Alicia García de Francisco Cannes (França), 17 mai (EFE).- O filme brasileiro "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas, teve uma recepção morna em sua primeira exibição no Festival de Cannes, onde o clima era de expectativa em relação ano novo trabalho do diretor de "Central do Brasil".
Em entrevista coletiva, Salles explicou que o longa, sobre uma mulher com quatro filhos que volta a engravidar, trata de um problema muito comum nas famílias brasileiras: o da "ausência crônica do pai".
"Falamos de uma família disfuncional", que tenta sobreviver na "selva de São Paulo", uma cidade dura, complicada e, sobretudo, cercada de violência, acrescentou.
Essa violência, a religião, o futebol e os sonhos são o que norteiam a vida dos quatro irmãos do filme, cada um dos quais tenta se encontrar à sua maneira.
O mais novo deles, por exemplo - interpretado de forma muito sensível pelo estreante Kaíque de Jesus Santos -, procura desesperadamente o pai ausente, busca que os irmãos já abandonaram.
A mãe, por sua vez, é "a resistência moral", o que reflete a realidade do Brasil, onde o número de famílias sem pai se multiplica, comentou Salles em Cannes.
No entanto, apesar de a produção tentar ser um ponto de vista diferente sobre a realidade da juventude brasileira, ficou faltando à história a força de filmes mais duros, os quais, segundo Salles, contam apenas uma parte da realidade do Brasil.
"Dos jovens brasileiros, 90% tentam sair dessa situação, tentam se reinventar", mas, apesar disso, "grande parte dos filmes brasileiros é sobre violência", declarou.
"Linha de Passe" nasceu do desejo de Salles e de Daniela Thomas de retratar a juventude brasileira e de fazê-lo sob uma nova perspectiva. Não por acaso, para a maioria dos atores e da equipe técnica, o longa representou sua estréia no mundo do cinema.
"Uma enorme quantidade da equipe técnica" e "89% dos atores nunca tinham feito cinema", contou Salles.
O diretor também disse que o roteiro foi trabalhado para dar ao filme esse olhar novo tão almejado.
Sobre isso, Daniela Thomas disse que, desde o princípio, São Paulo foi um personagem a mais no filme, a ponto de as cenas terem sido construídas sobre as locações escolhidas.
"São Paulo é só ruas, edifícios... Você vai dormir e quando acorda já há outro bairro, outra favela", disse a co-diretora, segundo quem, com o método adotado, foi possível integrar o longa à cidade.
Quanto à dificuldade de dividir a direção, Salles admitiu que "seria muito difícil" trabalhar sempre desta forma.
"O filme está enriquecido por olhares diferentes" e resgata a "idéia do cinema como uma experiência coletiva", por isso é necessário "confiar" completamente um no outro.
Além disso, acrescentou, o longa trabalha apenas com um ponto de partida, a partir do qual se desenvolve, por isso "a improvisação era constante" e a câmara "estava a serviço dos atores".
"Entre 25% e 30% das cenas que rodamos não tinham sido escritas", disse Salles.
Sem concessões, mas com um final absolutamente aberto à salvação de seus protagonistas, o filme peca pela falta da força da verdade, vista em trabalhos anteriores do diretor, como "Abril Despedaçado".
EFE agf/sc