
Quando iniciaram as discussões para a implantação de um campus da USP na zona leste de São Paulo, seus defensores diziam que a unidade poderia incluir as pessoas de menor renda pela localização geográfica. A lógica era simples. Colocar uma universidade na periferia da cidade talvez fizesse com que parte dos alunos oriundos da classe média paulistana não se dispusesse a, todos os dias, ir a esse lugar. Naturalmente, sobrariam mais vagas para os moradores da zona leste. Até poderia ter dado certo, mas não foi assim que o projeto foi implantado.
A USP Leste fica bem na divisa da zona leste com Guarulhos. Certamente é mais rápido chegar a essa sede da USP do Jardim Paulista ou de Higienópolis do que dos bairros mais pobres da zona leste. O campus é todo cercado e nem os moradores do vizinho Jardim Queralux têm acesso às suas dependências. Hoje, conta com uma estação de trem, que é o símbolo do isolamento da USP na Zona Leste. Um dos lados da passarela que dá acesso à estação fica dentro do campus, onde só entra quem tem a carteirinha da USP. Já quem, por exemplo, precisar ir ao centro de treinamento do Corinthians, ou ao da Portuguesa, não pode atravessar a passarela para ir ao local, que é ali do lado. Vai precisar descer em outra estação e andar cerca de 5 quilômetros.
A arquitetura dos prédios é estratégica. Construídos em terreno do Parque Ecológico do Tietê, têm a fachada de frente para a rodovia Ayrton Senna, uma das mais movimentadas de São Paulo, e estão um pouco antes do acesso da rodovia para o aeroporto de Guarulhos. Lembram aquele antigo projeto Cingapura, em que as construções eram sempre feitas em locais de grande circulação de automóveis. Sempre achei que essa USP era muito mais USP Ayrton Senna do que USP Leste. Quem tem acesso fácil à Ayrton Senna ou à linha de trem que passa ao lado tem muito mais facilidade de chegar à unidade do que quem mora no Jardim Grimaldi, no Parque São Rafael, no Jardim Elba, no Satélite, na Terceira Divisão ou no Iguatemi. Fosse a unidade em um desses bairros, talvez incluísse pela localização geográfica. Como não é, isso não aconteceu.
Na implantação, a reitoria fez de tudo para dar a impressão de que a unidade era uma espécie de USP de segunda linha. Foram várias as autoridades que disseram que lá os cursos tinham como foco o mundo do trabalho. Nada contra cursos técnicos. O problema é que o ensino técnico e tecnológico não é função da USP, e sim das Faculdades de Tecnologia do Estado (FATECs). Vários professores e alunos reagiram à possibilidade e, felizmente, não temos lá uma unidade da USP totalmente dedicada ao ensino técnico. Mas, alguns anos decorrentes da fundação, os cursos da unidade não são muito concorridos. Como o novo reitor está decidido a acabar com os cursos de baixa demanda na universidade, aqueles em que os estudantes de escolas públicas tem mais chances de passar, é na USP Leste que tentam iniciar a diminuição de vagas da universidade. Logo em uma unidade em que os cursos não atingiram sua maturidade (nenhum deles possui, sequer, um PPP - Projeto Político Pedagógico).
Um relatório, coordenado por Adolpho Melphi, que era o reitor da universidade na época da implantação da USP Leste, e divulgado com exclusividade pelo IG Educação, mostra que só nessa unidade podem acabar com cerca de 30% das vagas. O relatório espanta pela excessiva preocupação com a relação candidato/vaga de cada curso. Não é preciso muito tempo pra entender que o objetivo daqueles que fizeram a proposta é aumentar a concorrência de cada curso. Com menos vagas, se continuar a mesma quantidade de candidatos , há o aumento da concorrência. É isso mesmo, descoberta a febre, ao invés de tratá-la, resolvem quebrar o termômetro.
Alguns cursos não atraem candidatos simplesmente por causa de seus nomes. As formações, por exemplo, que começam seu nome com "Gestão", passam a impressão de que são sequenciais, aquelas de dois anos. Quem presta USP não quer isso. Como não tem todas as informações, prefere não arriscar. Se, por exemplo, “Gestão de Políticas Públicas” chamasse “Administração Pública”, a concorrência aumentaria, sem a necessidade de meses para fazer um relatório de poucas, e equivocadas, páginas.
Ciências da Atividade Física poderia muito bem ser uma opção do curso de Educação Física.
Vários cursos, e alunos que se formaram neles, sofrem pela falta da implantação das políticas necessárias para o sucesso de seus projetos. Gerontologia e Obstetrícia são cursos novos e não possuem apelo para o mercado de trabalho, apesar de serem importantes para o Estado e para o País. Mais acertado seria o Estado ter criado, em sua estrutura, essas carreiras fundamentais para o cuidado ao idoso e para a humanização do parto.
