Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

País corre o risco de não ter professores para o ensino médio

Faculdades formam especialistas em áreas e não os capacitam a dar aulas. Queda no desemprego afasta docentes da profissão

24/02/2011 07:01

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O ensino médio é, certamente, a etapa de ensino em que o trabalho do professor mais se distancia daquilo que seria o "ideal" como modelo pedagógico. Em geral, no ensino superior, os professores não são capacitados para dar aulas. Mesmo as licenciaturas, que têm como objetivo principal formar para a docência, ensinam as pessoas a serem biólogos, físicos, matemáticos, químicos, gramáticos, entre outras profissões.

Quando estes estudantes universitários viram professores do ensino médio, não possuem nenhuma idéia do que deve ser feito para preparar o aluno a seguir, com relativo sucesso, para o ensino superior. Apenas reproduzem o que aprenderam no ensino superior e o que era o seu ensino médio.

É muito difícil para o professor, mesmo aquele que se rebela contra a situação, seguir por outro caminho. Os conteúdos que estão nos livros escolares, nas apostilas das grandes redes de “deseducação” e nos programas dos vestibulares servem de estímulo para que a escola e a sociedade aceitem a situação de ensinar em suas salas de ensino médio o conteúdo que é necessário aos profissionais destas profissões.

Para o aluno, a situação é incômoda. Precisa, para ser entendido como um bom aluno, entender de conteúdos que são necessários para físicos, geógrafos, gramáticos, matemáticos, biólogos e outras tantas profissões. É importante notar que, na maior parte dos casos, professores de matemática não sabem a que período literário pertence a obra de Gregório de Matos. Professores de português não dominam os efeitos da radioatividade e da reflexão da luz. Professores de física não se lembram o que é um alelo recessivo. Os de biologia sentem dificuldade em compreender como, dobrando a medida de todos os lados de um cubo, chegamos a um objeto com o volume oito vezes maior que o primeiro.

Pois é assim. Cada professor é um especialista em uma matéria, ou área do conhecimento como gostam de dizer, e tem na cabeça um programa que faça de cada aluno um semi-especialista em sua área. O professor sabe pouco de outras áreas, mas acha completamente normal que o aluno tenha que acumular conteúdo de todas elas.

Quanto mais periférica a escola, a situação envolve mais agravantes. Um deles é a falta até mesmo de professores que passaram por uma formação acadêmica equivocada. Em boa parte das escolas temos professores adaptados. Na falta de um professor de história, coloca-se um bacharel em direito. Um matemático acumula as aulas de física. Um enfermeiro assume a cadeira de biologia. No ensino médio é onde mais encontramos esses desvios de função.

Como o ensino médio conta com alunos com um pouco mais de maturidade e independência, por serem mais velhos, existem mais salas que funcionam no período da noite do que no fundamental. Como os salários são baixos, o professor de ensino médio tem mais oportunidades de acumular, graças às aulas à noite, uma carga de trabalho maior.

Vários docentes desta etapa trabalham pela manhã, tarde e noite. Alguns ficam só nas salas de aula. Outros acumulam a função de professor com alguma outra. Para o professor de ensino médio sobra muito menos tempo para o descanso, para a atualização, para o preparo de aulas, para o lazer e para o ócio.

A falta de professores que estudaram para lecionar no ensino médio e atuam nas escolas deve aumentar nos próximos anos, com a consequente substituição por "adaptados", ou a simples vacância de aulas em algumas matérias.

Mesmo que a mudança de nossa pirâmide etária diminua a cada ano o número de alunos matriculados no ensino médio e que a evasão continue alta, a diminuição das taxas de desemprego faz com que cada vez mais pessoas abandonem a profissão.

Em algumas regiões do País, as taxas de desemprego para pessoas com nível superior estão bem próximas do que chamamos de situação de pleno emprego, que é quando a porcentagem de desempregados só representa a mobilidade das pessoas entre um emprego e outro. Professores ganham, em média, 60% a menos que profissionais com o mesmo tempo de estudo. É natural que muitos migrem para outras profissões e que evitem começar a carreira em sala de aula.

