22/12 - 15:15 - Reuters

Por Arthur Spiegelman LOS ANGELES (Reuters) - Gore Vidal acaricia um gato enorme, na sala de sua casa em Hollywood Hills, ao argumentar, de u?sque em punho, que as atitudes puritanas dos Estados Unidos em rela??o ao sexo fez desse 'o pa?s mais est?pido da Terra'.
Aos 81 anos, Vidal n?o ? conhecido ? toa como a pessoa mais rabugenta dos EUA. H? poucas brigas com as quais o famoso romancista, dramaturgo e polemista n?o se envolveu nos ?ltimos 50 ou 60 anos. E, neste momento, o alvo de sua ira ? o comportamento dos norte-americanos em rela??o ? homossexualidade.
H? anos, ele fala abertamente sobre sua sexualidade, mas n?o aceita se definir nesses termos.
'Dizem por a? que a atividade sexual ? o equivalente da identidade humana. Que id?ia mais maluca. Se algu?m ? vegetariano, n?o significa que seja inimigo de todos os que comem carne. Isso significa que um vegetariano, toda vez que v? carne no prato dos outros, mata a?ougueiros ou quebra restaurantes?'
Dito isso, Vidal inicia um mergulho pelo universo de seus gostos e desgostos, um assunto presente em detalhes no segundo e rec?m-publicado volume de suas mem?rias, 'Point to Point Navigation' (navega??o ponto a ponto).
O t?tulo do livro remete ?s experi?ncias dele durante a Segunda Guerra Mundial, quando serviu a bordo de um navio da Marinha no mar de Bering, uma regi?o onde os nevoeiros s?o t?o frequentes que era imposs?vel ver as estrelas, o que obrigava o comandante a navegar olhando para os acidentes geogr?ficos presentes no mar ao inv?s de ficar olhando para sua b?ssola.
PONTOS NO MAR
No livro, Vidal passa de uma pedra para outra, de um assunto para outro, de uma pessoa para outra, algo semelhante ao que faz quando conversa.
O ataque contra a homofobia transforma-se em uma hist?ria sobre o primeiro-ministro brit?nico Benjamin Disraeli, no poder no s?culo 19, e depois em uma previs?o sobre o colapso da economia norte-americana.
Colecionador de pessoas e de anedotas estranhas ou reveladoras a respeito delas, Vidal pode soar como se conhecesse algu?m mesmo que esse algu?m tenha vivido mais de 100 anos antes dele.
Essa atitude torna-se evidente, por exemplo, quando conta como os homossexuais s?o perseguidos, o que o leva a citar os problemas enfrentados por Disraeli pelo fato de ter sido o maior outsider a ocupar o cargo de premi? brit?nico.
'Ele era um judeu convertido ? Igreja da Inglaterra. Mas continuava a ser um judeu na opini?o do arcebispo de Canterbury. Disraeli recebeu uma visita do arcebispo, que lhe disse: 'Estamos um pouco preocupados sobre sua religi?o. O senhor nasceu judeu, mas converteu-se ao anglicanismo. O senhor nomear? bispos. Sendo assim, devo perguntar-lhe qual sua religi?o pessoal'.'
'Disraeli respondeu: 'Todos os homens inteligentes possuem a mesma religi?o. Mas nenhum homem inteligente diz qual religi?o ? essa'', afirmou Vidal.
? dessa forma que o escritor fixa os limites at? onde ir? ao falar sobre sua vida pessoal.
Vidal diz que ele e alguns de seus amigos mais pr?ximos, como o dramaturgo Tennessee Williams, sofreram devido ? homofobia, mas acrescenta n?o estar interessado em discutir sua vida sexual ou at? mesmo sua vida. Ele se recusa a ser classificado segundo sua sexualidade.
'N?o costumo escrever sobre mim mesmo. Ent?o, achei que
deveria ter algum talento que me separava dos autores
americanos interessados em escrever apenas sobre eles mesmos.
Eu sei que o fim est? pr?ximo. Sendo assim, achei ser o momento
de fazer uma recapitula??o', afirmou Vidal.
E isso lhe d? a chance de escrever coisas ternas sobre seu companheiro de 53 anos, Howard Auster, que morreu de c?ncer no c?rebro e no pulm?o depois de os dois terem regressado aos EUA vindos da It?lia, onde moraram por 30 anos. Vidal diz que espera ser enterrado ao lado de Auster.
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