Em Gestão de Políticas Públicas, até que o Estado fez parte do combinado, abrindo um concurso para Gestor Público quando as primeiras turmas se formaram. Só cometeu o erro de permitir que qualquer pessoa com ensino superior pudesse concorrer ao cargo. Passaram muito mais concurseiros na carreira do que estudantes de Políticas Públicas da USP ou de qualquer outra universidade.
O curso de Licenciatura em Ciências da Natureza é o que, proporcionalmente, mais acolhe alunos oriundos da rede pública e alunos oriundos da zona leste. Tem poucos inscritos, obviamente, porque a carreira do magistério paga pouco e tem atraído cada vez menos pessoas. Por isso, o Estado deve parar de preparar pessoas para lecionar? Não, deve procurar caminhos, inclusive com incentivos financeiros, para que as pessoas optem pela carreira.
Essa obsessão, da nova reitoria, em analisar os cursos por sua relação candidato/vaga, seria muito boa se olhasse para a outra ponta. Ora, com tantos candidatos por vaga, não seria a hora de a USP aumentar, consideravelmente, o número de vagas em Medicina, Publicidade, Administração, Economia, Engenharia, Design, Direito e Arquitetura?
Por fim, é mesmo verdade, como diz o relatório, que algumas matérias optativas da USP Leste possuem menos de 10 alunos inscritos. Isso não acontece só nesta unidade, mas em toda a USP. Concordo que esse problema deve ser enfrentado, mas não é acabando com essas matérias que se resolve a questão. Uma das vantagens da USP é cada aluno poder ter uma formação diferente, focada em seus interesses. Isto é bom e deveriam, inclusive, ser ampliadas as matérias optativas na unidade. A solução para não termos centenas e centenas de matérias, na USP, com pouquíssimos inscritos, é aumentar, sem timidez, o número de alunos nas séries iniciais. A solução, caros reitor e ex-reitor, para diminuir a exclusão e para inverter o caminho de distanciamento da sociedade que a USP tem feito, é aumentar o número de vagas, nos cursos com muita e pouca demanda.
Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem
Gostei da matéria! Concordo q ao invés de diminuir o número de vagas e extinguir a Obstetrícia (o q é um absurdo!) eles deveriam incentivar e aumentar as vagas nos cursos! Cadê o respeito aos estudantes?! Por que ao invés de pensar em absurdos como extinção do curso de OBS, a USP ñ o apoia, dando força para a luta com o COFEN para o registro?! Se a USP continuar abaixando a cabeça, a Universidade renomada do país perderá a sua credibilidade, e com ela toda a educação brasileira! O q o nosso Governador e a nossa Presidenta acham disso tudo? Afinal os elegemos para representar os nossos interesses! Força Obstetrícia e cursos da EACH!!!
Responder comentário | Denunciar comentárioOlá, sou aluna do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza e moro num bairro próximo à USP - Leste (Vila São Francisco). Realemente, para eu chegar à USP tenho que pegar dois ônibus, sendo que não tem um ponto nessa linha próximo ao campus, os motoristas, na verdade, param em uma rua próxima (a chamada parada da USP). Se eu quiser ir de carro, tenho que dar uma volta imensa pq a entrada do estacionamento fica na Av. Arlindo Béttio, a entrada mais próxima da minha casa e, provavelmente, mais acessível aos moradores da LZ em geral, só entra pedestre. Ao invés de DIVULGAREM os cursos mostrando que são EXTREMAMENTE IMPORTANTES para o futuro da nossa sociedade, eles querem acabar com eles. PESSOAL, NÃO ADIANTA, NUNCA O POBRE, O ESTUDANTE DE ESCOLA PÚBLICA VAI SER FAVORECIDO. Isso é uma vergonha.
