09/04 - 00:37, atualizada às 10:38 26/06 - Marcela Tavares
EMERYVILLE (EUA) - No primeiro dia em que conversaram sobre Wall-e, a referência para um robô que não fala foi R2D2, de "Guerra nas estrelas". Ninguém melhor que o criador dos apitos do robô, o premiado engenheiro de som Ben Burtt, para fazer as vozes e os sons da Terra e do espaço em "Wall-E". "Meu trabalho é fazer tudo que você ouve no filme, das vozes aos objetos, passando pelo som da tempestade de areia" é como ele explica de forma simples o seu interessante e complexo trabalho
Quanto tempo foi gasto em “Wall-E”?
Passei os últimos três anos trabalhando em "Wall-E", o que para um engenheiro de som é muito tempo para fazer um único projeto!
Como foi o processo de desenvolvimento das vozes dos personagens principais?
Conversei muito com Andrew para que ele me dissesse que tipo de emoções e personalidade ele queria para os personagens, que sentimentos queria demonstrar. É um trabalho de dar uma alma ao personagem sem usar sentenças e palavras. Então fiquei um ano trabalhando só no desenvolvimento das vozes. Eu fazia alguns sons, os animadores faziam algumas cenas e eu adicionava mais sons.
Quanto trabalho gerou a produção de sons em "Wall-E"? E como esses sons são arquivados?
Eu gerei a maior biblioteca de sons que já fiz, maior ainda que a de "Star Wars"! Eu sei que procuro coisas como "barulhos fofos", mas nunca os arquivo assim, geralmente eu coloco o nome do que eles realmente são, como "escova de dente", ou "motor de carro". Só algumas vezes que escrevo na descrição do arquivo o sentimento que esses sons passam, confio na minha memória.
Como você encontra o som ideal para cada efeito que quer fazer?
Hoje em dia o trabalho do engenheiro de som é mais fácil porque a tecnologia é melhor, é possível andar sempre com um gravador digital pequeno por aí. Para “Wall-E” saímos procurando sons mecânicos, carros, portas, miniatura de jatos e trouxemos tudo para o estúdio. Outro dia ouvi uma lâmpada zunindo, gravei e a usei para campos de força e personagens que flutuam. Para a cena em que Wall-E é soterrado por carrinhos de supermercado, fui a um deles com minha filha de 10 anos, um gravador, e nos divertimos esbarrando em outros carrinhos, em estantes, correndo no estacionamento. Já o som de Wall-e compactando lixo vem do som de um carro sendo compactado.
Já passou por problemas ao tentar gravar algum som?
Sim, claro! Uma vez minha mulher estava muito doente e com uma respiração muito pesada. Daí no meio da noite ela acordou com o microfone que eu estava segurando para gravar a respiração e claro que ficou muito nervosa comigo. Mas a respiração era fantástica! É difícil perder essas oportunidades. Outra que gravei foi minha filha com três meses de idade e o som de uma garotinha foi a base para o barulho do monstro marinho de "A Ameaça fantasma".
Como foi feita a voz de Wall-E?
O truque, que também foi usado para a voz de R2D2, é misturar sons humanos, que dão emoção, com eletrônicos. Por exemplo, para o som do braço de Wall-E ser uma coisa fofa, usamos o som de uma escova de dente elétrica. Já para a voz de Wall-e eu me gravo encenando as sentenças e jogo tudo no computador, que desconstrói toda a minha voz. Daí começo a reconstruir tudo do zero. Eu tenho um programa com uma caneta que me permite trocar de forma muito simples a entonação de uma frase. Para a voz de Eve fizemos o mesmo processo, usando como base a voz da atriz Melissa Knight.
O quanto a tecnologia facilita seu trabalho?
A chave para o que faço é achar o som ideal para o momento certo. Inconscientemente, as pessoas associam sons a ações e fatos, e eu tenho que procurar o som certo para que o público perceba o que você quer passar. Além disso, tenho muito pouco tempo para passar essas sensações. A tecnologia hoje no máximo me possibilita trabalhar em sons sozinho, do meu laptop, sem precisar de um estúdio ou uma equipe para criar.
Que referencias você buscou para fazer o som de “Wall-E”?
O filme é uma homenagem à ficção científica, e então me voltei aos clássicos como "Guerra dos mundos" e "O planeta proibido".
Fugindo um pouco de "Wall-E": como você chegou no som da respiração de Darth Vader em "GUerra nas Estrelas"?
O script dizia que ele usava uma mascara e uma roupa que escondiam aparelhos de suporte à vida. Então fui a uma loja de mergulho e pedi permissão ao dono para testar no banheiro uma série de máscaras. Eu colocava o microfone na válvula e daí de repente consegui aquele som com uma delas. Nunca pensei que esse trabalho ia ser tão grandioso assim, nunca imaginei que um som que fiz iria ser a única coisa a ser ouvida em um trailer de um filme, me sinto realizado com isso.
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A jornalista viajou a convite da Disney.
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