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Milton Hatoum encara o desafio da novela em “Órfãos do Eldorado”

18/03 - 09:39 - Jonas Lopes e Luciana Araujo

SÃO PAULO – "Cada livro te ensina como escrevê-lo", diz o escritor Milton Hatoum nesta conversa sobre sua mais nova obra. "Órfãos do Eldorado" (Companhia das Letras) é um caso em que o tal aprendizado, entre tantos outros típicos de qualquer produção artística, se deu principalmente pelo desafio imposto pelo gênero. Romancista premiado, Hatoum fala ao Último Segundo sobre a dificuldade enfrentada ao aceitar a empreitada de enquadrar um de seus projetos nas regras da "Coleção Mitos", idealizada pela editora escocesa Canongate e publicada por um pool de editoras em 30 países.

Autor de fôlego romanesco, Hatoum chegou a reescrever toda a história para que atendesse às exigências de uma novela. O resultado é um livro com ares de novo dentro da obra do autor ao focar narrativa no narrador e na história que este conta, com base no mito amazonense da Cidade Encantada, mas que também carrega os traços de seus livros anteriores. Uma celebração da experiência individual em um lugar muito específico no Norte do País resgatada via memória que, ao mesmo tempo, abarca questões que são do Brasil como um todo e do homem para além da nacionalidade.

Milton agora se volta para três novos projetos: um livro de contos – o primeiro do gênero, com textos já publicados em periódicos brasileiros e estrangeiros e alguns inéditos –, outro de crônicas e um terceiro de ensaios sobre literatura.

Foram onze anos entre o lançamento de “Relato de um certo oriente” e “Dois irmãos”; cinco anos entre “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”; e menos de três anos entre “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”. O que mudou para esses períodos terem se encurtado?
Cada livro te ensina como escrevê-lo. Cada narrativa impõe o ritmo e uma forma de escrita. Essa lacuna de 11 anos é muito longa no ponto de vista da publicação, do ineditismo, mas eu escrevi muita coisa nesse período. Inclusive uma ficção grande, que está guardada. Escrevi entre 1992 e 1996, mais ou menos. Tinha até um título, “Um rio entre dois mundos”, mas ficou enorme e eu não quis reescrever naquele momento. A novela foi para mim um desafio porque você tem que juntar muitas coisas em cem páginas. Isso era uma limitação da coleção da Canongate: você não pode escrever um texto muito maior do que 25 mil palavras. Poderia escrever 28 mil, 30 mil, mas não um romance. Foi bom para mim o desafio de trabalhar com um assunto que, por causa do limite de espaço, pede força e, ao mesmo tempo, um foco muito centrado na vida do narrador e na rede de relações que ele tece.

Uma coisa interessante que você comentou na entrevista para o “Estado de S. Paulo” sobre o limite de tamanho é que não foi só um trabalho de cortar, mas de manter um inesperado no texto o tempo todo. E você, que tem formação de arquiteto, fala de simetria. Como se faz o desenho desse inesperado, dessa simetria, como foi a construção espacial da novela?
Eu sempre começo a escrever um esboço, um esboço muito ralo. São apenas algumas concepções dos personagens. Preciso saber quem é quem no que vai acontecer e algumas indicações de conflitos. Preciso saber o que me preocupa, o que me inquieta, por que eu vou escrever isso, o que me impele a escrever e publicar um texto. A primeira versão é bastante confusa, até para mim. É quase ilegível. Eu escrevo a mão, depois passo a limpo no computador e já vou mudando, mas mesmo assim o resultado é impublicável. É como se fosse o manuscrito de um bêbado. No “Órfãos do Eldorado”, escrevi uma versão muito longa, chegou a 40 mil palavras. Fiquei um pouco neurótico com a limitação. Caminhava para um romance, com muitas digressões. E aí voltei e reescrevi, foi isso que deu mais trabalho. Da primeira versão fisguei o que havia de mais importante para desenvolver a novela. Mudei o tom do narrador – achei que tinha que ser um velho –, um narrador na primeira pessoa, não pacificado com a vida, mas, de alguma forma, desencantado e tentando lembrar aquilo que aconteceu enquanto está bebendo cachaça.