Mudar a situação exige um trabalho coordenado do governo. Somente salários melhores poderão atrair mais pessoas para a carreira. Se isso não acontecer, o Brasil corre o risco de simplesmente não ter pessoas dispostas a trabalhar nas salas de aula do ensino médio. Os currículos das licenciaturas precisam considerar que estes profissionais vão atuar na capacitação de alunos para seguir no ensino superior, e não para ser uma enciclopédia de conteúdos. E os currículos precisam ser redirecionados.

Basta da ditadura dos livros didáticos e dos sistemas de ensino. Este ensino, que finge ser educação, na verdade só possibilita o sucesso de uma minoria. A maioria passa por ele sem acumular nada em sua vida. Não é justo que organizemos uma escola que faz com que grande parte dos alunos sinta-se incapaz. Eles não são. A falta de uma função racional para o ensino médio e os erros nas políticas públicas relacionadas a ele fazem com alunos cheguem à idade adulta sem compreender textos, sem conseguir resolver problemas simples de matemática e com dificuldades para atuar de forma cidadã na sociedade.

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    15 Comentários |

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    • Renato | 02/03/2011 16:17

      Clara, pode ter sobrado professor na atribuição, mas com certeza não está sobrando em sala de aula. Mesmo depois das atribuições, ainda há escolas em que não há professores de algumas disciplinas. Não adianta nada ter muito professor de uma disciplina só, ou então querendo dar aula em uma região só. Pense nisso.

      Zehdiguedys, creio que você não prestou atenção no artigo. O que ele quis dizer é que, em algumas escolas, as aulas ficam vagas, pois não há professores, bons ou ruins. Em hipóstese alguma uma situação dessas pode ser considerada um bom sinal.

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    • Lizete da Penha | 25/02/2011 11:07

      Já enviei vários comentários a respeito da minha opinião sobre a educação brasileira. Jamais obtive retorno ou os vi publicado. Bem! Lá vai mais um, pelo menos desabafo!
      Fico muito triste quando leio textos que com palavras rebuscadas e que de maneira sucinta tentam jogar a culpa do declínio da educação brasileira no professor.
      O professor adentra a sala de aula e já encontra seus alunos com o fone de ouvido em suas orelhas ouvindo tudo, menos o que o ele fala. Ai vem aquela conversa fiada... Ah! O professor não têm postura ou então... Ah! O professor não têm domínio da sala... Fica muito difícil, muito! pois o professor não pode falar nada...Lembre-se do "Estatuto do Menos", você não deve constranger os jovens eles têm direito a livre expressão, pois é! Esse é só um de seus direitos, existem outros. E vai o professor que tentar reverter a situação. Com certeza sofrerá punições. O que esta acontecendo? Estão querendo um culpado para as mudanças educacionais ocorridas nestes anos que só servirão para formar um batalhão de mão de obra barata? parem de crucificar o professor! Vamos ser mais verdadeiros, por favor!

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    • Robson Felipe | 25/02/2011 08:26

      Tendo em vista que os formadores que atuam nas Licenciaturas muito raramente (ou ha muito tempo atrás...) são professores, visto que nem na pós-graduação há preparação de professor para o ensino superior, eu diria que já não há PROFESSORES.

      De há muito que não se forma PROFESSORES neste país, e se esse modelo de formação em Licenciaturas persistir, não há como ultrapassar essa deficiência, enquanto as "especialidades" mantiverem-se cada qual em seu tijolinho e os profissionais não forem formados para "ensinar e aprender" vamos continuar com esse estado de coisas que só agrava a perda de gerações que temos sofrido nos últimos 40 anos.

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    • aliny | 24/02/2011 16:41

