
Malvina Tuttman era técnica. Foi reitora da UniRio e, junto com a sua equipe, apostou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma única de seleção. Quando Fernando Haddad propôs isso para as universidades federais, a UniRio era a única que já selecionava somente com a nota do Enem. Em um ano à frente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Malvina trouxe mais avanços na qualidade do exame do que qualquer outro antecessor, inclusive aqueles que dirigiram o órgão antes de o Enem ter virado um "vestibular nacional".
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Malvina trabalhou para ampliar significativamente o número de itens (questões) que o Inep tem à disposição para utilizar no Enem e em outras avaliações. No exame de 2011, os problemas, apesar de terem aparecido, foram infinitamente menores do que nos anos anteriores. A diferença entre o escore de dois corretores que levava a redação a uma terceira correção passou a ser de, no mínimo, 300 pontos. Antes era 500. Problemas básicos no dia da aplicação do exame foram corrigidos de forma criativa, como os saquinhos para colocar os celulares e equipamentos eletrônicos, o marcador de tempo no centro da sala para substituir o relógio e a transcrição de frases do caderno para o gabarito, ajudando alunos desatentos que possam ter esquecido de marcar a cor da prova.
Luiz Cláudio da Costa é político. Foi reitor da Universidade Federal de Viçosa e tem ligações histórias com o PT. Articulou para que Lula recebesse da UFV o título de professor honoris causa. É claro que Lula tem todas as qualificações necessárias para receber esse título. Mas sempre duvidei dos sentimentos republicanos de Luiz Cláudio quando trabalhava para isso.
Luiz Cláudio, mesmo no PT, não acreditou no Enem como forma de seleção única para a UFV. Oferecia somente 20% de suas vagas no Sistema de Seleção Unificado (Sisu). Somente alguns meses depois que Luiz Cláudio foi nomeado secretário de Ensino Superior, a UFV anunciou que 80% de suas vagas seriam selecionadas pelo sistema. Os outros 20% ficaram para o processo seletivo seriado.
Como secretário de Ensino Superior, Luiz Cláudio obteve avanços, convencendo mais instituições públicas a aderir ao Sisu. Mas sai da secretaria sem ter cumprido totalmente o seu dever de casa. No Sul, ainda há muita resistência à utilização do Enem. Várias universidades de Minas Gerais fingem usar o Enem, fazendo processo seletivo na segunda fase. E isso acontece em vários outros locais, como na Universidade Federal do Espírito Santo e em alguns cursos da Unifesp. O Distrito Federal, que é justamente o local de trabalho de Luiz Cláudio, é o único Estado brasileiro que não tem uma única vaga disponível no Sisu. E olha que quem corrige as redações do Enem de forma muito atrapalhada e causando muita confusão é a Cespe/UNB.
Enquanto algumas federais se sacrificam e adotam o Enem, certas de que estão induzindo mudanças no ensino médio e democratizando o acesso ao ensino superior, outras como a Unir, a Unila e a UFFS, utilizam somente a nota do ENEM para o vestibular mas não disponibilizam a vaga no Sisu, fazendo praticamente com que elas fiquem quase que exclusivas para os alunos de suas regiões.
O Enem que será aplicado em novembro de 2012 começou mal, muito mal. O cancelamento da prova de abril já tinha sido um absurdo. Várias universidades que selecionavam para as vagas do segundo semestre já no início do ano ficaram na expectativa desta tão prometida edição extra e reservaram suas vagas para a seleção no meio do ano. Como as notas mais altas já ocuparam as vagas das primeiras chamadas, sem o Enem de abril, no meio do ano as notas de corte serão bem menores. Milhares de alunos entrarão agora em uma instituição pública e depois irão abandonar os cursos em busca de uma vaga mais próxima da sua escolha inicial. Como as públicas são resistentes a ampliar sistemas de seleção por transferência, no fim será desperdiçado dinheiro público. E tudo porque o PT não quer o Enem antes do fim das eleições deste ano, para que qualquer possível erro não prejudique seus candidatos, principalmente Fernando Haddad, candidato à prefeitura de São Paulo.
Com a nomeação de Luiz Cláudio, o MEC fez a opção de colocar um político que ainda não tinha cumprido sua missão no ministério no lugar de uma técnica que tinha claro os caminhos que o Enem precisava trilhar para se consolidar. Mercadante, novo ministro da Educação, ainda tem como opção fazer uma gestão mais técnica ou mais política. No caso do Inep e do Enem, fico com a preocupação de que o governo federal desperdice a melhor estratégia e a melhor política, já implementada para induzir que o ensino médio deixe de ser uma educação bancária e conteudista e passe a desenvolver competências e habilidades para que o aluno aprenda a conhecer, a fazer, a ser e a conviver.
Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem
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