21/09 - 19:15 - Jonas Lopes
Em tempos em que a literatura possui para o mundo a importância de uma folhinha outonal que se deixa cair, provocando efeito quase nulo ao tombar no chão, e que, fora um Harry Potter aqui, um ensaio negando a existência de Deus ali e um catatau sobre um carrasco nazista acolá, pouco provoca discussões fora de seu gueto restrito, é interessante prestar atenção na repercussão causada por A Estrada, décimo romance de Cormac McCarthy
Fenômeno raro, o curto livrinho fez barulho tanto entre os críticos, normalmente favoráveis a McCarthy, quanto entre o grande público. É verdade que com Todos Os Belos Cavalos, por exemplo, McCarthy vendeu bem; porém A Estrada atingiu outro patamar, o de best seller, graças à publicidade adquirida em um episódio inusitado. Oprah Winfrey, apresentadora de influência imensurável nos Estados Unidos, escolheu o livro para seu clube de leituras. Convidou o autor para dar a tradicional entrevista em seu programa. Ele, famoso pela aversão à mídia, aceitou, deixando meio mundo de queixo caído. Pouco depois, corroborando a ótima aceitação crítica, veio o prestigiado Prêmio Pulitzer de ficção.
Cormac McCarthy sempre se encaixou naquela tradição de autores que buscam a América profunda, na linha de Herman Melville e William Faulkner. Todos menos interessados na prosperidade e nos benefícios da Terra Prometida de Tio Sam do que em se debruçar sobre as hipocrisias, selvagerias, o amor e ódio internos e externos que exalam os cidadãos daquele país. Nessa América tudo é violência, mesmo as descobertas juvenis, aventuras sexuais e relações de amizade. Não apenas a violência no sentido mais conhecido da palavra, de murros, sangue e implicâncias físicas, mas no de agressões emocionais (do homem com os outros e consigo mesmo) e, acima de tudo, morais.
No brutal Meridiano Sangrento, na Trilogia da Fronteira (Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidades da Planície) e no western moderno (por mais paradoxal que pareça) Onde os Velhos Não Têm Vez, McCarthy atingiu tamanha excelência no manejar desses sentimentos que a geografia norte-americana agora já pode ficar em segundo plano. Sua caracterização humana tornou-se universal. Seus questionamentos atravessam pele e órgãos: tratam já do puro osso humano.
Esse novo McCarthy encontra-se pleno em A Estrada. Em teoria, estamos ainda nos Estados Unidos, mas poderia ser qualquer outro lugar (tentativas de traçar paralelos com os EUA pós-11 de setembro, ainda que tentadoras, são reducionistas e ingênuas). Por algum motivo não explicado, o mundo está devastado, como a terra desolada do poema de Eliot. Sobram alguns poucos sobreviventes em meio à destruição, em busca de comida (cada vez mais escassa) e de sobrevivência, vivendo um dia de cada vez. O canibalismo tornou-se prática comum. Os dias são escuros, a noite um negrume completo. Até o mar perdeu sua cor. Fora a espécie humana, não há animais na Terra. Nesse cenário aterrorizante, acompanhamos um pai e seu filho caminhando para o sul através da estrada que ainda resta, sem saber o direito o que vão encontrar pela frente. Do passado deles, pouco sabemos – apenas que a esposa do homem, mãe do menino, se matou anos antes, no início do pesadelo. O que diferencia A Estrada das dezenas de obras, tanto do cinema quanto da literatura, de teor distópico e apocalíptico, é a despreocupação de McCarthy com explicações, com motivos. Vive-se na tempestade como se fosse a calmaria. Pode haver gente reclamando que o romance não tem trama. Talvez: a dupla não tem rumo definido. Fora sobreviver, os objetivos são tudo menos objetivos. Precisam comer, beber e andar para não morrer. Só. E assim o fazem.
A Estrada é um livro sombrio, muito sombrio. Além do cenário lúgubre, a prosa do autor colabora com o tom plangente: frases diretas, simples, curtas; capítulos idem; diálogos secos, hemingwayanos; andamento episódico. E a história é de dar pesadelos, com as constantes e repetidas situações de fome, violência, pesar e dor. O pai sabe que toda a busca por alimentos é inútil, pois vai haver um momento em que a sorte vai terminar, a doença vai ganhar espaço, a morte vai bater à porta. Carrega consigo um revolver com apenas duas balas – tenta fazer crescer a coragem necessária para quando precisar matar o filho e a si quando chegarem a uma situação irreversível.
Ainda assim, percebemos no romance uma luz. Lateral, discreta, que penetra aos pouquinhos; McCarthy deixa a postos o fio que abre a cortina das trevas. Uma luz que parece vir de Deus. Em um trecho, um relógio pára com os ponteiros marcando 1:17. Em João 1:17, lemos: “Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”. O pai está movido por uma força interna – difícil chamar de fé quando o fim parece tão inexorável –, semelhante a uma esperança de encontrar a graça através das próprias forças. Não a esperança de simplesmente continuar vivo, pois não se sobrevive para sempre – aquela devastação sobre a Terra não terá fim. O que o move é o desejo de redenção dos pecados cometidos no passado. Como muita em coisa em A Estrada, tais pecados não são revelados, apenas vislumbrados. Manter vivo o filho é a maneira que encontrou de se livrar dessa culpa, tanto que o menino mais parece um espectro do que uma presença palpável. A consciência do homem, buscando fazê-lo ser mais generoso com os mendigos do caminho, mais ousado nas investidas da estrada, porém também mais cuidadoso com os possíveis perigos: “Se ele não é a palavra de Deus, Deus nunca falou”.
“Deus não existe e nós somos os seus profetas”, dispara um velho moribundo à dupla de viajantes. Um niilismo que não deixa de ser sarcástico: é como aquela frase de Voltaire, que se Deus nos criou à sua maneira, o homem deu troco na mesma moeda. Somos seus filhos e provocamos a destruição do mundo. Promovemos o ódio e a dor, demos fim à natureza. A bravata do velho reflete a revolta de Cormac McCarthy com os resultados de nossa suposta independência em relação à Providência. Bem e mal são termos recorrentes em A Estrada, nos ensinamentos do pai, convencendo o filho de que eles são as pessoas do bem. Não que McCarthy seja moralista. Tampouco fatalista. Aqui a salvação passa ao largo da reza ou da carolice. Ela está na lealdade do pai a seu filho (e vice-versa), na negação da morte, no que ainda nos resta de complacência e, palavra tão vulgarizada, humanidade.
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