Responder comentário | Denunciar comentárioEm primeiro lugar, a USP Leste é uma unidade da USP cujo nome é Escola de Artes, Ciências e Humanidades, EACH para falar de um modo abreviado. Além disto, sua mensagem é distorcida e contém pouca informação verdadeira, expressando apenas sua visão denegrida da realidade. O acesso à unidade EACH é liberado a TODO CIDADÃO que possa se identificar. Basta apresentar sua Carteira de identidade, ou, qualquer documento com foto que terá livre acesso à unidade. Esse acesso restrito à apresentação de identificação por razões de segurança, assunto não abordado em seu BLOG. Esta unidade possui uma estação de TREM (ESTAÇÃO USP LESTE), um transporte de massa popular. Assim, entendo que sua observação sobre o acesso à unidade é equivocada ou é meramente intempestiva! A EACH é vizinha da linha de trem de um lado e da estrada Airton Senna do outro, veja por exemplo, o acesso à USP Butantã possui a Marginal Pinheiros em um dos lados, cujo acesso é MUITO pior, pois está quase sempre engarrafado. A qualidade dos professores e dos cursos oferecidos está acima da média das melhores universidades públicas nacionais. Nossos alunos, na grande maioria saem empregados. Enfim, a vocação da unidade anda na direção da excelência acadêmica. Não somos perfeitos mas certamente iremos nos aperfeiçoar. Porém, aperfeiçoar, não é somente aumentar a concorrência no vestibular, embora esta questão seja desejável, mas implica em proporcionar uma formação melhor para nosso egresso. Este é o papél do funcionário público que deseja melhorar um mecanismo de devolução de impostos como a EACH. A unidade tem se esforçado em abrir mestrados para oferecer à comunidade mais este serviço de formação de pós-graduação inteiramente gratuíto. Ora, este serviço não tem senão o objetivo de melhorar a qualidade da unidade. Curiosamente, isto passou despercebido em sua análise.
Responder comentário | Denunciar comentárioParabéns. Uma análise clara e otimista.
Responder comentário | Denunciar comentárioParabéns pelo artigo.
O Estado deveria incentivar os cursos. Criando concursos especifico para os gerontologia e obstetrícia. Trabalho na saúde e sei da falta que estes profissionais estão fazendo.
Deveria aumentar o número de vagas em LCN e dar bolsas para incentivar o aluno durante a sua graduação. Já que boa parte destes alunos são oriundos da zona leste e de escolas públicas.
Alias, a USPLESTE teve quase metade dos ingressantes deste ano oriundos de escolas públicas. Curioso que falem de inclusão, e queiram acabar justamente com vagas na unidade que mais atrai estudantes de escolas públicas.
O articulista disse...Gerontologia e Obstetrícia são cursos novos e não possuem apelo para o mercado de trabalho???. Como pode, se o país tem cada vez mais idosos e necessidade de pessoas qualificadas para seus cuidados? E a demanda de partos, principalmente para um parto humanizado é crescente? A mulherada ainda sofre, em todo o país, pela falta de profissionais capacitados que sabem e estão dispostos a fazer de forma respeituosa um parto!! Quem quer um parto humanizado hoje em dia tem que ter grana pra pagar uma equipe, principalmente um médico que cobra valores salgadíssimos, pq nos serviços públicos os profissionais ainda estão viciados em práticas e conceitos arcaicos e a realidade é que muitos, viciados nas cesáreas, não sabem fazer um parto normal. Pelos cursos de geronto e obstetrícia siiiimmm!!! E pela criação de Casas de Parto não só nas periferias mas também nas áreas centrais!!!
Responder comentário | Denunciar comentárioGostaria de manifestar meu profundo sentimento de desgosto em ler essa matéria.
"Um relatório, coordenado por Adolpho Melphi, que era o reitor da universidade na época da implantação da USP Leste, e divulgado com exclusividade pelo IG Educação".
Em primeiro lugar, o relatório "exclusivo" divulgado pela página do Ig Educação, não é o relatório OFICIAL.
Em segundo lugar, muitos cursos da USP passam por reformulações e questionamentos, tudo isso, para garantir a qualidade do ensino público oferecido. Isso é uma proposta que está inserida dentro dos próprios valores da Universidade.
Achei a matéria muito boa, entretanto há um equívoco: o curso de obstetrícia, por exemplo, tem um PPP muito bem elaborado. Se houver interesse, é só entrar no site da EACH, lá está disponível.
Responder comentário | Denunciar comentárioconcordo!
Responder comentário | Denunciar comentárioMeus parabéns Mateus, gostei muito da sua matéria, infelizmente o que você retratou é real vejo com muita tristeza o que está sendo feito pelos meu lados(zona leste e guarulhos), moro em guarulhos a usp leste seria ideal para estudar mas como você colocou ela fica isolada, alunos que estudam lá e moram em guarulhos sofrem absurdos para fazer o percurso, já que apenas um linha de ônibus atende lá a linha que vai até o aeroporto.
Quanto a oferta de vagas concordo com você, ao contrario das universidade federais a usp parece regredi nesse propósito haja vista as unidade de ensino federal em são paulo, as mesma que levaram muita alunos que passaram na usp para o seu quadro de alunos, veja o fato do indice de alunos desistentes na matricula.
Bom fico feliz pela sua matéria, mais uma vez parabéns.
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