A prosa de “Órfãos do Eldorado” é mais direta e simples que a dos seus livros anteriores, especialmente o primeiro, que tinha períodos bem longos. O limite de páginas da coleção Mitos influenciou isso?
Essa mudança foi uma imposição da voz do narrador. Porque quando você encontra o tom, você encontra o livro que está escrevendo. E quando você encontra esse tom, encontra a voz do narrador, entra na pele dele. Está ali com ele, dentro dele. Como tinha essa limitação de espaço, eu não podia fugir muito dos eventos. Tem um grande crítico, que hoje não é mais lido, mas que na minha época se lia muito, o Wolfgang Kaiser, velho crítico alemão, que dizia que o narrador não pode divagar para muito longe. Eu me lembrava disso enquanto escrevia. O que deu essa noção de simetria e eqüidistância foi o poema do Kafávis [Konstantino Kafávis, poeta grego que está na epígrafe de “Órfãos do Eldorado” com o poema “A cidade”]. O Kafávis norteia o livro. Porque o poema é sobre mudar para uma vida melhor, o eu-lírico que você evade em busca da felicidade. Só que na outra parte do poema o outro eu-lírico diz que não, você não vai encontrar outras terras, outros mares. A cidade vai atrás de você.

Arminto só consegue ouvir sua amada Dinaura nos sonhos. Isso é um sinal de que Eldorado, a paradisíaca cidade desaparecida, no caso a felicidade amorosa dele, é uma utopia inalcançável?
É uma utopia, mas cabe ao leitor dizer se ela é apreensível. Quando termina o livro, você não sabe se aquilo é verdade ou loucura dele. Ele diz que a mulher está ali na casa, que ele foi buscá-la no Eldorado, que, por ironia, é o nome do barco do pai e também aquele lugar lindo. Quando ele vê o lago, compara com um espelho deitado da noite. É quando o mito espelha a história. Como o mito pertence ao mundo natural, ele só faz sentido na literatura quando se transforma num drama. A narração do mito, na sua pureza e integridade, não serve para a ficção moderna, contemporânea. Você se apropria do mito para transformar num drama. E a novela cabe muito bem no drama, porque ela é compacta.

Há no livro muito cuidado com os nomes.
Os nomes são importantes. Arminto tem a coisa etérea do ar e a mentira dele. Amando vem do latim “aquele que é amado”, não pelo filho, mas por todos os outros. A Dinaura tem a aura e o ouro. Cordovil tem a vilania e o coração, a cordialidade, dois opostos concentrados no mesmo nome. Estiliano tem a ver com estilo. E Estiliano, o apóstolo, é aquele que leva a mensagem, e no livro é ele que leva a mensagem, o segredo de onde está o Eldorado.

E a Florita?
A Florita é especial. As mulheres para mim são mais importantes. A mãe do Arminto, por exemplo, que está totalmente ausente, é uma figura simbolicamente importante para ele. Já a Florita une esses homens, pai e filho.

E o nome?
A escolha do nome partiu do diminutivo de flor.

Ela tem espinhos de vez em quando...
Ela é uma pessoa que foi resgatada do mar, foi um dos gestos filantrópicos do pai, que deu estudo, deu tudo para ela. Há uma ambigüidade se ela teve relação íntima com pai. Com o filho teve. Acho que é um personagem bem amazonense, ajudada pelo político, pelos amigos do pai, e que termina vendendo beiju na rua. Acho que ela é a pessoa mais digna do livro (risos). Não sei por que eu gosto tanto dela. Você, de alguma forma, se apaixona pelos personagens, e eu gosto muito dela. O Estiliano também é uma figura que tem grandeza, uma paixão pelo Amando que é velada, e tudo o que ele quer é ler, traduzir e formar leitores naquelas cidades perdidas.

