Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Redação vale muito na nota do Enem, mas pouco na prova e correção

Peso dado à dissertação nas médias por escola não condiz com o tempo limitado que o aluno tem para redigi-la e os problemas na correção

21/09/2011 17:12

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O peso da redação nas médias das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010 é a polêmica da vez em relação à avaliação. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), neste ano, para divulgar as notas dos colégios, somou as quatro provas (180 questões), dividiu-as por quatro, somou este resultado com a nota da redação e dividiu por dois. Assim, as 180 questões tiveram quase o mesmo peso que a redação.

Concordo plenamente que a elaboração de um texto tem o potencial de avaliar muito melhor se o aluno deve seguir para o ensino superior e se desenvolveu conteúdos, competências e habilidades no ensino médio do que questões alternativas. Essa capacidade de avaliação, porém, só se daria em uma situação de valorização da redação durante a realização do Enem, com tempo hábil para que o aluno se dedicasse a ela, uma banca de corretores de qualidade uniforme, uma lista de critérios objetivos para a correção dos textos, o acompanhamento altamente qualificado do exame, com transparência e a correlação com os demais usos dados à nota. No Enem não temos essa situação.

Comecemos pelo tempo disponível para a realização do texto durante a prova. O aluno faz a redação no segundo dia de prova, o mesmo em que precisa resolver 45 questões de Linguagens e Códigos, com textos longos, e mais 45 questões de Matemática, com muitos cálculos. Em geral, tanto no primeiro como no segundo dia, os alunos já estão esgotados quando chegam à questão de número 70. É quase impossível que um bom aluno, que consegue resolver as 90 questões, tenha mais que uma hora para poder se dedicar à construção do texto. Muitos acabam fazendo a redação em menos de uma hora, das 10 totais do exame.

Uma vez feita a redação, aparecem os problemas na correção. A banca de avaliadores é formada por pessoas com formações diferentes. No ano passado, foram cerca de 2800 corretores, sendo que, como cada redação é corrigida por pelo menos duas pessoas, cada um leu algo em torno de 2000 redações. Entre os corretores estão pessoas que já corrigiram provas de vestibulares tradicionais – como Fuvest, UFMG e UFRGS – e que são mais exigentes na correção. Mas também estão pessoas com experiência em escolas públicas de periferia e que são mais tolerantes com os candidatos.

Os critérios são, no mínimo extremamente subjetivos, ou ruins. O principal deles, no ano passado, era o que previa que uma redação passaria para um terceiro corretor apenas se houvesse uma diferença entre as notas dos dois avaliadores maior que 500 pontos. Ou seja, se uma redação recebesse 900 de um corretor e 400 de outro esses valores seriam simplesmente somados e divididos. No caso, o aluno ficaria com nota 650. O critério era tão absurdo que o edital deste ano já diminuiu para 300 pontos a diferença de notas para que uma redação passe para um terceiro corretor.

Em um exame do tamanho do Enem é necessária a criação de critérios objetivos para a redação, por mais difícil que isso pareça. Os critérios deveriam estar de acordo com perguntas como: 'o aluno consegue desenvolver raciocínio lógico?', 'consegue construir argumentação?', 'elaborou proposta ética de intervenção na sociedade?', entre outras. Ao corretor bastaria assinalar sim ou não. Diminuiria a subjetividade e avaliaria melhor os alunos. Deve ficar claro que o Enem se propõe a avaliar o ensino médio e se o estudante tem condições de seguir para o ensino superior, e não se propõe a encontrar "Drumonds", "Machados", "Clarices" e "Cecílias".

O acompanhamento do Enem pelos técnicos do MEC tem sido um desastre. No ano passado, milhares de redações foram zeradas sem nenhuma explicação. Algumas pelo simples motivo de o aluno não ter marcado a cor das provas. Mas considerando que a redação não tem cor e que o tema foi igual para todos, custava corrigi-las? Como fica a transparência? Nunca duvidei de que os alunos com notas altas tenham feito bons textos. Mas, certamente, algumas dezenas de milhares de alunos com bons textos tiveram notas baixas. E a quem podiam recorrer? Nem ao Papa! O MEC negou qualquer forma de acesso, dos alunos e da sociedade, à redação corrigida.

No Sisu e no Prouni, a seleção é feita, em geral, somando todas as notas e dividindo elas por cinco. Claro que cada aluno, antes de pensar no resultado de sua escola, pensa na utilidade da nota para sua vida. Ele sempre irá preferir resolver todas as questões da prova, deixando pouco tempo para a redação, e conquistar uma vaga no Sisu, no Prouni ou pontuar em alguma universidade que usa o Enem parcialmente a abrir mão de seu futuro em favor de uma melhor pontuação no exame para sua escola.

As notas das provas objetivas e da redação não têm o mesmo significado, não podem ser misturadas. Lembremos que nas provas objetivas não há nota absoluta. Em nenhuma das quatro provas o aluno poderia chegar a mil pontos. Como a nota das provas objetivas significa a distância que o aluno teve da média de acertos dos concluintes do ensino médio, nestas provas ninguém poderia chegar a 1000 pontos, como ninguém poderia zerar. Por exemplo, um aluno que acertasse no último Enem todas as questões teria feito perto de 884 em Humanas, 845 em Ciências da Natureza, 810 em Linguagens e 974 em Matemática. Isso daria uma nota média nas questões objetivas próxima a 879.

Já em redação, as notas são absolutas. Vão de 0 a 1000. Somar as duas notas e dividi-las não diz nada, simplesmente porque na redação a nota é o que convencionalmente conhecemos como nota, e na prova objetiva a nota é o desvio que os candidatos tiveram em relação à média de acertos de todos os candidatos. Isso faz com que a redação, mal corrigida, subjetiva, sem critérios justos de correção, com pouco tempo para que os alunos a elaborem e sem transparência tenha mais que 50% do peso na nota, divulgada pelo MEC, de cada escola. É uma média muito distorcida para avaliar um colégio.

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Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    4 Comentários |

    Comente
    • ALINE | 24/10/2011 19:35

      A REDAÇAO NAO AJUDA A PESSWOA A CONSEGUIR BOLSA ,ELA CONTA OU SO CONTA AS 4 PROVAS?

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    • eliete rodrigues | 20/10/2011 21:21

      gostei muito do texto. e confeso que por ter voltado agora depois de vinte anos sem ir a escola, estou com medo, É tudo diferente para mim. mais graças as dicas vai dar tudo certo.

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    • krisnayne | 03/10/2011 23:33

      O que esperar do enem no que se diz respeito as questoes do oriente, sera que ele tratarar do assunto o que eu devo fazer para não ser pega de surprese, E A PRESIDENTA SERÁ MESMO UM DOS TEMAS ABORDADOS: COMO DEVO MIM PREPARAR

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    • fernando beltrao | 21/09/2011 22:57

      Parabéns pelo texto. Há extamente DOIS ANOS venho me posicionando contrário a esse absurdo pedagógico e matemático. Se uma prova é tão subjetiva que admite como normal uma discrepância de 30% entre dois avaliadores (isso neste ano, porque no ano passado era 50% tal critério), essa prova não serve para SELECIONAR CANDIDATOS, serviria, no máximo, para avaliar grupos de candidatos.

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