12/03 - 14:39 - AFP

Tentar definir o sentimento de identidade em um país pobre, recuperar a imagem de um personagem desaparecido ou descrever a vida cotidiana de duas pessoas centenárias: os documentários latino-americanos apresentados no Festival de Cinema do Real de Paris abordam temas tão originais quanto variados.
Dois filmes brasileiros - "Suba", de Theresa Menezes e Gregório Grazioli, e "Santiago", de João Moreira Salles -, um cubano - "Antesala", de Pedro Freire - e um peruano - "Alguna tristeza", de Juan Alejandro Ramírez - foram apresentados na seleção internacional do 29º Festival de Cinema do Real.
O festival será realizado de 9 a 18 de março, com um total de 36 documentários de 20 países (24 na seção internacional e 12 na seção francesa), no Centro Pompidou de Paris.
Em "Santiago", o brasileiro João Moreira Salles tenta recuperar um personagem desaparecido, reencontrar esse ser humano e sua memória por meio da recuperação de um filme não concluído.
Santiago era empregado doméstico da família do diretor, e este o havia filmado há quase 25 anos, sem conseguir terminar o filme. Mas ao tentar concluir a obra, após a morte do personagem, a história toma um caminho inesperado e o cineasta se vê confrontado por alguém que não havia imaginado a princípio, ou que não queria ver.
O outro brasileiro na mostra principal é o curta-metragem "Suba", que narra um dia na vida de um casal de idosos centenários, sua manera de perceber o tempo e a existência.
Um dos destaques da mostra, pela originalidade de seu tema e sua estrutura narrativa, "Alguna tristeza", narra a vitória roubada da equipe peruana de futebol em benefício da Áustria nas Olimpíadas de 1936, e lança mão da expressão "fazer das tripas coração" para tentar definir o que significa ser ou se sentir peruano.
Nas imagens dessa vitória roubada, porque os nazistas não podiam admitir que uma equipe ariana fosse derrotada por um dos que eles consideravam povos inferiores, o diretor Juan Alejandro Ramírez vê em seus compatriotas de então as expressões de raiva contida, de tristeza e de temor que ele considera próprias dos países pobres.
No cubano "Antesala", a câmera do cinegrafista Pablo Freire é testemunha de um parto em uma maternidade do interior de Cuba, contrastando a despreocupação dos médicos diante do que para eles é uma rotina, com o medo e a dor da mãe, que vive um momento único.
As mulheres confrotadas com a violência, a guerra e a globalização é um dos temas predominantes nos documentários desta edição. Este é o caso de "ABC Colombia", de Enrica Colusso, que conta a vida de uma professora e a forma como ensina as crianças a sobreviver em uma região colombiana limítrofe entre as zonas sob controle dos paramilitares e as da guerrilha.
Publicidade