Desde o “Relato”, a família é um centro nas suas narrativas. E há um momento em que alguma questão arcaica faz alguém da família se isolar. Por que esse tipo de isolamento, essa desordem?
Essa ordem, para se tornar romanesca, precisa passar por uma disfunção, um conflito interno e traumático. Nunca havia pensado nisso, especificamente, talvez seja trabalho do inconsciente. Mas pensando bem, existe esse isolamento, faz parte da história do romance. E também a solidão, porque quase todos nos meus livros são solitários. O narrador de “Dois Irmãos” está sozinho na edícula escrevendo a história da família. Um pouco também como o “Cinzas do Norte”, Olavo sozinho, vários anos depois, e agora o Arminto contando na tapera o que aconteceu com ele.

A solidão é um dos mitos do individualismo moderno. Uma espécie de desajuste que começou com “D. Quixote”, entre a fantasia e a realidade. Ou “Robinson Crusoé”, que é outro mito sobre o individualismo do homem moderno. O romance trabalha muito com esses mitos, e a solidão é um deles. Porque quando você escreve, escreve na solidão. E a leitura do romance, que é um gênero burguês, é a leitura solitária do indivíduo, que não tem lugar na coletividade. Não se trata mais do épico, em que os acontecimentos são coletivos, guiados pelos deuses. Na burguesia você é um solitário na multidão. O romance reflete isso. Contar a sua história para alguém é como escrever a sua história para um leitor. Por isso a experiência individual é importante.

Você, aliás, sempre fala nas entrevistas sobre a importância da experiência pessoal para a escrita. Como avalia essa experiência sua com o que escreveu? Já está contemporâneo dela ou ainda está no passado? A escrita vai chegar ao período em que você morou na Europa ou até agora, em que mora em São Paulo?
Cada vez que eu acho que já posso escrever sobre essas épocas, de novo vêm as coisas da minha infância. Aconteceram muitas coisas. Eu achava que tinha esgotado. Mas você espreme um pouco o passado e ainda saem umas gotas.

E a sua cidade vai atrás de você.
A minha cidade vai atrás de mim. Parece uma maldição...

Quando estiver escrevendo sobre São Paulo, ainda será um romance manauara?
Talvez, mas a experiência muda tudo radicalmente. Por enquanto ainda estou por lá. Eu tenho um conto que se passa entre Paris e Rio. Chama-se “Bárbara no inverno”, saiu em uma coletânea da Publifolha, inspirado em uma música do Chico Buarque, “Atrás da porta”. É um conto que fala da minha experiência em Paris, no começo dos anos 1980.

O “Cinzas do Norte” já tem um pouco disso, na experiência do Mundo na Europa.
Pois é. E eu já tenho vinte anos de São Paulo. Dez anos na década de 70 e agora mais dez anos. Vinte anos de momentos diferentes. São Paulo era uma cidade muito diferente do que é hoje.

