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15/09 - 07:16 - Klinger Portella, do Último Segundo
A origem da crise global – que se agravou após a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008 – remete a um período anterior à concordata do banco de investimentos. Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, foi obrigado a iniciar uma série de cortes nas taxas de juros do país, para estimular a economia local. O preço disso foi um excesso de dinheiro no mercado, na forma de crédito barato.
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Greenspan: juros baixos |
Estimulados por esse processo, os bancos passaram a oferecer crédito a pessoas que não tinham capacidade para pagar a dívida – são os chamados subprimes. “Havia um excesso de crédito no mercado, que era oferecido a clientes de baixa qualidade. Todo esse ciclo estava sobre uma base frágil, porque os detentores da hipoteca não tinham muita capacidade para quitá-la”, explica Pedro Barros, técnico do Departamento de Economia e Relações Internacionais do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).
O professor da FAAP aponta que a concessão de crédito a pessoas com pouca capacidade para pagar era vantajosa aos bancos, já que os juros eram praticamente duas vezes maiores que os praticados aos clientes de primeira classe (prime).
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Todo esse movimento de estímulo do setor gerou uma alta no volume de hipotecas dos Estados Unidos. Mas o crescimento vertiginoso se deu nas hipotecas subprime. Entre 2001 e 2006, o volume total de hipotecas emitidas saltou de US$ 2,21 trilhões para US$ 2,98 trilhões. Já o percentual de hipotecas subprime teve alta bem mais acentuada no período, passando de 8,6% para 20,1% em 2006.
Manobra
É fato que conceder empréstimos a pessoas com pouca capacidade para pagar a dívida é um risco enorme para os bancos. Mas as instituições deram um “jeitinho” para minimizar esse ônus: recorreram ao chamado processo de securitização. Nesse sistema, os bancos “agrupam” uma série de papéis de dívida e os negociam no mercado financeiro, sob a garantia das securitizadoras (tais como a Fannie Mae e o Freddie Mac) e das seguradoras, como a AIG. Não por acaso, todas essas empresas desmoronaram durante a turbulência. “Entre 2001 e 2006, as hipotecas subprime securitizadas nos Estados Unidos saltaram de 50,4% para 80,5% do total negociado no país”, alerta Tharcísio Souza Santos.
O processo de negociação desses títulos era simples. Os papéis eram avaliados pelas agências de classificação de risco, que atribuíam notas a cada grupo, que variavam de AAA a B-. Os mais “seguros” eram avaliados como AAA. Os mais arriscados eram o subprime (chamados de ativos tóxicos ou lixo, porque tinham a menor nota da escala).
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Fannie Mae: perdas bilionárias |
“Eles transformaram a dívida em um ativo financeiro. O que seria uma restrição para o banco (ter muita gente devendo para ele), passou a ser um novo produto. Criaram-se produtos infinitos, mas a capacidade de pagar estava em pessoas de qualidade baixíssima”, conclui Pedro Barros, do Ipea.
O estouro da bolha
Como todo movimento de bolha no mercado, há um momento em que a situação se reverte. No caso da bolha imobiliária, o estouro aconteceu com a alta da inadimplência – fruto da incapacidade dos devedores de quitar as parcelas – e uma queda abrupta no preço dos imóveis. O prejuízo, com isso, ficou nas mãos dos bancos e de quem tinha em mãos os títulos negociados no mercado financeiro.
Quando um cliente não conseguia pagar a hipoteca, o banco recorria a um processo judicial para reaver o imóvel e vendê-lo a outro cliente. No processo de venda do imóvel, o banco pagava os juros da hipoteca no mercado e, para isso, recorria ao chamado mercado interbancário (empréstimo entre os bancos) para obter recursos. “Quando o interbancário vê que o banco está cheio de ‘papel podre’, deixa de emprestar dinheiro e o sistema trava. Havia dinheiro, mas os bancos não queriam emprestar entre si. Foi o chamado empoçamento do crédito”, explica Tharcísio Souza Santos.
Na medida em que aumentava a inadimplência das hipotecas, um alto número de imóveis passou a ser devolvido, o que fez com que os preços caíssem repentinamente – foi o estouro da bolha. Isso estimulou ainda mais a devolução de imóveis, já que muitos clientes não pagariam hipotecas mais caras que o próprio bem.
Graças à securitização, os títulos podres se espalharam mundo afora, sem controle dos agentes regulatórios. A quebra do banco de investimentos Lehman Brothers provocou o congelamento do crédito no mercado internacional e a desconfiança nas instituições e na própria economia.
A partir daí, o maremoto na economia se difundiu cada vez mais. A falta de crédito atingiu o comércio global e as empresas em diversos pontos do mundo, provocando uma onda global de demissões. Sem emprego, o consumo das famílias foi afetado e a atividade econômica despencou, gerando recessão em vários países. Nas bolsas de valores, investidores tiraram recursos de investimentos mais arriscados – como ações em países emergentes – para cobrir as perdas sofridas, gerando um baque nos mercados. De uma forma ou de outra, ninguém escapou ileso da crise.
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Muitos proprietários perderam as casas devido à inadimplência |

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