07/11 - 17:16 - Marco Tomazzoni
Uma das viúvas mais famosas do mundo, Yoko Ono sempre despertou sentimentos extremados: enquanto uma parcela dos fãs atribui a ela a responsabilidade pelo fim dos Beatles e, por isso, a hostilizam eternamente, outra respeita e admira seu trabalho, em especial na música, construído ao longo de mais de 20 álbuns. Para provar ao grande público, no entanto, que o ícone pop é muito mais do que somente a eterna musa de John Lennon, começa neste sábado (10) em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), e segue até fevereiro a exposição “Yoko Ono, Uma Retrospectiva”, abrangendo mais de cinco décadas de dedicação à arte.
Por volta de 80 obras da longa carreira da artista japonesa, hoje com 73 anos, foram trazidas ao Brasil de Oslo, na Noruega, onde uma mostra inicial havia sido montada sob o nome de “Horizontal Memories”. “Esta é a primeira vez que a exposição sai de Oslo, mas agora ampliada e completa”, explicou em coletiva de imprensa o curador Gunnar Kvaran.
Estarão expostos trabalhos produzidos no início da década de 1960, antes de Yoko conhecer Lennon, passando pelos radicais anos 1970 e chegando até a contemporaneidade – em 2005, a artista recrutou colegas de diversas partes do mundo para, mediante suas instruções, construírem juntos uma reflexão sobre a água.
Yoko foi uma das mais conhecidas integrantes do Fluxus, influente movimento de vanguarda criado no início dos anos 1960. Fundado pelo lituano George Maciunas, o grupo primava pela idéia da anti-arte e do “faça você mesmo”, buscando apagar as barreiras entre arte e cotidiano. Segundo Kvaran, este é justamente o principal mérito da trajetória de Ono, aliado à iniciativa “generosa” de fazer o público tomar parte das obras. “Yoko é a primeira artista a restringir o conceito de arte à essência de idéias. A partir disso, o objeto desaparece e entra em cena a ótica do espectador e dos colaboradores.”
Apresentada aos jornalistas após uma breve introdução do curador, Yoko também foi breve. Com o figurino padrão – roupas pretas e indefectíveis óculos escuros –, complementado por um chapéu vermelho, Yoko imediatamente se viu alvo dos fotógrafos. O assédio dos flashes, inclusive durante a entrevista, fez com que seu humor não fosse dos melhores, apesar da reiteradas palavras de simpatia aos brasileiros e à capital paulista.
“Sempre quis vir para São Paulo, talvez por ser a segunda maior população de japoneses fora do Japão”, contou, dizendo também se lembrar das campanhas que via quando era criança promovendo a imigração para o Brasil. “Eles tinham uma expectativa muito grande, talvez maior do que a realidade, como os imigrantes em geral. Fico feliz que tenha dado certo”, afirmou, numa referência aos 100 anos da imigração japonesa no país.
Apesar de enfatizar seu apreço pela nação nipônica, Yoko, que há muitos anos reside em Nova York, fez questão de salientar que sua nacionalidade transcende fronteiras e bandeiras. “Nunca me considerei uma imigrante, e sim uma cidadã do mundo, uma cidadã do universo.”
Além de fotos, trabalhos em bronze, instalações e instruções em inglês e japonês, também compõem a exposição filmes de vanguarda, outra das especialidades de Yoko e na qual foi uma das pioneiras, que serão exibidos no subsolo do CCBB. No mesmo local será possível assistir a vídeos das performances da artista, como “Cut Piece”, de 1964, em que ela convidava o público a cortar pedaços de sua roupa, até que ficasse completamente nua.
Ao responder à provocação de um jornalista, que lembrou a frase de Lennon de que era “uma das maiores artistas desconhecidas do mundo”, Yoko disse que essa situação felizmente não é mais a mesma, como prova a própria exposição. “De certo modo, isso está constantemente mudando, e estou muito feliz de estar viva para poder ver isso.” Contou que às vezes fica receosa de aceitar convites para levar seu trabalho a outros lugares, mas quase sempre se surpreende, como a recente inauguração na Islândia da “Imagine Peace Tower”, que considera o melhor trabalho de sua vida. A obra, com mais de 30 metros de altura, foi inaugurada no dia em que seria comemorado o 67º aniversário de John Lennon e tem gravadas as letras do libelo anti-guerra “Imagine”.
Política e problemas sociais, aliás, sempre foram questões centrais da obra da artista, tanto em performances quanto quadros e trabalhos de arte conceitual. A paz, em especial, sempre ocupou lugar de destaque em seu trabalho. “Viver no Japão após o final da Segunda Guerra foi muito difícil para mim. A guerra não é necessária, sempre podemos negociar, talvez com advogados. É muito melhor do que matar um ao outro.”
A abertura da exposição também será marcada por uma performance multimídia inédita de Yoko no Theatro Municipal, nesta quinta-feira (08). Composto por música e projeções, o espetáculo mostra momentos da vida da artista, que se negou a dar detalhes sobre a apresentação. “Estou rezando para que tudo dê certo. Se eu pudesse explicar como é, não faria sentido em fazê-la. É preciso assistir.”
Serviço
Exposição: "Yoko Ono – Uma Retrospectiva"
Centro Cultural Banco do Brasil - SP
De 10 de novembro a 3 de fevereiro de 2008
Terça a domingo, das 9h às 20h
Entrada gratuita
Performance: "Uma Noite com Yoko"
Theatro Municipal de São Paulo
Quinta, 08 de novembro, às 21h
Ingressos de R$ 60 a R$ 200
Fone: (11) 3223-8698
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Através da arte, Yoko Ono sublima a dor em performance no Municipal