Você diz que hoje em dia não reconhece mais a sua cidade, Manaus. Agora comenta que São Paulo é uma cidade diferente, mas a Manaus dos seus livros não é uma Manaus memorialística, uma Manaus cheia de lacunas assim como as narrativas dos seus livros?
É a minha Manaus. Uma vez conheci uma leitora que disse que foi a Manaus para encontrar “Dois irmãos” e não encontrou. Mas muitas pessoas disseram que sentiram o ambiente: o cheiro, as pessoas, o porto. No “Cinzas” já há uma Manaus do anos 1970, que expressa a primeira grande devastação urbana na periferia da cidade. Uma Manaus pós-Zona Franca. O Borges dizia que é mais verossímil falar de alguma coisa muito longe no tempo e no espaço, porque ninguém pode verificar se é verdade (risos). A Vila Bela do “Órfãos” foi inspirada em Parintins. Um dos nomes de Parintins no passado foi Vila Bela da Rainha. Eu conheci Parintins ainda jovem, voltei outras vezes e ao escrever o “Órfãos” voltei duas vezes, viajei de barco, andei pela cidade, localizei a fazenda Boa Vida. Isso quando eu já tinha avançado bastante no livro. As pessoas de Parintins vão perceber a inspiração quando lerem. A rampa do mercado, a praça do Sagrado Coração, que é a mesma, o Convento das Carmelitas, que está lá. Descobri o nome Dinaura em Parintins. Encontrei uma moça com um carrinho, perguntei o nome dela. Eu achei lindo. Já tinha uma personagem feminina, mas eu procurava o nome. Encontrei nessa moça. E a Manaus de 1900 até a Segunda Guerra eu conheço pelas fotografias, pelos livros, pelas histórias que meu pai e meu avô me contavam. Minha infância se passou numa Manaus intacta, que não tinha um edifício. Era uma cidade só com sobrados e bairros. Eu conhecia essa Manaus pré-destruição, antes das fábricas. Agora ela tem dois milhões de habitantes e eu não a reconheço.

Toda a sua obra – especialmente em “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado” – se passa em uma região muito particular do Brasil, o Amazonas. E, no entanto, elas deixam transparecer muitos dos problemas e questões do país hoje, no desencanto, no cinismo das relações humanas. Esse “universalismo regional” é proposital?
É intencional. O “Órfãos” está cheio de sugestões. Isso é que foi difícil: unir muitos problemas e transcender o drama familiar para falar um pouco da região e do país. A relação do pai com os empresários e os políticos é insidiosa, cheia de negociatas. O filho descobre nas cartas dele a relação escabrosa com os políticos. Cartas de ministério, do governador do Amazonas, um grande cambalacho que vai se criando ali. E o pai, segundo o Estiliano, é atormentado porque não consegue prosperar sem esses laços, essas relações perigosas. E aí eu estou falando do Brasil. O leitor ingênuo talvez não perceba, mas o atento vai perceber essas nuanças. O romance familiar extrapola os próprios conflitos internos e fala de uma coisa mais geral, que é a desfaçatez da política. Há um jantar em que o pai diz para o Leontino Byron: “você tem futuro político”. “Por qual partido?”. “Não importa, o que importa é ganhar”. Ou quando o Estiliano diz que só os políticos dormem e acordam de bom humor. A violência, as meninas violentadas. O Juvêncio, menino de rua, é um personagem secundário, mas eu quis dar força a ele, por ser um desvalido. A vida dele não teria outra saída a não ser o linchamento.

Milton Hatoum é um otimista ou um pessimista?
Ah, eu sou um otimista desesperado (risos). Estou envelhecendo... mas se você olhar para o país, vai ver avanços. Hoje mesmo eu li que o PIB aumentou graças à inserção de um grande contingente de pobres. Isso é um avanço, um avanço que se dá de uma forma muito lenta, por conta de questões estruturais. Ainda é uma sociedade de favor, de privilégios. Isso ainda não acabou no Brasil. Há essa inserção de muita gente no mercado, e não só no mercado, pois aí eu cederia apenas ao discurso liberal, mas na vida pública mesmo. Esse é um país que tem formado doutores negros.

Eu sinto nas minhas viagens, do Acre ao Rio Grande do Sul, que muita gente está lendo. O “Dois irmãos”, que tem uma edição de bolso, mudou completamente o perfil do meu leitor. Não é mais só o leitor de classe média, classe média alta. As pessoas mais humildes estão lendo, porque tem acesso a um livro mais barato. Isso é uma mudança. Também a internet: as pessoas estão acessando a internet. Já não é o país dos anos 1970. Era terrível, uma disparidade social brutal. Hoje existe uma massa de pessoas de classe média mais baixa que tem acesso ao que está acontecendo no mundo.

