Conferência sobre clima sofre com problemas de logística

Engarrafamentos, distâncias e intimidação policial prejudicam a COP-16 de Cancún

Maria Fernanda Ziegler, enviada especial a Cancún |

Maria Fernanda Ziegler
Sala de computador na COP-16: conexão à internet da cidade inteira não resistiu
Na tarde de ontem (1), o acesso à internet na Cúpula da ONU sobre o Clima foi interrompido. Enquanto negociadores discursavam sobre as melhores formas de fechar um acordo para diminuir os efeitos do aquecimento global, jornalistas, ongueiros e participantes da Conferência olhavam de um lado para o outro a procura de uma explicação. O mundo parecia ter parado enquanto as emissões de carbono atingem níveis recordes.

Prontamente, um dos funcionários do evento explicou o que parecia ser o pior. “Houve um problema na fibra ótica e Cancún inteira está sem internet, ainda não há previsão para a conexão voltar”, disse. Ela retornou cerca de uma hora depois. Ponto para aqueles que estão reclamando da organização do evento, que já está por si muito desacreditado.

De fato, a logística no balneário mexicano tem sido um problema. O camaronês Michel Takam já é veterano de outras COPs e sintetizou esta edição como um pesadelo logístico. “As coisas não estão integradas e não dá para se ter uma noção geral do que está acontecendo. Demora-se muito para ir de um lugar ao outro e as pessoas estão preferindo ficar em um só lugar. Esta divisão de dois prédios distantes para uma mesma conferência não é boa para o andamento do evento”, disse ao iG .

Maria Fernanda Ziegler
Participante africanos da conferência reclamam da apatia das pessoas e do excesso de policiais
Apatia e batidas policiais

Mithika Mwenda, queniano e coordenador da ONG Pan African Climate Justice Alliance, reclamou da falta de participação da população. “Em Copenhague podíamos sentir a inquietação das pessoas na rua, elas também faziam parte da Conferência, havia manifestações. Aqui, como tudo é muito longe e as pessoas daqui parecem não se importar, ou melhor, nem saber o que está acontecendo”, disse.

Os dois afirmaram pegar um engarrafamento de mais de uma hora e meia no dia da abertura da Conferência, 29 de novembro. “Tem outra coisa, esse negócio de haver policiais na estrada com armas em punho é intimidante e nao tem nada a ver com o que estamos fazendo aqui”, disse Mwenda. Ao longo da estrada ha quatro pontos onde policiais federais podem parar qualquer veículo para revista.

Pesadelo logístico
Só para o deslocamento dos 22 km que separam a zona hoteleira de Cancún e o Moon Palace Hotel, onde acontece a conferência, a viagem leva em torno de uma hora dentro de ônibus oferecidos pelo evento e que estão sempre com o ar-condicionado no máximo. Dá-lhe emissões de dióxido de carbono.

Mas isto não é só, o evento acontece em dois lugares. No Cancun Messe, centro de eventos da cidade mexicana, estão instalados os stands de institutos e ONGs, além dos pavilhões do México, Equador, Brasil, Comunidade Europeia e Estados Unidos. Há também salas para apresentações de estudos e debates.

Para chegar ao Moon Palace Hotel - oito quilômetros em direção ao centro de Cancún - onde estão acontecendo as negociações, o mesmo sistema de ônibus leva os participantes do Cancunmesse para as salas acarpetadas do hotel. O percurso leva em torno de meia hora e não é raro ser o único passageiro do veículo.

No primeiro dia do evento houve confusão. A cerimônia de abertura estava marcada para às 10h, mas muita gente chegou atrasada. Um engarrafamento gigantesco de ônibus e de carros que rumavam para os lados de Cozumel (a estrada liga os dois destinos turísticos) fez com que o trajeto levasse duas horas. Somado ao engarrafamento, outro fator influenciou a lentidão: a revista da polícia que estava a postos para assegurar o bom andamento da Conferência da ONU.

Na coletiva de imprensa da Ministra das Relações Exteriores mexicana, Patrícia Espinosa, ouviu uma reclamação no lugar de uma pergunta. Um repórter levantou o braço, recebeu o microfone e disse: “Eu sei que eu devia usar este espaço para fazer uma pergunta, mas eu queria pedir para que algo seja feito com este engarrafamento, obrigado”.

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