      Não senhor.
      Negativo Mateus.
      Só colocam professor de outra matéria como temporário, quando o professor é amiguinho do rei.
      Professor pobre mortal não consegue isso. Um professor comum, sem estar recomendado não consegue aula mesmo que seja qualificado.
      Conheço dois casos típicos.
      Um antigo ; o professor de história da E.E.Octacilio de Carvalho Lopes, foi elevado a categoria de Coordenador Pedagógico na Escola Adelaide Ferraz de Oliveira depois de tentar concurso como professor e não conseguir nota.Não efetivo a Diretoria Leste 4 o promoveu para blinda-lo de uma série de denuncia.
      Esse caso foi amplamente divulgado, tem até um blog que todo dia 19 lembra o caso. Caso escabroso com lances horrorosos. Ocorreu em 2004 e o professor fez concurso depois e conseguiu passar com nota 6,4, juntando os pontos.Deve ter tirado na prova, 3 no máximo.
      Agora bem recentemente, o Coordenador da Escola Lucas Rosquel Rasquinho não é formado e não passou na provinha de avaliaçao. Está lá, sabe o motivo ?
      As supervisoras da Diretoria Sul 3 gostam dele.´E peixinho dela.
      Enquanto existirem esses aleijões na escola pública ela vai mal.
      Não é falta de professor, professor e educador teremos sempre.
      Vai lá na Sul 3 um excelente educador, sem estar devidamente recomendado para ver se consegue alguma coisa.
      É assim que funciona
      E com essa sua campanha salarial embutida na matéria, acho que você sabe sim dessas coisas...

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    • Edu | 24/02/2011 16:31

      Senhor Mateus
      Desculpa o mau jeito, mas o senhor está fazendo campanha salarial para os professores ?
      Afirmar que salário melhor vai resolver o problema ?
      Se salário garantisse honestidade de propósito, trabalho sério e produção satisfatória não veriamos casos de politicos corruptos.
      Salário não garante nada.
      Se pagarmos um salário de 50.000,00 reais para um professor hoje, vivendo numa sociedade competitiva e consumista, o professor em tres tempos ia subir o seu padrão de vida e os 50.000,00 ia passar a ser pouco.
      O que precisamos é selecionar sim os bons professores. pagando bem, mas pagando bem os melhores e demitindo os muito ruins.
      Acho que esse terrorismo barato, dizendo que não vai existir mais professor não vai convencer ninguém
      Principalmente o governo. Eu li aqui várias descriçoes da vergonha que é uma atribuição de aula em São Paulo. Fiquei chocado com a descrição do caso da Diretoria Centro Oeste, por estar debaixo do nariz do Governador Serra. Imagino as lambanças em diretorias mais afstadas.
      Tem muito bom professor, mas a seleção é feita na conveniência das Supervisoras de Ensino e muitas vêzes com anuência dos dirigentes.
      Não entra na rede bom professor, só o professor bem indicado....
      E o que tem de bom professor querendo trabalhar é de monte.
      Muitos mesmo....
      O que afasta professor não é falta de professor, é falta de vergonha na cara de nossos governantes.
      Então eu vou sempre dizer que essa "onda" essa nova "moda" de tentar aterrorizar ou chantagear dizendo que professor é tão maravilhoso e vai desaparecer do mercado é ridicula.
      Quer ajudar a educaçao do seu pais ?
      Quer colaborar ?
      Fala a verdade....

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    • Johny | 24/02/2011 15:12

      Eu sou um estudioso no assunto, e vejo tantos se aveturarem a falar de educaçao e até tem espaços na mídia fazendo afirmações bizarras.
      Esses especialistas deviam pelo menos se informarem como se dá uma atribuição de aula, pelo menos, daí podiam conhecer as pessoas, conversar com os professores e então fazer uma avaliaçao mais proxima da realidade.
      Não, não falta professor nem vai faltar. Uma profissão que vai sempre existir.
      Estou ouvindo muito frequentemente isso, e me preocupa. Parece uma coisa plantada para valorizar o professor. Valorizar o professor partindo de uma mentirinha não vai valorizar ninguém.
      A onda do professor coitado, abnegado, santo, que é sempre vítima de alunos ferozes, crimonisos em potencial, deu no que deu.
      Nem valorizou os professores e ainda colocaram os pais contra eles.
      Estou acompanhando a matéria e vendo o nível dos professores....Escrevem cada besteira e não perdem uma chance de falar mal de aluno e de seus pais. Já vai por aí. Como um profissional quer ser respeitado se ele não respeita quem lhe paga o salário ?
      Outros tão mal formados e mal informados está na velha moda de responsabilizar a Progressão Continuada.
      A escola pública, principalmente em São Paulo está convulsionando de um jeito que temos que esperar esse estertor baixar para ver o que sobra.
      Uma escola pública que passa a funcionar com a metade da sua lotação, deixando milhares de alunos na rua. Produto da intolerancia e da incapacidade dos nossos governantes de punir os responsávis por isso.
      O Chalita permitiu que fechassem 300 escolas no primeiro ano de sua gestão.
      A moda pegou.
      Pararam de fechar escolas e começam a fechar turnos e salas.
      Isso sim pode acabar com a profissao de professor,mas professor de escola pública.
      Estou lendo por ai, que a Dilma vai criar o proune do ensino médio.
      Será a falência total da escola pública. Os maus professores esses sim, estão com os dias contados...
      Se chegamos no fundo do poço, temos a esperança de começar uma subida em outros patamares.
      E convenhamos, quem contribuiu para a falência da escola foram os professores.
      Faltou o excencial, faltou selecionar os professores.
      Por enquanto a seleção ainda é na base do QI, quem indica.
      Se o professor vier bem indicado, ele não precisa ter nenhum talento, nenhuma especializaçao,nenhuma qualidade, ele vai pegar aula. O professor preparado e que é um educador vai ficar de fora.
      É isso.

