22/04 - 11:11 - Agência Estado

Em 1968, o crítico Anatol Rosenfeld, do jornal O Estado de S. Paulo , ofereceu um desafio a um jovem estudante de letras germânicas: traduzir um livro pequeno, publicado na Alemanha logo depois da 2ª Guerra Mundial e que, mimetizando os autos de um processo jurídico, pretendia oferecer um veredicto definitivo sobre a real importância da obra de Franz Kafka.
"Foi o livro que deu curso à minha carreira", comenta Modesto Carone, que, então universitário, aceitou traduzir 'Kafka: Pró & Contra', de Günther Anders, um ensaio breve e denso ainda hoje essencial e cuja nova edição sai agora pela Cosac Naify (168 páginas, R$ 32), acrescida de notas e posfácio de Carone.No momento em que a Europa reavaliava sua cultura, o ensaio de Anders foi essencial para iluminar uma obra que, apesar de sua riqueza, corria o risco de ser mal compreendida ou, pior, reduzida a categorias simplistas. Afinal, quando 'Kafka: Pró & Contra' chegou às livrarias, em 1946, a crítica literária questionava: Kafka deve ser queimado? Como compreender as imagens, a linguagem, os símbolos e as metáforas que tão fortemente marcam seus textos? Seria fábula, religião, surrealismo?
"Foi convivendo com esses paradoxos que Anders pegou o pião na unha e enfrentou o mistério de Kafka já nos anos 1930", comenta Carone, que, depois do ensaio, voltou-se para a obra do escritor checo e, até agora, traduziu 11 títulos da ficção kafkiana, trabalho hoje considerado referência. "Um dos grandes avanços deste livro precursor é estabelecer que Kafka é um escritor realista."
Autor também de 'O Homem É Antiquado', crítica fundamental da sociedade industrial, Anders identifica o caráter experimental da escrita kafkiana, observada na alternância de sujeito e objeto, nas imagens pouco burocráticas de uma típica e tacanha máquina administrativa e, como observa o professor Jorge de Almeida na orelha do livro, na desesperadora "inversão de culpa e punição", que prenunciava os horrores do nazismo. Afinal, Kafka, como diz Anders, ainda é muito útil para mostrar ao homem, com um realismo cruel, "como o mundo não devia ser". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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