publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Roberto Piva, um mito vivo e intocável

05/07 - 14:35 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

Estranhos sinais de Saturno, de Roberto Piva, reúne o livro Ciclones, de 1997, o livro inédito Estranhos sinais de Saturno (1997-9), manifestos de várias datas, e um compact disc, contendo gravações de poemas lidos pelo autor – interessantes. Há um prefácio de Alcir Pécora, talvez o melhor crítico literário em atividade no País, em razão de sua capacidade de análise e clareza ao escrever, e um posfácio de David Arrigucci.

A locução “estranhos sinais de Saturno” é, em si, redundante, porque qualquer sinal de Saturno é estranho. Como a poesia é equívoca, leio “estranhos sinais soturnos”, o que, igualmente e de certo modo, é rebarbativo.

Piva – que é um mito vivo, intocável – dedica seus poemas a um número grande de amigos, como José Celso Martinez Correa, Maria Rita Kehl e outros. São poucos os poemas que não trazem epígrafe erudita, altamente literária. E o livro vem – reitero, pela relevância institucional – com o endosso de um professor da Unicamp e outro da USP - lançado por uma editora de renome.

Começo a refletir, em conseqüência, sobre a afirmação inicial de Arrigucci: “desde 1963, a poesia de Roberto Piva bateu como um ciclone para desarrumar a paisagem paulistana e instaurar seu mundo delirante”.

Esse “mundo delirante” só pode existir, pois, nos poemas. Não é o que ocorre, em parte. De longe, Ciclones é muito melhor do que Estranhos sinais de Saturno, o livro até agora inédito, e do que os manifestos (estão mais bem realizados nos próprios poemas).

Noto que Piva, poeta superior a 95% dos que aí estão, tem fé na palavra e, digamos, muita fé na contra-religião, representada pelo xamanismo. Não se esqueça que xamãs são caciques, ou seja, chefes, detentores de segredos e não só mágicos, salvadores da humanidade – o que se choca, em termos, com sua poesia, que se pretende libertária. Talvez a graça de sua presença e poemas resida nessas contradições tão veementes de uma pessoa doce.

Verifico algumas características gerais nos dois livros em pauta: seus poemas são frases com começo, meio e fim, sem rupturas sintáticas “delirantes”, “ciclópicas”; dou um exemplo: “antes/ de desaparecer/ no/ túnel/ das nuvens/ chega o vento/ a caixa do céu/ se abre/ a estrela/ no olho às/ vezes/ é o/ coração que bate/ estou sozinho/ no topo dos hemisférios”.

E são compostos com versos livres comuns – quase prosaicos, feitos poesia pelos cortes, algumas vezes arbitrários. Um segundo traço comum: a abstração; dou exemplo: “não há tempo/ a perder/ o efeito eletrônico/ passeia pelos jardins/ do Desterro/ como uma gota de Sombra/ sorrisos de diamantes de outrora/ com seus Anúbis”.

Outra: a glosa, ao “falar” bastante, e o tempo todo, das virtudes de seus poetas eleitos. Exemplo: “Walt Whitman/ objeto voador identificado/ sozinho no estreito de Behring/ sempre em vertentes de luta/ esgrimindo com o/ Alecrim do Campo/ nas costas tostadas da montanha”. O bonito verso “esgrimindo com o Alecrim do Campo” se enfraquece no conjunto.

O canto IV de Estranhos sinais de Saturno inicia-se com um verso digno do Haroldo de Campos de “Glande de cristal/ desoculta/ ramagem de signos”; leia-se Piva: “a vítrea libação das páginas de poesia/ ilumina as escadas do êxtase/ no corrimão afrodisíaco/ onde você aparece com sua tatuagem/ de dragão de olhos azuis”. Pergunto: que tempestade violenta de vento (ciclone) há em usar a palavra “libação” (sei que o poema está em Estranhos sinais de Saturno)?; que desarrumação isso provoca? Imaginem se uma poetisa escrevesse esses versos para um homem.

Piva é um idealizador da figura do poeta, do poder da palavra do poeta, ou melhor, um nostálgico do poder do verbo poético (o que pode ser um mérito), ao mirar-se no xamã – o que me traz à tona matéria do jornal espanhol El País (24 de janeiro de 2008), que relata que dois indígenas costarriquenses mataram um xamã, para que ele parasse de lhes importunar com besteiras.

Um deles explicou: “Vivia ameaçando as pessoas. A comunidade estava cansada das maldições que lançava”. Dou esse exemplo para mostrar a mistificação que se faz em torno de qualquer xamã, seja ideal ou real. Além disso, como anotei, o xamã é o chefe incomum, o cacique, ao qual os índios devem, obnóxios, seguir, em razão de seus poderes “curativos”. Estou mais para John Lennon, quando diz: “Não acredito em Mágica/ no I-Ching/ no Tarô/ na Bíblia”. Mera questão de temperamento. Testemunho guerras sangrentas em nome de “religiões” de todos os tipos, inclusive xamânicas.

Prefiro guardar comigo o Piva mais despojado e violento – menos abstrato, que aparece em poemas como “esqueleto de lua/ o tempo/ tambor tão frágil/ vomitando a noite”. Ou ainda: “o amor/ grita na minha garganta/ a serpente/ o gavião/ o jaguar/ me vêem/ como seu Duplo”. Todavia, há tópicas que me desagradam, como a epígrafe (mais uma!) de Georges Bataille, que diz: “A verdadeira poesia se encontra fora das leis”.

Existe então uma poesia verdadeira e outra falsa? Dane-se o dito imbecil de Bataille! E, diga-se, Piva pretende criar suas “leis” poéticas, no caso xamânicas, como todo poeta. Gosto muito do “Poema vertigem”: “Eu sou a orgia com o/ garoto loiro e sua namorada/ de vagina colorida/ (ele vestia a calcinha dela/ & dançava como Shiva”. Foi esse Piva que – pioneiro, engajado contemporaneamente do ponto de vista político na época – produziu a única poesia homossexual de qualidade do Brasil, que transcende, justamente por isso, sua temática homossexual, quando confronta sexo com alta literatura, questionando-a. Daí vem o merecimento e o mito.

Estranhos sinais de Saturno – Obras reunidas, vol. III
Roberto Piva
São Paulo, Globo, 2008, 213 p.


Leia também:





US Multimídia


Publicidade


Matérias Relacionadas

16/08/2008 - 00:56:12

Angelina Jolie, McCain e Obama

12/07/2008 - 11:34:59

O “biopoder” dos Castro


Enquete