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    • pedro | 24/02/2011 12:54

      Quero para começar perguntar ao Mateus se ele já viu alguma atribuição de aula em São Paulo?
      Eu já ví quatro, a última acompanhei minha irmã na E.Antonio Alves Cruz perto de pinheiros, São Paulo.
      Foi terça feira. Minha irmã adora ensinar, fez o magistério e foi para outras áreas até que se redecobriu educadora e voltou para a Faculdade.
      Numa portaria do Paulo Renato onde ele permitia que alunos de cursos superiores se condidatassem a vaga de professor temporário, ela entrou.
      Adorou e é o que ela quer fazer mesmo.
      Esbarrou com aquela panela de ferro. Percebeu logo de cara que são as supervisoras quem decidem quem entra e quem sai O critério não me arrisco a dizer qual é . Que é nebuloso não tenham dúvida.No minimo nebuloso é.
      Era uma multidão, lotando o páteo da escola. Professores de todos os sexos, e os tipos mais comuns e os mais estranhos. Jovens e pessoas de cabelo bem branquinho.
      Para resumir: metade voltou sem nada.
      Então recomendo com todo respeito ao Mateus que acompanhe essas atribuiçoes, depois me diga se temos a menor possibiidade de ficar sem aula por falta de professor.
      Essa onda terrorista, que vai faltar professor, não vai valorizar a profissão.
      Uma onda bem rasteira.
      Não é verdade.
      Temos é falta de uma politica educacional que valorize o bom professor, que pague bem e que fiquem os melhores.
      Conheço pelo menos dois ótimos professores que ficaram de fora na atribuição de aula na Diretoria de Ensino Centro Oeste e sei de fontes seguras que sobrou professor em tudo que ´foi diretoria de ensino de São Paulo
      O buraco é bem mais embaixo, ou acima, vai lá saber.

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      Ciara | 24/02/2011 21:08

      Pode não faltar professores na sua cidade, mas no restante do país falta. Tenho certeza de que esses professores que ficam sem aula não tem coragem de mudar de cidade ou de estado para continuar com sua profissão e com salário mais baixo ainda do que o de São Paulo!

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    • Clara | 24/02/2011 12:26

      Para com isso.
      Essa onda que não vai mais ter professor no mercado não vai colar mesmo
      Depois da onda do "professor coitadinho" e que foi plenamente desmascarada, vem essa mentira deslavada que vai faltar professor. Se esse é o jeito que vocês encontraram para valorizar o professor, estão numa onda errada.
      Não vai faltar não....
      Só quem esteve nas atribuições de aula em São Paulo que viu, Sobram professores, centenas de professores temporários, bons professores, diga-se de passagem, ficaram sem trabalho.
      Isso sem contar aqueles que pegaram umas duas ou tres aulinhas só para não ficar parado e não sair da rede. Na esperança de algum professor tirar licença e ele se encaixar.
      Ainda não está faltando professor.
      E não vai faltar.
      Fechando escolas, turnos e salas, os professores vão sobrar...

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      Ciara | 24/02/2011 20:51

      Pode não faltar na sua cidade, mas no restante do país falta e a reportagem não diz respeito só a São Paulo!

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