano, estampam, diariamente, em suas homes, as palavras “cultura” e “livros”. O "UOL" nasceu, de certo modo, dissociado da "Folha de S. Paulo", e o "Globo.com" estuturou-se a partir da "Rede Globo" e não do jornal "O Globo". O "Terra" e o "iG" são portais sem vínculos com outros veículos, o que lhes permitiria inovar.
A mídia atravessa momento de redefinições principalmente entre jornais impressos, que ora tentam imitar a tevê, ora os portais, com seus textos curtíssimos e muitas fotos, quando deveriam analisar em profundidade e com bons articulistas as notícias, que, na internet, na tevê e no rádio, são dadas imediatamente.
Os portais deveriam investir em cultura e livros: o que falta de espaço nos jornais, em virtude do preço do papel, sobra neles. E a tevê deveria – como concessão do Estado – ser efetivamente fiscalizada. Sua programação é deseducativa e de baixa qualidade, inclusive, nas tevês públicas como a "Cultura" de São Paulo, que, agora, tenta se reerguer com Paulo Markun.
Como o jornal trabalho o livro
Os três maiores jornais brasileiros, a "Folha de S. Paulo", o "Globo" e o "Estado de S. Paulo" reservam – heroicamente – espaço para livros. A "Folha" aos sábados sobretudo e aos domingos no Caderno “Mais!”, quando divulga uma lista de lançamentos generosa e plural. O caderno “Ilustrada”, de sábado, dia 2 de agosto de 2008, publicou Paulo Coelho – um “escritor” atípico – em sua capa e lhe resenhou “Bruxa de Barcelona”, que obteve a cotação de regular. Coelho edita pela "Agir". A gigante "Record" teve um livro resenhado e a pequena "Estação Liberdade" outro, aliás, o melhor entre todos os títulos: “Ponto de vista de um Palhaço”, de Heinrich Böll.
Já a "Cia. das Letras" – como sempre – teve mais espaço do que as
O curioso é que Marjorie Rodrigues, do portal "BOL", do grupo "Folha", no mesmo dia, criticava duramente Coelho, por manter seu “estilo infantil”, muito simples. O mais cínico ainda é que, em “Bruxa de Barcelona”, uma personagem anônima, como lembra Rodrigues, “protesta em um bar contra a mercantilização da cultura”. O único mérito de Paulo Coelho é insistir na “mídia” livro e dinfundí-la.
A "Folha" foi, nas duas últimas décadas, o jornal que mais contribuiu para a cultura com suplementos como “Folhetim”, “Letras” e mesmo o “Mais!”, quando possuía uma inflexão polêmica. O suplemento “Cultura”, do "Estadão" de domingo, tem mais nível do que o decente e informativo “Prosa e Verso”, de "O Globo".
O “Cultura”, de 3 de agosto, publicou duas resenhas, uma sobre “Uma História da Música Popular Brasileira”, de Jairo Severiano, livro da "Ed 34", de porte médio, e outra sobre “Razões de Estado”, de extraordinário Noam Chomsky, da "Record". Destacou nove títulos de variadas editoras.
Por outro lado, noticiou os 25 anos da morte do imprescindível cineasta espanhol Luis Buñuel, fato que o "El País" e "The New York Times" já haviam registrado, com análises, há uma semana; o registro brasileiro, como consolo, foi feito num texto de Luiz Zanin – o melhor crítico de cinema em atividade. O ponto fraco do “Cultura”, e até vergonhoso, foi estampar um texto do esdrúxulo “poeta” Affonso Romano de Sant’Ana, negando ainda o legado de Marcel Duchamp (ler sobre ele, Duchamp, em outra coluna) e “as vanguardas”. Poderia ter escolhido alguém mais proficiente. Deu capa para Jorge Amado, muito superior e mais importante para a cultura do que Paulo Coelho.
A imprensa escrita e o livro, basicamente como os conhecemos, são
Bienal do Livro
Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi
De 14 a 24 de agosto, das 10h às 22h
Site oficial www.bienaldolivrosp.com.br
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