Você já tinha recebido outros convites para escrever livros encomendados, não? Lembro de ter lido que você participaria daquela coleção “Literatura e Morte” (em que novelas trazem autores famosos e mortos como personagens), da Companhia das Letras.
Eu aceitei e fracassei. Disse isso para o editor: não vou conseguir.

Qual autor você ia abordar?
Euclides da Cunha. Um autor cuja obra eu conheço um pouco, minha tese ia ser sobre Euclides, escrevi ensaio sobre ele, mas na hora de escrever a novela fiquei completamente travado. Saíram cinco frases. Eu publiquei um conto sobre Euclides no Jornal da Tarde, “Uma tarde de Bancroft”. Um conto que se passa em Berkeley (Estados Unidos), onde eu morei. O personagem encontra uma carta do Euclides na biblioteca de Bancroft e a carta é um pesadelo. O Euclides é um drama vivo. Tudo na vida dele foi dramático: literatura, a paixão. Morreu duelando com a amante da esposa. O que a literatura perdeu... e por uma besteira, os amantes são maravilhosos (risos).

O “Órfãos” é um livro em que há um embate forte entre pai e filho e em que as mulheres ficam em um plano ou da conciliação, como a Florita, ou místico, como a mãe, e você o dedicou a sua mãe.
Bom, minha mãe me iniciou na literatura. Eu não nasci nem engatinhei numa biblioteca borgeana. Quando eu tinha 12 anos minha mãe comprou a obra completa de Machado de Assis de um livreiro-viajante. Quando decidi largar a arquitetura houve uma resistência feroz da minha família. E da minha mãe não, ela foi a primeira a dizer “se é isso que você quer, vai fundo”. Eu já tinha publicado um livrinho de poesia em 1978, com amigos paulistas e cariocas, chamado “Amazonas, um rio entre ruínas”. Um livro artesanal, feito na FAU, onde eu estudava. E quando lancei em Manaus, pensei: “ninguém vai ler mesmo”. Até que o livreiro disse: “olha, está vendendo o seu livro, dois ou três por semana”. Um tempo depois descobri que a minha mãe mandava comprar o livro para dar para as amigas dela. “Por que você fez isso?”, perguntei. “Ah, é para te estimular, para você achar que tem leitores”. É uma dívida (se emociona). Até hoje, quando lanço livro em Manaus, ela leva todas as amigas, faz questão que eu assine os livros para elas.

Você sente expectativa, até externa, de ganhar prêmios com a novela, já que todos os outros livros ganharam Jabutis?
Ah, os leitores têm, a editora. Eu fico um pouco constrangido com isso. Nunca escrevi para ganhar prêmios. Tanto que o primeiro Jabuti eu nem vim receber. O Antônio Lobo Antunes diz uma coisa interessante sobre isso: para ele, um prêmio não melhora nem piora um livro. Prêmio dá prestígio, mas Prestígio é também aquele chocolate com coco que eu adoro (risos). O que sinto é orgulho, o que é diferente da vaidade, pelo reconhecimento. Agora, os prêmios que ganhei com o “Cinzas” me ajudaram muito a viver.

E como você vê essa espécie de profissionalização do escritor, em que a pessoa é requisitada, dá palestra, vai às feiras literárias?
Antes não tinha nada disso. Quando lancei o “Relato”, em 1989, a atividade literária era muito rala. Hoje, se o escritor tiver o público-leitor, não digo grande, mas razoável, consegue viver modestamente de literatura. Eu não dou conta. Ano passado recebi sete convites para ir ao exterior e não aceitei nenhum.

