03/01 - 16:06 - AFP
Uma dedicada dona de casa declara que já não quer ser "brinquedo dos homens" e exige que a sociedade reconheça a "individualidade" das mulheres. E sai em busca da liberdade.
Nora, a heroína da obra dramática "Casa de Bonecas", escrita no final do século 19 pelo noruegguês Henrik Ibsen, encarna a luta pelos ideais feministas. Uma luta que prossegue ainda hoje.
Direitos das mulheres: essa noção, de cunho principalmente ocidental, já estava em voga no começo do século 20, embora resultasse difícil imaginar então as mudanças fundamentais que se produziriam na vida da metade da humanidade nos cem anos seguintes.
Na maior parte do planeta as mulheres foram se integrando à força de trabalho, o que lhes permitiu conquistar poder econômico e independência.
Algumas chegaram ao auge do poder político, como a israelense Golda Meir, a britânica Margaret Thatcher, a indiana Indira Gandhi, a filipina Corazón Aquino, a nicaragüense Violeta Barrios de Chamorro, a chilena Michelle Bachelet e, mais recentemente, a argentina Cristina Kirchner, entre outras. Também em sociedades asiáticas com fortes tradições patriarcais as mulheres chegariam a posições de destaque, como Benazir Bhuto, ex-chefe de Governo do Paquistão e líder da oposição, morta durante um violento atentado que abalou o mundo.
Uma mulher, Condoleeza Rice dirige a política externa dos Estados Unidos, e Hillary Clinton lança candidatura à presidência dos Estados Unidos - uma realidade que já não parece mais uma possibilidade distante, impensável.
Ao longo do século, as mulheres se desfizeram dos espartilhos, fizeram valer seu direito de voto e de controle da natalidade, tiveram acesso à educação superior e obtiveram reconhecimento profissional. Nos países ocidentais, atualmente há mais mulheres que homens nas universidades.
Mas, apesar de todo este sucesso, a brecha entre os sexos continua sendo ampla.
No Ocidente, as mulheres têm menos oportunidades que os homens de chegar a cargos importantes e ainda têm remuneração inferior, no caso de desempenho de tarefas iguais.
Também continuam sobrecarregadas com a dupla jornada: trabalho fora e tarefas domésticas. Nas palavras da eterna feminista americana Gloria Steinem: "Agora as mulheres fazem o mesmo que os homens, mas os homens não querem fazer o que elas fazem".
Tudo começou com a luta pelo voto quando, nas primeiras décadas do século, sufragistas como Emmeline Pankhurst na Inglaterra e Alice Paul nos Estados Unidos organizaram marchas que se estenderam pela maior parte da Europa e da América do Norte.
"No começo do movimento feminista, as mulheres encarnavam valores especiais e eram vistas como pacifistas; queriam o direito de voto para conseguir que o mundo fosse mais seguro para seus filhos", comentou um dia Berkeley Kaite, professora de estudos culturais da Universidade McGill, de Montreal (Canadá).
Depois veio o controle sobre seus corpos. A americana Margaret Sanger, que batizou a expressão "birth control" (controle da natalidade), foi detida em 1916 por "perturbar a ordem pública" com sua Clínica de controle da natalidade no Brooklyn. A britânica Marie Stopes marcou época com a publicação em 1918 de "Married Love" que para milhões de mulheres em todo o mundo, ilustrou o conceito de gravidez planejada.
A invenção da pílula anticoncepcional e sua comercialização nos Estados Unidos em 1960 mudou radicalmente a vida das mulheres, desencadeando uma verdadeira revolução sexual, ao mesmo tempo em que o aborto legalizado fortaleceu o controle das mulheres sobre suas vidas.
Depois de duas guerras mundiais, a ênfase passou a ser dada no conceito "diferença para a igualdade", enquanto hoje em dia a bandeira passou a ser "a igualdade na diferença".
Em 1949, a escritora francesa Simone de Beauvoir destacava em "O Segundo Sexo" que a libertação das mulheres só aconteceria quando elas começassem a pensar como os homens.
Mais tarde, feministas como Betty Friedan e Germaine Greer desenvolveram, burilaram e questionaram os argumentos de Beauvoir. Todas as gerações de feministas se viram, de qualquer forma, confrontadas ao mesmo debate.
"As mulheres queriam igualdade", conta Kaite. "Queriam integrar-se à força de trabalho, estar junto dos homens em posições de poder. Mas descobriram um teto invisível" que limitava sua ascensão, comenta.
Greer, no livro "The Female Eunuch" (O eunuco feminino), publicado em 1970, celebrava a sexualidade feminina e sua independência; aconselha agora a abstinência e diz que a estratégia por a igualdade levou as mulheres a imitar os homens, com resultados desastrosos.
A atual geração de feministas considera ganha a batalha pelo acesso a postos de trabalho e faz campanha por mudanças na estrutura da vida familiar e empresarial, a fim de poder combinar mais facilmente as exigências de sua carreira com as de sua família.
Nas sociedades não ocidentais, a causa feminista se expressa com frequência em termos de direitos humanos.
A discriminação contra as mulheres predomina em muitas regiões, cujos governos recusam-se a admitir a existência de leis discriminatórias e práticas que cimentaram a subordinação das mulheres.
A revolução comunista chinesa de 1949 promulgou uma avançada legislação em matéria de igualdade de sexos, mas as grandes viradas do regime e as resistências sociais impuseram numerosos obstáculos ao impulso inicial.
Os direitos das mulheres foram reconhecidos formalmente pela ONU em 1993 e a Conferência de Mulheres das Nações Unidas de 1995 em Beijing concluiu com a necessidade de intensificar os esforços para melhorar o estatuto social, econômico e político das mulheres.
Afinal, muitos dos mais sérios problemas mundiais, como o da superpopulação, têm raízes na subordinação das mulheres em algumas sociedades.
E, com isto, milhões de Noras prosseguem prisioneiras em suas casas de bonecas, sem ter direito de escolher com quem casar, se querem ou não filhos, de optar por trabalhar fora ou por se divorciar e viver em liberdade.
po/sd
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