Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Guia Enem: como é calculada a nota do exame

A partir de erros e acertos em provas anteriores do exame é possível traçar estratégia de estudos. Saiba como

19/09/2012 06:00

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Os erros e acertos no Enem são o ponto de partido para o segundo capítulo do guia publicado nesta coluna para alunos e professores que querem entender a lógica do Exame. A partir deles você pode fazer sua estratégia para a prova. Ela é diferente para cada um dos participantes e depende dos objetivos dos candidatos. Como já disse na primeira coluna, se você quer Medicina, não tem jeito, terá que estudar todas as competências indicadas pelo exame (menos aquelas em que já acerta tudo, claro). Agora, quem quer entrar em cursos em que a nota de corte é menor ou mesmo apenas a certificação do ensino médio, pode escolher apenas alguns conteúdos e competências para estudar até o dia da prova.

Guia Enem: leia no primeiro capítulo como identificar quais competências domina


Temos algumas dicas para quem não vai disputar os cursos que exigem as notas mais altas. Naquelas competências em que você acertou tudo, ou quase tudo, sua capacidade de resolução das questões que estarão na prova já é alta. Cada hora dedicada ao estudo delas trará um acréscimo menor ao número de questões que você acertará. Aquelas competências em que você acerta boa parte das questões, uma porcentagem próxima ou um pouco acima de 50%, são competências que você tem mais facilidade de aprender e que a probabilidade de acertar mais questões, se você estudá-las, é muito maior. Vale a pena dedicar seus estudos a elas. Mas cuidado para não emperrar os estudos em um único conteúdo/competência.

Já as competências em que você acerta menos de 50% ou mesmo não acerta nada são as que têm mais dificuldades de aprender. Se o seu curso não tem uma nota de corte muito alta e tem só uma ou duas competências em que seu rendimento é muito ruim, não tem problema deixá-las de lado, afinal de contas você não precisará acertar toda a prova para ter a nota que precisa no Enem e cada hora estudada nessas competências também trará pouco retorno na relação custo/benefício.

Caso seu curso não exija uma nota muito alta, mas você tenha localizado muitas competências em que vai mal, é hora de fazer as contas e selecionar, entre as competências que não domina, quais você elegerá para estudar (somando o estudo das competências em que você tem domínio razoável).
 

O Guia Enem do IG Educação vai ajudar você a decidir o que colocar e o que deixar de lado na sua Estratégia de Estudos. Neste link colocamos o número de acertos relacionados com as notas de alguns dos alunos que fizeram o Enem de 2011. Estes dados são de uma pesquisa realizada pelo IG com alunos do Brasil todo e que tem sido referencia para quem quer entender melhor como é a nota do Enem. Fazendo a prova de 2011 e comparando seus acertos em cada uma das provas com os dos alunos de 2011, você terá, comparando, uma nota aproximada de quanto pontuaria se tivesse feito tal prova.

A prova tem divisão entre questões fáceis, médias e difíceis?
Sim e não. É evidente que algumas questões são mais difíceis que outras, mas não existe, até hoje, uma proporção claramente definida por quem organiza a prova. O motivo mais evidente disso é que não são todas as questões que estão no Enem que são previamente testadas, informação que consta na resposta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e do Ministério da Educação (MEC) ao processo em que o Ministério Público do Ceará questiona o vazamento das questões de 2011. Lá está escrito que não necessariamente todas as questões do Enem foram previamente testadas. Por exemplo, se você pegar a prova de 2011, verá que várias questões foram feitas de fragmentos de textos publicados na imprensa poucos dias antes da prova. Não daria tempo de testá-las. É o caso, por exemplo, da própria redação do Enem 2011.

Esse documento também diz que o método de TRI (Teoria de Resposta ao Item) utilizado é o método Bayesiano Expected a Posteriori (EPA), o que significa que a definição de uma questão como fácil ou difícil acontece só depois que a prova de todos os alunos concluintes do ensino médio é corrigida e que, provavelmente, até as questões testadas ganham peso só depois dessa correção.

Se acerto uma questão difícil e erro uma fácil, o método ‘anti-chute’ cancela meu acerto?
Apesar de o MEC e quase toda a imprensa afirmar que sim, a questão é um pouco mais complicada. Na verdade, a nota do Enem não é dada pela soma de questões vezes o peso de cada questão. E nem o erro de uma questão cancela o acerto de outra. A nota do Enem é dada, em cada uma das quatro provas objetivas, pelo caminho que cada aluno percorreu. Sendo assim, dois alunos, por exemplo, com 30 acertos em matemática, terão notas diferentes se não tiverem acertado as mesmas 30 questões. Um aluno com 29 ou 28 acertos pode ter uma nota maior do que aquele que acertou 30.