Algumas pessoas vêem um problema na literatura como um trabalho, como se ela tivesse apenas que ser uma inspiração, não a ralação de todos os dias.
Sempre foi assim. Dizer que não é trabalho é desconhecer a história da literatura. Você acha que Machado escreveu como? Na Rua do Ouvidor, conversando com as pessoas? Todo escritor que faz um trabalho sério passa horas e horas lendo e escrevendo. Eu só vejo essa discussão no Brasil. Quando você não tem leitor, as pessoas criticam. Quando você tem, criticam também. Eu passei pelas duas coisas: o “Relato” passou quatro anos sem ser reeditado. Foi um livro que vendeu muito pouco, e olha que teve uma divulgação enorme, orelha assinada pelo Davi [Arrigucci Jr, crítico literário], uma boa editora. Cada livro faz sua história. Aos poucos os leitores foram se interessando. Tem menos edições que o “Dois irmãos”, que instantaneamente criou um público-leitor grande.

E, ao mesmo tempo, você não vê uma pressa nos jovens autores de publicar e ter uma vida literária? Você publicou seu primeiro livro com quase 40 anos...
Eu sempre critiquei isso. É um erro. A não ser que seja um jovem genial. Eu não acredito em gênio. Acredito no talento, e talento é trabalho. Às vezes um jovem talentoso consegue escrever um ótimo livro com vinte e poucos anos. São tão raros que acabam sendo a exceção à regra. Há escritores que têm energia e conseguem escrever um bom livro a cada dois ou três anos. Como o Saramago, com altos e baixos, ou o Philip Roth.

Qual a sua opinião sobre o projeto “Amores Expressos” (em que autores brasileiros passam um mês em cidades diferentes do mundo e escrevem sobre a experiência) e programas literários com financiamento do dinheiro público?
Olha, o Ministério da Cultura financia teatro, cinema, canto, dança. Por que não pode financiar a literatura? Sobre os escritores, pela quantidade eu acho que vão sair bons textos. Difícil imaginar que todos vão sair maravilhosos. Eu não vou entrar nesse embate porque vira uma confraria de ataques e defesas. Certa vez o Jorge Amado, na única vez em que conversei com ele, me disse: “olha, nunca entre em polêmicas e agressões. Eu acho que quem pode me defender são meus livros e meus leitores”. Não fui convidado para o projeto, mas claro que não ia aceitar, porque já estava deprimido com um livro por encomenda. No entanto, fiquei contente porque vários jovens entraram. Temos que lutar pela boa literatura escrita pelos jovens. E a continuidade da literatura brasileira? Ela não acabou com Guimarães Rosa. Rosa foi a culminação de uma obra genial. Depois dele há bons escritores. Só que alguns jovens perdem muito tempo nesse embate, na briga literária, que não leva a lugar nenhum. As pessoas perdem muita energia nessas discussões porque não sabem, e deveriam saber, que o livro é o veredicto. Você não se impõe arrombando portas. É uma perda de tempo. Um bom livro, seja na internet, numa editora pequena ou grande, sempre vai se destacar.

Como é o seu processo de escrita? Você escreve todos os dias?
Quando eu dava aulas não. Era totalmente aleatório, escrevia quando podia, e poucas vezes eu podia. Quando me mudei para São Paulo e larguei a universidade, comecei a escrever todos os dias. Tenho necessidade de escrever. Quando estou para baixo, meio azedo, também não forço a barra. Escrevo por prazer.

E consegue se imaginar um dia não escrevendo?
Consigo me imaginar não publicando mais nada. Quando não houver nada mais que me inquiete, que me toque profundamente, eu paro.

O Estiliano tem na literatura uma válvula de escape para a existência. Ela ocupa um espaço parecido na sua vida?
Das coisas que eu aprendi a fazer, o trabalho humano que mais me interessa e mais me apaixona é a literatura, não a arquitetura. Mas não há para mim uma idéia ou perspectiva sacralizadora nisso; a escrita é uma atividade como outra qualquer.

Serviço:
“Órfãos do Eldorado”
Milton Hatoum
112 páginas
Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 29,00





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