Mudanças climáticas terão impacto na produção de alimentos

Cientistas alertam em Cancún que agricultura e urbanismo, em especial na América Latina, serão impactados pelo aquecimento global

AFP |

AP
Banhista passeiam por erosão em praia de Cancún, em novembro: cidade é exemplo de danos das mudanças climáticas
As mudanças no clima já têm graves consequências em setores como agricultura e urbanismo, especialmente em regiões como a América Latina, onde quase 80% da população vive em cidades, advertiram cientistas na cúpula de Cancún.

"A variação climática e os eventos extremos afetaram fortemente a região nos últimos anos", lembrou Eduardo Calvo Buendia, especialista peruano do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), em um momento em que fortes chuvas atingem a Venezuela, onde já deixaram 25 mortos e mais de 33 mil afetados.

Segundo trabalhos deste grupo de especialistas, formado por cientistas de todo o mundo, "espera-se para o século XXI um aumento das temperaturas que poderia limitar-se a 1ºC, na melhor das hipóteses e, segundo cenários, chegar a 6º C", o que deveria ter um forte impacto ambiental, explicou.

Assim, na década de 2020, prevê-se que dificuldades no abastecimento de água afetem de 7 a 77 milhões de latino-americanos a mais que atualmente, afirmou Calvo. "Da mesma forma pode-se esperar que em toda a região (...) encontremos perdas em um dos nossos cultivos mais importantes, como o arroz", acrescentou.

Aumento do preço de alimentos
No mesmo sentido, um informe apresentado na quarta-feira em Cancún destacou que o aumento de preços dos alimentos registrado este ano ao nível mundial pode ser só o primeiro capítulo de uma disparada nas próximas décadas.

"As mudanças climáticas provocarão menores colheitas de arroz em todo o mundo em 2050", segundo o estudo apresentado pelo International Food Policy Research Institute (IFPRI). Também "as colheitas de trigo cairão em todas as regiões, com perdas maiores nos países em desenvolvimento", acrescentou, prevendo altas de preços de até 100% em 2050 com relação a 2010.

Para contribuir a mitigar estes efeitos, a América Latina e o Caribe têm um forte potencial de redução de emissões de gases causadores de efeito estufa, por exemplo em setores como a urbanização e a gestão das cidades, destacou por sua vez o especialista do IPCC, Ramón Pichs Madruga.

"O tema da urbanização na América Latina é crucial, pois estamos na região mais urbanizada do mundo em desenvolvimento, com quase 80% da população vivendo em cidades", afirmou.

"Na hora de dar resposta ao problema das mudanças climáticas é muito importante considerar os setores que têm mais incidência no âmbito urbano, do transporte ao abastecimento de água", acrescentou.

A maior parte das cidades está situada no litoral, disse Calvo, destacando a importância da gestão costeira na luta contra o aquecimento global.

"Em muitas regiões tropicais da América Latina, a manutenção de ecossistemas como os manguezais é uma medida de adaptação que permite prevenir eventos extremos relacionados com furacões", afirmou.

Os manguezais são terrenos tropicais cobertos por marés altas, onde crescem árvores que vivem na água salgada. Eles abrigam grande biodiversidade, permitem lutar contra a erosão e são um importante sumidouro de CO2.

Cancún já é vítima das mudanças climáticas
Mas, apesar de sua importância ambiental, são ameaçados pelo desenvolvimento urbanístico, vinculado com frequência ao setor turístico.

É precisamente o que acontece nesta localidade mexicana onde se reúnem até 10 de dezembro negociadores de todo o mundo em busca de um acordo climático.

"Mais de 30% do mangue de Cancún se perdeu" devido à construção de hotéis na praia, o que aumentou a vulnerabilidade aos furacões e tempestades tropicais, denunciou a organização ecologista Greenpeace.

Segundo previsões citadas pelo Greenpeace, mais de 15.000 km 2 de zonas costeiras mexicanas podem ser ameaçadas pela elevação do nível do mar, afetando tanto os ecossistemas quanto a pecuária e a agricultura.

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