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Entenda a crise que devastou as economias no mundo

15/09 - 07:16 - Klinger Portella, do Último Segundo

A origem da crise global – que se agravou após a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008 – remete a um período anterior à concordata do banco de investimentos.  Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, foi obrigado a iniciar uma série de cortes nas taxas de juros do país, para estimular a economia local. O preço disso foi um excesso de dinheiro no mercado, na forma de crédito barato.


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Greenspan: juros baixos
pós-11 de setembro

Com crédito abundante e estímulos dados pelo governo americano ao setor imobiliário, houve uma superprocura por imóveis nos EUA – e também em outros países da Europa -, o que provocou uma inflação no mercado imobiliário, também conhecida como “bolha” (demanda em alta, puxada por dinheiro farto, e preços disparados). “Os preços dos imóveis atingiram os níveis mais altos em 30 anos”, explica Tharcísio Souza Santos, diretor do curso de MBA da Fundação Armando Álveres Penteado (FAAP). 

Estimulados por esse processo, os bancos passaram a oferecer crédito a pessoas que não tinham capacidade para pagar a dívida – são os chamados subprimes. “Havia um excesso de crédito no mercado, que era oferecido a clientes de baixa qualidade. Todo esse ciclo estava sobre uma base frágil, porque os detentores da hipoteca não tinham muita capacidade para quitá-la”, explica Pedro Barros, técnico do Departamento de Economia e Relações Internacionais do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). 

O professor da FAAP aponta que a concessão de crédito a pessoas com pouca capacidade para pagar era vantajosa aos bancos, já que os juros eram praticamente duas vezes maiores que os praticados aos clientes de primeira classe (prime).

iG

Todo esse movimento de estímulo do setor gerou uma alta no volume de hipotecas dos Estados Unidos. Mas o crescimento vertiginoso se deu nas hipotecas subprime. Entre 2001 e 2006, o volume total de hipotecas emitidas saltou de US$ 2,21 trilhões para US$ 2,98 trilhões. Já o percentual de hipotecas subprime teve alta bem mais acentuada no período, passando de 8,6% para 20,1% em 2006.

Manobra

É fato que conceder empréstimos a pessoas com pouca capacidade para pagar a dívida é um risco enorme para os bancos. Mas as instituições deram um “jeitinho” para minimizar esse ônus: recorreram ao chamado processo de securitização. Nesse sistema, os bancos “agrupam” uma série de papéis de dívida e os negociam no mercado financeiro, sob a garantia das securitizadoras (tais como a Fannie Mae e o Freddie Mac) e das seguradoras, como a AIG. Não por acaso, todas essas empresas desmoronaram durante a turbulência. “Entre 2001 e 2006, as hipotecas subprime securitizadas nos Estados Unidos saltaram de 50,4% para 80,5% do total negociado no país”, alerta Tharcísio Souza Santos.

O processo de negociação desses títulos era simples. Os papéis eram avaliados pelas agências de classificação de risco, que atribuíam notas a cada grupo, que variavam de AAA a B-. Os mais “seguros” eram avaliados como AAA. Os mais arriscados eram o subprime (chamados de ativos tóxicos ou lixo, porque tinham a menor nota da escala).

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Fannie Mae: perdas bilionárias

Como haveria clara dificuldade dos bancos para vender papéis com classificações ruins, os agentes de Wall Street criaram duas manobras. Para os títulos com classificação de BBB a B, foi criado o Fundo CDO (Colateralized Debit Obrigations), que passaram a receber novas notas, “maquiadas”. “Eles venderam papel ao mundo dizendo que era AAA, sendo, na melhor das hipóteses, um BBB”, disse Santos. Para os subprimes, os agentes financeiros foram ainda mais longe: criaram um novo grupo chamado Structured Investiment Vehicles (SIV), que negociava os papéis livremente no mercado.

“Eles transformaram a dívida em um ativo financeiro. O que seria uma restrição para o banco (ter muita gente devendo para ele), passou a ser um novo produto. Criaram-se produtos infinitos, mas a capacidade de pagar estava em pessoas de qualidade baixíssima”, conclui Pedro Barros, do Ipea.

O estouro da bolha

Como todo movimento de bolha no mercado, há um momento em que a situação se reverte. No caso da bolha imobiliária, o estouro aconteceu com a alta da inadimplência – fruto da incapacidade dos devedores de quitar as parcelas – e uma queda abrupta no preço dos imóveis. O prejuízo, com isso, ficou nas mãos dos bancos e de quem tinha em mãos os títulos negociados no mercado financeiro.

Quando um cliente não conseguia pagar a hipoteca, o banco recorria a um processo judicial para reaver o imóvel e vendê-lo a outro cliente. No processo de venda do imóvel, o banco pagava os juros da hipoteca no mercado e, para isso, recorria ao chamado mercado interbancário (empréstimo entre os bancos) para obter recursos. “Quando o interbancário vê que o banco está cheio de ‘papel podre’, deixa de emprestar dinheiro e o sistema trava. Havia dinheiro, mas os bancos não queriam emprestar entre si. Foi o chamado empoçamento do crédito”, explica Tharcísio Souza Santos.

Na medida em que aumentava a inadimplência das hipotecas, um alto número de imóveis passou a ser devolvido, o que fez com que os preços caíssem repentinamente – foi o estouro da bolha. Isso estimulou ainda mais a devolução de imóveis, já que muitos clientes não pagariam hipotecas mais caras que o próprio bem.

Graças à securitização, os títulos podres se espalharam mundo afora, sem controle dos agentes regulatórios. A quebra do banco de investimentos Lehman Brothers provocou o congelamento do crédito no mercado internacional e a desconfiança nas instituições e na própria economia.

A partir daí, o maremoto na economia se difundiu cada vez mais. A falta de crédito atingiu o comércio global e as empresas em diversos pontos do mundo, provocando uma onda global de demissões. Sem emprego, o consumo das famílias foi afetado e a atividade econômica despencou, gerando recessão em vários países. Nas bolsas de valores, investidores tiraram recursos de investimentos mais arriscados – como ações em países emergentes – para cobrir as perdas sofridas, gerando um baque nos mercados. De uma forma ou de outra, ninguém escapou ileso da crise.

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Muitos proprietários perderam as casas devido à inadimplência





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