Anxo Lamela Estocolmo, 11 out (EFE).- O Instituto Karolinska de Estocolmo, na Suécia, concedeu hoje o Nobel de Literatura à escritora britânica Doris Lessing, comprometida com o feminismo e a crítica às desigualdades e considerada uma das autoras em língua inglesa mais célebres vivas.
A "capacidade para transmitir a 'épica' experiência feminina e narrar a divisão da civilização com ceticismo, paixão e força visionária" de Lessing foram fundamentais para a decisão do instituto, lida pelo secretário permanente da Academia Sueca, Horace Engdahl.
Engdahl reconheceu que essa tinha sido uma das decisões "mais meditadas" da instituição.
Com a escolha de Lessing, a Academia volta a optar por um nome inesperado, ao contrário do ocorrido no ano passado, quando o turco Orhan Pamuk, o principal favorito, ficou com o prêmio.
Lessing, de 87 anos e "eterna candidata" ao Nobel, tinha deixado de aparecer nas listas de principais apostas, que este ano apontavam o italiano Claudio Magris, o sírio Adonis (Ali Ahmed Said) e o americano Philip Roth como favoritos.
A britânica é a 11ª mulher a receber o prêmio, três anos após a última vencedora - a austríaca Elfriede Jelinek - e 62 depois da primeira, a poetisa chilena Gabriela Mistral.
Lessing pertence ao movimento de jornalistas, romancistas e dramaturgos britânicos que nos anos 1950 deram lugar a uma das gerações literárias mais férteis e influentes no país.
De formação autodidata, ela é autora de mais de 40 obras, boa parte com forte conteúdo autobiográfico, influenciadas por lembranças da infância na África e em suas desilusões políticas.
Mas nenhum livro é tão decisivo como "The Golden Notebook" (1962), que a levou à fama, conquistou o Prêmio Médicis francês de melhor romance estrangeiro, e se transformou em referencial na luta pela liberação da mulher.
Os conflitos entre culturas, a desigualdade racial e a contradição entre consciência individual e bem-estar coletivo são alguns dos temas tratados em sua produção literária, que teve em 1950 sua estréia como romancista com "The Grass is Singing", texto sobre a vida na África que já refletia sua oposição à política racial.
A primeira obra comprometida com o feminismo chegou dois anos depois, "O Sonho de Martha Quest", que abre a série "Os Filhos da Violência", formada por cinco títulos.
"A Man and Two Women" (1963), "Briefing for a Descent into Hell" (1971), "O Último Verão de Mrs. Brown" (1974), "The Habit of Loving" (1983), "African Stories" (1984), "Shikasta" (1986), "The Diary of a Good Neighbour" (1987), "The Good Terrorist" (1987) e "O Quinto Filho" (1989) também fazem parte de uma lista que tem em "The Cleft" (2007) sua última contribuição.
Um autobiografia em dois volumes, "Debaixo da Minha Pele" (1994) e "Andando na Sombra" (1997), obras teatrais e outras curiosidades como uma obra operística e a participação em um projeto coletivo da editora alemã Fischer sobre a Bíblia completam a carreira de uma autora pontual e amante dos gatos.
Lessing nasceu em 22 de outubro de 1919 na cidade de Kermanshah, na Pérsia (atual Irã), onde seu pai trabalhava no Banco Imperial.
Ele tinha sofrido graves amputações na Primeira Guerra Mundial e era casado com uma ex-enfermeira.
Em 1924, a família se mudou para a Rodésia do Sul (hoje Zimbábue) e se instalou em uma fazenda, onde Doris passou a infância e a juventude. Ela foi educada em um colégio de freiras católicas e depois em um liceu feminino em Salisbury (atual Harare) até os 13 anos.
Aos 15, fugiu de casa e trabalhou como babá, telefonista, empregada e jornalista, além de começar a publicar seus primeiros relatos curtos em algumas revistas.
De volta a Salisbury, se casou aos 19 anos com um funcionário público rodesiano do qual se separou quatro depois. Da primeira união nasceram dois filhos, que ela abandonou após o divórcio para se unir a um clube literário de orientação comunista dirigido por Gottfried Lessing. Os dois se casaram em 1944, tiveram um filho e se separaram em 1949.
Naquele ano, Doris se mudou para Londres com o caçula para iniciar a carreira literária que já dura quase 60 anos.
Hoje, a autora disse estar feliz por ter sido agraciada com o Nobel, o último prêmio europeu que ela ainda não tinha recebido.
"Estou há 30 anos assim. Ganhei todos os prêmios da Europa, todos eles. Fico muito feliz por vencer todos. É uma grande emoção", afirmou a autora.
O Nobel de Literatura, assim como as outras categorias, concede ao vencedor 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,5 milhão) e será entregue em cerimônia no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de seu criador, Alfred Nobel, em Estocolmo, na Suécia, e em Oslo, na Noruega. EFE alc pp/pa