14/12 - 18:39 - Carolina Fernandes
Todas as cidades do mundo têm em seus cartões postais algo além de meras paisagens, sejam esculturas ou projetos arquitetônicos como a Torre de Pisa, a Estátua da Liberdade ou a Torre Eiffel. No Brasil isso não é diferente, a não ser que mais de uma cidade tem seu próprio símbolo e que boa parte deles coube às mão do arquiteto Oscar Niemeyer, um dos pais do modernismo em edificações, que completa 100 anos neste sábado (15).
Veja a galeria de fotos com as obras do arquiteto
Assista ao trailer do filme "Oscar Niemeyer - A Vida É Um Sopro"
No dia de seu aniversário, Niemeyer será homenageado como o primeiro membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) – após muita luta, os arquitetos conseguiram a aprovação para ter um conselho próprio, não mais vinculado ao Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA). Esta distinção é apenas uma de várias outras recebidas por Niemeyer nos últimos meses. Recentemente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidiu tombar 35 prédios e monumentos criados pelo arquiteto no país.
Nas telas, o público pôde assistir em abril a um documentário sobre sua obra e vida, que demorou dez anos para ser finalizado. "Oscar Niemeyer – A vida é um sopro" registrou as obras do arquiteto em diversas cidades do país, entre elas Brasília, Belo Horizonte, Ouro Preto, São Paulo e Curitiba, assim como no exterior (Paris, Milão, Nova Iorque, entre outros).
Além disso, em uma pesquisa conduzida pela consultoria global Synectics para apontar os cem gênios vivos do mundo, Niemeyer ficou em nono lugar, por ser "um dos nomes mais importantes da arquitetura moderna internacional e pioneiro por ter explorado as possibilidades de construção do concreto armado".
O próximo ano também promete, já que, após a entrega da medalha de mérito cultural ao arquiteto, o presidente Lula afirmou que assinará um decreto que instituirá 2008 como o “Ano de Oscar Niemeyer”, mesmo período em que terá início a reforma do Palácio do Planalto, em Brasília.
CRONOLOGIA
Origem carioca
Nascido em 15 de dezembro de 1907, no bairro nobre de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Niemeyer teve seu primeiro contato com a arquitetura aos 22 anos, ao matricular-se na antiga Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Antes disso, ainda na escola exercitava seu dom nato ao desenhar bules, xícaras e estatuetas, que eram colecionados por sua primeira fã, sua mãe.
Em 1934, recebeu o diploma de engenheiro e arquiteto e já no ano seguinte iniciou sua carreira no escritório dos também arquitetos Lucio Costa e Carlos Leão, onde trabalhou de graça em troca de experiência. Três anos depois, Niemeyer projetou a Obra do Berço, uma associação beneficente do Rio. A diretora da instituição era sua parenta e mais uma vez o arquiteto não recebeu nada em troca de seu trabalho.
O ensaio de Brasília
Convidado pelo então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, o arquiteto projetou em 1940 um novo bairro de Belo Horizonte, a Pampulha. O bairro foi idealizado para ser um conjunto que unia igreja (Igreja São Francisco de Assis), cassino (Cassino da Pampulha), clube (Iate Clube da Pampulha) e casa de baile (Casa de Baile Belo Horizonte).
Em 1945, o arquiteto entrou para o Partido Comunista Brasileiro, emprestou seu escritório para que Luis Carlos Prestes fundasse o Comitê Metropolitano e teve seu projeto escolhido para ser o prédio da sede da Organização Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.
Ascensão profissional
Na década de 1950, os trabalhos de Niemeyer tomaram uma projeção muito grande. Em 1951, idealizou o conjunto de edificações do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, para a comemoração do quarto centenário da cidade, comemorado quatro anos depois. Na mesma época, foi o escolhido pela Companhia Panamericana de Hotéis e Turismo (CPHT) para projetar o Edifício Copan, localizado no centro da capital paulista.
No entanto, teve de deixar o projeto ainda na planta para se dedicar a outro mais complexo. Na época já presidente do país, JK convidou Niemeyer a criar algo maior que um bairro: a capital federal, Brasília. Em 1956, começou a se envolver diretamente na construção da cidade e a freqüentar recepções que reuniam a nata da elite cultural brasileira. No ano seguinte, projetava o Palácio da Alvorada e os principais prédios da cidade.
O início dos anos 1960 foi um período de mudanças no mundo todo. No Brasil e na vida de Niemeyer, não houve exceção. Em 1963, foi nomeado membro honorário do Instituto Americano de Arquitetos dos Estados Unidos. Um ano mais tarde, após uma série de viagens internacionais, retornou ao Brasil, em plena ditadura militar, e foi chamado pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para depor.
“Durante a ditadura, tudo foi diferente. Meu escritório foi saqueado e o da revista Módulo, que dirigia, semi-destruído. Meus projetos pouco a pouco começaram a ser recusados. O Ministro da aeronáutica chegou a dizer que ‘Lugar de arquiteto comunista é em Moscou’", lembra Niemeyer. Impedido de exercer a profissão e desiludido com o país, mudou-se em 1967 para a Europa e escolheu a capital francesa, Paris, para fixar residência. Lá, construiu a sede do Partido Comunista Francês.
Rumo ao presente
Na década de 1980, teve uma retrospectiva de sua obra sediada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), outro de seus projetos, e voltou a desenvolver projetos para Brasília. Entre 1987 e 1988, recebeu o maior prêmio da arquitetura mundial, o Pritzker, e projetou mais um símbolo arquitetônico de São Paulo, o Memorial da América Latina. Em 1990, desfiliou-se do PC do B.
Nos anos seguintes, viu sua projeção e reconhecimento se consolidarem no Velho Mundo e no resto do planeta. Em 2005, por ocasião do Ano do Brasil na França, recebeu uma homenagem do governo francês e desenhou a escultura “Uma Mulher, Uma Flor, Solidariedade”, hoje instalada às margens do rio Sena. No ano passado, Niemeyer entregou o projeto da sede do Centro de Cultura Internacional em Avilés (Espanha). Em dezembro deste mesmo ano, mês em que completou 99 anos, Niemeyer, casou-se pela segunda vez.
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Documentário retrata obra e vida de Oscar Niemeyer no ano de seu centenário
“Todos gostaríamos de ser Niemeyer, pelo menos durante 15 minutos”