Como é feito esse cálculo? Simples. Em tese (porque o MEC nega-se a abrir os dados para que pesquisemos mais sobre o Enem), se um aluno acertou 30 questões e foram as mesmas 30 que milhares de outros alunos, a TRI entende que ele teve um caminho mais consistente do que um aluno que acertou sozinho um conjunto de 30 questões. Milhares de alunos com 29 acertos terão uma nota maior do que o aluno que acertou sozinho um conjunto de 30 questões. O que o Inep/MEC chama de método ‘anti-chute’ está relacionado ao caminho que o aluno escolheu, e não a cada questão respondida.

Por que a nota do Enem nunca é zero e nem 1000?
A nota que o Enem divulga em cada uma das quatro provas objetivas é bem diferente das notas que estamos acostumados a ver no dia-a-dia porque não é em escala decimal (0 a 10, a 100, a 1000, etc.). É uma nota divulgada em uma escala diferente, chamada de desvio padrão. Esta escala de desvio padrão do Enem tem como média 500 e 100 pontos a mais ou a menos a cada desvio padrão que o aluno tiver em relação à média dos alunos concluintes do ensino médio (quando o caminho do aluno não completa um desvio padrão inteiro, o Enem coloca este caminho na curva de desvio padrão dos alunos concluintes do ensino médio e atribui uma nota fracionada). É uma conta bastante difícil de fazer, sobretudo para milhões de provas, e ela só é possível graças a modernos programas de computadores.

Para tentar facilitar o entendimento, vamos imaginar que a nota não fosse dada ao caminho, e sim ao número de acertos de questões. Vamos usar como exemplo as provas de matemática do Enem. O caminho médio de matemática, em 2011, foi recebido por alunos que acertaram algo entre 12 e 13 questões das 45, dependendo quais foram as 12 ou 13 questões acertadas. A esse aluno que representava exatamente a média, foi dada a nota 500. Vamos agora fazer de conta que nem as questões e nem o caminho tenham importância para a nota. Imagine que a média de acertos em matemática, dos alunos concluintes do Ensino Médio, tenha sido 13 acertos. E, para facilitar nossas contas, que, dos mais de quatro milhões de pessoas que fizeram a prova de 2011, exatamente um milhão eram concluintes do Ensino Médio. Para fazer o cálculo do desvio padrão, teríamos que somar os acertos desse grupo de um milhão de pessoas, resultando em 13 milhões. Como 13 milhões divididos por um milhão dá 13, quem acertasse 13 questões seria colocado no meio de um gráfico de desvio padrão e sua nota seria 500.

Para definir o desvio padrão, o computador faz um cálculo que confere a diferença de acertos de cada aluno em relação a 13 (média de acertos do grupo considerado), soma todas as diferenças e divide pelo total da população considerada, que no nosso caso é um milhão. Quem acertou 30 questões manda 17 pontos para o cálculo, quem acertou seis questões manda menos sete, quem acertou 13 manda zero, quem acertou 15 manda dois, quem acertou 20 manda sete, e assim por diante.

Vamos imaginar que a soma dessas diferenças tenha dado sete milhões. 0 sete é o nosso desvio padrão. A cada sete questões a mais que o aluno fizer, ele recebe 100 pontos a mais que 500 (são os escores definidos como padrão pelo ENEM, de média 500 e desvio padrão 100). Então, com 20 acertos, um aluno faria 600 pontos. Com 27 faria 700 pontos, com 34 faria 800 pontos, com 41 faria 900 pontos e, como a prova só tem 45 questões, ninguém consegue fazer 1000 pontos. Da mesma forma, mesmo errando todas as questões, ninguém faz zero ponto (a não ser que não tenha assinalado a cor da prova e/ou não transcrito a frase da folha de provas para o cartão de respostas).

Para simplificar, a sua nota no Enem é dada para sua distância da média. É por isso que as maiores notas do Enem, divulgadas pelo Inep/MEC, sempre estão em matemática. Como os alunos acertam em média menos questões dessa área, quem acerta tudo fica a uma distância maior da média do que quem acerta tudo em Linguagens, onde a média da quantidade de acertos é bem maior. Devemos lembrar, como explicado antes, que essas notas são dadas considerando os caminhos dos alunos, e não pura e simplesmente o número de acertos totais.

No próximo capítulo do Guia Enem: o que são os eixos cognitivos do exame

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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