12/11 - 18:37 - Marco Tomazzoni
Não é de hoje que o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado volta suas lentes para registrar em preto e branco a África. Seja nas fotos incluídas em seus numerosos livros, entre eles os projetos “Trabalhadores” (1996) e “Êxodos” (2000), como em seus primeiros trabalhos como fotojornalista, na década de 1970, o mineiro de Aimorés já fez inúmeras viagens ao continente. Pois o fruto de mais de 30 anos de trabalho, boa parte dele inédito, acaba de ser reunido em “Africa”, editado pela Taschen.
São 250 imagens colhidas em diversas reportagens produzidas para revistas, jornais e organizações humanitárias, a maioria depois de várias semanas em contato com a população local. Em entrevista concedida na semana passada à imprensa paulista, Salgado explicou que mantém uma relação muito próxima com a região. “A África representa muito para mim, minhas primeiras reportagens foram produzidas lá”, disse, lembrando da época em que ainda atuava como economista. “É um continente que precisa de uma enorme compreensão, que só deu para nós. O que existe de investimento ‘interessante’ por lá envolve extração de matéria-prima”, apontou.
Segundo ele, o livro mostra a realidade na África nos últimos 30 anos, com seus avanços, inércia e involuções. “Algumas coisas ainda são as mesmas”, lamentou, para em seguida sugerir caminhos com a autoridade de quem assume ser “um dos fotógrafos que mais trabalhou na África na história da fotografia”. “As coisas têm que mudar na África. A gente hoje sabe o que é desenvolvimento econômico sustentável: trabalham no campo 75% da população, 30% da renda vêm do campo e se investe apenas 4% do orçamento na agricultura, sendo que as centrais intermediárias só exploram o continente. São processos históricos que precisam ser corrigidos.”
Miséria e Brasil
A acusação que recebe costumeiramente de alguns críticos de que seu trabalho promove uma “espetacularização da pobreza, do sofrimento” não abala Salgado, que expôs um ponto de vista bastante articulado. “Não fotografo a miséria, não, mas pessoas que estão em falta com a sociedade, não têm culpa disso e seguem em busca de uma posição de equilíbrio.”
“A dor é um corte representativo dessa realidade”, continuou. “Aqui em São Paulo já tirei fotos tão feias, de pessoas jogadas na rua, abandonadas de um modo muito pior do que encontrei na África. Temos a obrigação ética e moral de assumir essa realidade”, admitiu, aproveitando o paralelo para justificar o registro das cenas de um povo assolado pela guerra, miséria, doença e condições climáticas hostis.
Paralelo, aliás, que encontra abrigo na similaridade entre o Brasil e o continente africano. O fotógrafo apontou a forte ligação entre a cultura dos dois territórios e as parcerias estreitadas nos últimos anos. “O Brasil tem que apostar numa postura mais próxima com a África. Há 150 mil anos éramos o mesmo continente. Por muito tempo tivemos aqui uma política internacional voltada para Estados Unidos e Europa, mas agora felizmente também olhamos para os povos africanos.”
Gênesis
Para conseguir compilar centenas de fotos em uma única publicação, “Africa” foi dividido em três partes. “É um processo muito complicado”, explicou Lélia Salgado, esposa, empresária e eventual diretora dos projetos de Sebastião. “A maneira que encontramos para conseguir contar uma história foi dividir o livro geograficamente, e ficou bem balanceado.”
A primeira parte enfoca a parte Sul (Moçambique, Malawi, Zimbábue, África do Sul e Namíbia), a segunda a região dos Grandes Lagos (Congo, Ruanda, Burundi, Uganda, Tanzânia e Quênia) e a terceira a região subsaariana (Burkina Faso, Mali, Sudão, Somália, Chad, Mauritânia, Senegal e Etiópia). O prefácio, por sua vez, ficou a cargo do romancista moçambicano Mia Couto, que descreve como a África atual reflete os efeitos da colonização e as conseqüências das crises econômicas, sociais e ambientais.
Nem bem voltou de lá, Salgado já planeja viajar mais uma vez para o continente. O fotógrafo está se dedicando a “Gênesis”, trabalho que pretende mostrar cenas de locais e comunidades ao redor do mundo que sustentam a natureza em seu estado original. “É um ponto de vista sobre a megadiversidade do planeta. O meio ambiente e os ecossistemas precisam entrar no debate global”, defendeu, para arrematar: “a fotografia sozinha faz nada, mas com certeza integra o processo de mudança social”.
Publicidade
Diretor de entidade pró-África diz que eventos beneficentes como Live 8 só atrapalham