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Procurando a crise na Avenida Paulista

15/09 - 07:18 - Mauricio Stycer, repórter especial do iG

Um ano depois do prenúncio de uma hecatombe planetária, os efeitos da crise global no Brasil são menos dramáticos do que se imaginava. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas indica que a crise econômica atingiu mais as classes A e B do que as classes de renda mais baixa. O conjunto das classes A e B chegou a cair 0,5% entre julho do ano passado e julho deste ano, enquanto a classe C cresceu 2,5% de julho no mesmo período, principalmente pela passagem de pessoas das classes mais baixas para a classe média. Ainda segundo a pesquisa, os mais pobres, das classes D e E, mantiveram a mobilidade em direção à classe classificada como “média baixa”.

 

Na última sexta-feira, a reportagem do Último Segundo percorreu a Avenida Paulista, no coração de São Paulo, para verificar a pertinência destes dados. Local que atrai pessoas de todas as classes sociais, a Paulista é uma espécie de termômetro e, ao mesmo tempo, funciona como um mosaico, capaz de dar cor e vida às estatísticas. As histórias relatadas abaixo mostram como a crise econômica foi encarada de formas distintas e como os seus efeitos foram variados.


“Sou meio desligada”
Enquanto fuma um cigarro na calçada, Marilene Lajus reflete sobre os últimos 12 meses. “Sou meio desligada. Não senti a crise”, diz. Operadora de telemarketing, classifica o período que passou como outro qualquer. “Foi um ano normal”, diz. “Não guardei dinheiro, mas porque não quis”, conta. Com salário bruto de R$ 495, chegou a receber até R$ 1 mil, em alguns meses, em função do seu desempenho nas vendas. “Depende do seu empenho”.

Mauricio Stycer/iG
Armando Pereira no caixa de sua banca
“Adiei a reforma da casa”
Gerente de uma grande banca de jornais e revistas num dos pontos mais movimentados da avenida, Armando Henriques Pereira só lamenta não receber R$ 1 real em troca de cada pedido de informação que dá aos pedestres. “Não precisaria fazer mais nada. Ficaria rico”. Na sua estratégica posição, ele entendeu que o pior período da crise no Brasil ocorreu no primeiro trimestre do ano. “O movimento na banca caiu um pouco”, diz. “Mas acho que foi mais de medo das pessoas sobre o que poderia acontecer”.

Casado, dois filhos, Armando adiou o projeto de reformar a casa e trocar de carro este ano. “A gente precisa se adaptar. Dei uma segurada no orçamento”, conta. No momento de maior baixa no movimento, diz que sua renda mensal ficou entre R$ 3 mil e R$ 5 mil, mas já retomou o ritmo normal, alcançando nos meus melhores momentos até R$ 7 mil.

“A crise favoreceu o meu setor”
Secretária-executiva em um escritório de advocacia especializado na área trabalhista, Cristina Ribeiro não viu crise nos últimos 12 meses. Muito pelo contrário. “A crise favoreceu o meu setor”, diz. “Quando aumenta o desemprego, o reflexo que sentimos é esse: mais trabalho”.

Com salário em torno de R$ 5 mil, Cristina afirma que foi um ano em que consumiu mais do que normalmente. “Com futilidades úteis”, brinca. “É um bom sinal. Só não pode exagerar”. Mas, lembra, a crise atingiu outras áreas. “Meu cunhado, que trabalha na área de metalurgia, está há dois anos tentando, sem sucesso, arrumar um emprego na sua área”.

Mauricio Stycer/iG
Robson Rezende perdeu alunos
“Sou o supérfluo na vida do meu aluno”
Personal trainer, Robson Resende sentiu na pele os efeitos da crise que atingiu mais as classes A e B. “De maio para cá, perdi quase 50% do que ganhava”, conta. “Tinha 25 alunos, hoje tenho 18 e muitos reduziram a carga ou renegociaram os valores”.

Professor de profissionais liberais, como médicos, dentistas ou executivos da área financeira, Robson percebeu que a crise afetou os seus alunos e, em consequência, a sua vida. “Sou o supérfluo na vida do meu aluno. Sou a primeira coisa que ele corta”.

“Médicos me contaram que o fluxo no consultório caiu. O dentista lamentou que o paciente adiou o projeto de dar uma repaginada geral... ouvi essas histórias”. Com uma renda que chegou nos bons tempos a R$ 18 mil, Robson se viu obrigado, depois da redução de trabalho, a adiar o plano de uma viagem ao exterior. Mas conseguiu trocar de carro em julho. “Vamos ver se melhora agora”.

“Foi o meu melhor ano”
“Crise? Não houve crise para mim”, conta Josefa Sarah, artista plástica radicada em São Paulo. “Vivo de vender o meu trabalho. E este foi o meu melhor ano”. Ainda assim, está se preparando para fazer concurso público com vistas a ser professora municipal.

Maurício Stycer/iG
A artista plástica Josefa Sarah
Josefa acha que, independentemente da situação econômica, seu trabalho – telas abstratas e coloridas – encontrou o público neste período. Cada tela sua é vendida de R$ 2,5 mil a R$ 8 mil. “É uma carreira muito legal”, diz.

“Os clientes reclamam”
Engraxate há 39 anos, Alemão, como é conhecido no Conjunto Nacional, percebeu a crise de duas maneiras: no próprio bolso e nas conversas dos clientes. “O meu movimento caiu uns 40%”, estima. “Os clientes falam muito de crise, uns com os outros. Reclamam, comentam”, diz.

Casado, o engraxate conta que apertou o cinto nos últimos tempos. “É remédio para a minha mulher, é remédio para mim... A gente deixa de fazer algumas coisas”, lamenta.

“Tá ruim? Não tá. Mas caiu”
Com vaga num ponto estrategicamente localizado a uma quadra da Avenida Paulista, o taxista Arthur Kalaidjian notou uma queda no movimento nos últimos doze meses. Alguns clientes fixos cortaram o serviço ou renegociaram os valores. “Eu levava um pessoal de um escritório de advocacia para Santos. A corrida custava R$ 240. Aí eles passaram a pagar por quilômetro rodado para o estagiário, que vai no próprio carro, e recebe R$ 140”.

Maurício Stycer/iG
O taxista Arthur Kalaidjian
Arthur mora em apartamento próprio com a esposa, que está grávida. Por isso, adiou para o ano que vem o plano de trocar o seu carro, um modelo de 2007. “Batalho desde às 5h da manhã. Hoje consigo ter uma renda bruta de R$ 4 mil. Já foi até de R$ 5,5 mil”, diz. E acrescenta, bem humorado: “Taxista mente muito. Cuidado. Tá ruim? Não tá. Mas caiu”.

“O problema principal é emprego”, diz a cartomante
Diante do Parque Trianon, uma cartomante ajeita-se num banquinho e numa mesinha improvisada. “A gente que é pobre não sente a crise”, diz Maria, que pede para não ser fotografada. “Mas o pessoal, uns reclamam, outros não”. Além das consultas sobre amores passados e futuros, a cartomante afirma atender muita gente com dívidas e dificuldades financeiras. “O problema principal é emprego”, afirma.

Não longe dali, diante de uma farmácia, uma senhora descalça, segurando um par de botas na mão, grita para a balconista: “Vocês vão vender pra mim um Lexotan?”. Ao ver o repórter com um bloco de anotações na mão, grita: “Nem todo mundo aqui rouba carro”. 





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