09/11 - 12:27 - Marco Tomazzoni
Tema de uma ampla exposição retrospectiva em São Paulo, Yoko Ono fez ontem (08), durante sua passagem pela cidade, um show no Theatro Municipal, batizado de “Uma Noite com Yoko”. Show, na verdade, não foi a palavra utilizada para descrevê-lo, e sim performance, muito mais apropriada para o histórico artístico da nipônica. Quem pôde superar o estranhamento inicial provocado pela postura vanguardista da viúva de John Lennon assistiu a um misto de improvisações e faixas de álbuns radicais com intervenções curiosas de arte conceitual, numa apresentação que ao longo de uma hora evoluiu da dor para a redenção.
Veja fotos da performance no Theatro Municipal de São Paulo
Assista a imagens da coletiva e da exposição de Yoko Ono
Na entrada do teatro, todos recebiam um pacote com o ONOCHORD, uma pequena lanterna, e um postal com as instruções para utilizá-lo e transmitir em código as palavras “Eu te amo”. O instrumento, adotado já há alguns anos nas apresentações da artista, segue a mesma linha das instruções que ela produz desde a década de 1960 e que estão sendo exibidas no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – mensagens ecológicas e de amor ao próximo que procuram estimular a pró-atividade dos espectadores. Além de possivelmente sensibilizar o público, o ONOCHORD serviu para encher de luz a escuridão do teatro, provocando um belo espetáculo visual.
No palco, uma foto de Yoko criança, um tabuleiro branco de xadrez, uma cadeira e instrumentos. Logo depois de entrar em cena, a japonesa de 74 anos tirou a roupa branca que vestia para revelar calça e camiseta pretas, seu traje padrão ao lado dos sempre presentes óculos escuros. Sem sapatos, Yoko atravessou a moldura de um espelho e começou a interagir com a cadeira, dançando ao seu redor ao som de um instrumento de cordas oriental e estalos, reunidos em um loop.
A estranha intervenção deu em seguida lugar ao cerne do show, que intercalava projeções de vídeo-arte exibidas no telão atrás do palco com músicas de seu último disco de inéditas, o experimental Blueprint for a Sunrise (2001). Enquanto os vídeos traziam belas imagens de Lennon e do filho Sean, as canções, por outro lado, eram apresentadas em um fundo com cidades arrasadas, rostos dilacerados e um cemitério.
Quatro músicos se encarregavam do piano, bateria e percussão, criando atmosferas fantasmagóricas e perturbadoras. “Você não precisa mais de palavras, é só tremer”, diz a letra de “Soul Got Out of the Box”. “Nenhuma sombra sobrou de mim”, prossegue em “I Want You to Remember Me”. Além de capuzes, roupas ensangüentadas (outra peça em exposição no CCBB) e performances em que rastejava pelo chão, claro que também faziam parte das músicas as famosas vocalizações de Yoko, misto de gemidos e risadas que se tornaram marca registrada de suas músicas experimentais.
Aos poucos, o espírito das canções foi mudando. “Rising”, de 1996 e regravada no último álbum, prega que as pessoas dêem ouvido ao coração e sigam suas intuições. A bela “Snow Falls Silent” foi cantada com imagens de arco-íris e paisagens nevadas, para dizer “fui lá em cima no universo, onde posso ver e amar você”. Um breve intervalo e Yoko voltou ao palco dançando, envolta em plumas, enquanto a banda tocava um samba animado, com direito a cavaquinho, pandeiro, apito e cuíca. Sem o menor jeito, Yoko sorria e tentava seguir o ritmo da música, aplaudidíssima pela platéia.
Seu samba tresloucado foi interrompido para que ela pudesse jogar as peças do tabuleiro de xadrez para o público, enquanto apertava sem parar o ONOCHORD. Simpática, agradeceu aos músicos e saiu de cena, sem atender aos pedidos insistentes para um bis de um show surreal, que muita gente deve ter ficado sem entender. Projetada no telão, a frase “Imagine Peace” (imagine a paz), uma das principais bandeiras defendidas pelo casal Lennon. Um final redentor e festivo para uma noite que começou estranha e dolorida.
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