21/05 - 14:26 - Agência Ansa
CANNES, 21 MAI (ANSA) - Um público dividido, entre vaias e alguns aplausos, foi o que a cineasta argentina Lucrecia Martel viu nesta quarta-feira em Cannes, após a projeção de seu filme "A Mulher sem Cabeça" ("La Mujer Sin Cabeza").
"Posso compreender que um filme assim seja amado e odiado", diz a própria diretora, admitindo com naturalidade a atmosfera rarefeita e instável de sua nova produção, que concorre à Palma de Ouro na 61ª edição do festival francês.
Lucrecia Martel conta a história – quase subjetivamente – de Verônica, uma mulher adulta (interpretada por Maria Onetto) que, certo dia, tem a impressão de ter atropelado algo durante um momento de distração ao volante. Um cachorro, uma pessoa? Nem a diretora sabe, mas o fato é que a vida da personagem muda totalmente a partir de então.
Verônica quase não reconhece mais sua família e amigos e passa a viver em seu mundo, assolada pela obsessão de talvez ter matado alguém, mesmo sem ter conhecimento da existência de um cadáver. Lucrecia explica que "não é uma metáfora para a ditadura argentina", como se especulou, e garante que não pretendia imitar o italiano Michelangelo Antonioni, mestre em transpor à tela os incômodos existenciais.
"Verônica sofre um processo exatamente contrário àquele da educação. Como diz a medicina popular do norte do meu país, depois de um fato traumático, é como se a alma se destacasse do corpo para proteger a própria pessoa. E por isso a percepção das coisas passa a ser nova, virgem", explica.
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