Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Escola tenta ensinar demais, mas não consegue nem o necessário

Excesso de conteúdo repassado a alunos no ensino médio atrapalha educação para pensar e aprender

23/02/2011 07:00

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Na escola de ensino médio, os conteúdos que todos deveriam aprender são aqueles que são indispensáveis para que o aluno possa aprender todo e qualquer conteúdo. Uma pessoa, na escola e após passar por ela, precisa, além de gostar de conhecer, ter os instrumentos necessários para que possa aprender conteúdos em qualquer área do conhecimento.

Este deveria ser o papel assumido pelo ensino médio. Como hoje os conteúdos são infinitos, mesmo se a escola quiser, ela não consegue ensinar todos os conteúdos do mundo. Mas, se a escola preparar o aluno para aprender conteúdos na hora que ele quiser – e/ou precisar –, para gostar de conhecer, para aprender a fazer, ser e conviver, terá formado cidadãos capazes de obter sucesso no ensino superior, na vida profissional e nas relações sociais.

Acontece que a escola, no Brasil, não está disposta a ensinar apenas os conteúdos básicos e depois educar para que o aluno aprenda a conhecer, a fazer, a ser e a conviver. Nossa escola gosta mesmo é do mais puro conteúdo. E quanto mais sem sentido, melhor.

Tenho um exemplo do último ano do ensino fundamental. Nos tigres asiáticos, por exemplo, um livro de matemática desta série tem menos que 20 tópicos a serem ensinados. No Brasil, a mesma série propõe entre quarenta e sessenta tópicos. Não custa lembrar que os tigres asiáticos apresentam índices muito melhores que o Brasil nas avaliações internacionais de qualidade de ensino.

Ensinamos, ou tentamos ensinar, demais e acabamos atrapalhando que os alunos assimilem o que realmente é necessário. Por excesso de conteúdo, a maioria dos alunos do ensino médio não aprende quase nada e a escola ainda abre mão do tempo em que poderia cumprir sua função de educar.

Nossos alunos, como ilustra a série do IG Educação , não conseguem calcular o valor das parcelas do décimo terceiro salário, não resolvem contas com regra de três e não conseguem indicar a função de um texto. Mas os índices dos livros didáticos, as apostilas das grandes redes particulares e muitas aulas pelo Brasil afora querem que consigam resolver complicadas equações matemáticas, que conheçam impecavelmente as normas da gramática normativa, que conheçam os domínios morfoclimáticos brasileiros classificados por Aziz Ab´ Saber e que saibam tudo sobre a Revolução dos Cocos em Papua Nova Guiné, entre outras coisas.

E, por mais paradoxal que pareça, todo professor quer que o aluno acumule a maior carga possível de informações sobre sua matéria. Em geral, professores de humanas não sabem nada de exatas, os de exata não sabem nada de biológicas e os de biologicas acham que humanas é somente "perfumaria". Cada um só quer saber de sua área, mas acham completamente normal querer que os alunos entendam, muito bem, todas as áreas.

O que não se percebe é que o aluno que domina os instrumentos para aprender consegue aprender qualquer conteúdo quando quiser ou quando ele sentir necessidade. É muito mais racional, e mais inteligente, prepará-lo para a autonomia do que tentar "depositar" conhecimento em sua cabeça.

Convido o leitor a conferir o programa proposto para a prova de qualquer vestibular das grandes universidades públicas. Uma leitura atenta vai mostrar que o que é cobrado é impossível de ser ensinado em três anos. Alguns itens do programa são tão abertos que poderíamos dizer que "o céu é o limite" quando preparam uma prova de seleção.


Mas alguns dirão que a educação conteudista dá certo, que tem gente que se esforça e aprende, que alguns até passam em universidades públicas e que isto é meritocracia. Sim, é verdade, a educação conteudista dá certo, mas dá certo para poucos, para uma minoria, e não podemos fazer políticas públicas que privilegiem a minoria da população. A esmagadora maioria tem seus talentos e capacidades podados durante o ensino médio.

Uma análise mais atenta mostra, por exemplo, que a maioria dos alunos que foram para a segunda fase da Fuvest (o maior e mais concorrido vestibular do país) este ano acertou menos da metade da primeira prova. Como os demais, também não aprendem todo o conteúdo desnecessário.

Outros ainda insistirão em dizer que antigamente tudo era diferente, que a escola pública tinha qualidade, que todos que passavam por ela obtinham sucesso escolar. Claro que sim. O fundamental 1 era para poucos, principalmente para as famílias de melhor condição social e residentes nos grandes centros urbanos. Aí, para ir para o fundamental 2, havia exame de admissão. Quem passava pelo exame já se dava bem com este tipo de educação conteudista, por isto adorava e se dedicava à escola. O ensino médio era quase inexistente, e a seleção afunilava ainda mais o processo. Quem passava pelo médio não encontrava muita concorrência no ensino superior. Lembremos, para ilustrar, que a FFLCH, unidade que deu origem à USP (Universidade de São Paulo), tinha mais vagas abertas do que alunos interessados quando foi criada, na década de 30.

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    18 Comentários |

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    • aNTONIA CÍCERA DE LIMA | 27/02/2011 13:13

      Não discordo completamente da matéria, pois entendo que o debate e a solução para os problemas se inicia no campo das ideias, vivência e observação dos acontecimentos que permeiam a contrução da cidadania. Sou coordenadora do ensino médio em uma escola da rede pública paulista, portanto vivencio diarimente as dificuldades em fazer uma gestão de excelência pelos motivos apontados na reportagem e pelos comentários sobre o assunto. A escola pública não atua como uma empresa, onde os atores desenvolvem apenas o papel que se espera deles. A falta de funcionários, professores, um currículo extenso, metas a serem alcançadas, Enem, etc, atordoam a todos os envolvidos, e a pergunta que eu faço é: Como contentar a todos, nessas condições?

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    • anônimoMP | 26/02/2011 16:49

      Concordo plenamenté com os comentários feitos Matheus Prado e acrescrentaria que além de atender aos interesses governistas e entidades patronais existe também uma grande necessidade de encenar grandes apresentações para a familia com único interesse de garantir a matrícula p o ano seguint

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    • Edgar S Cantalejos | 24/02/2011 11:42

      Sr. Mateus Prado, a sua linha de visão, sobre a educação, tem paralelo com Mário Sergio Cortella. Eu, 61 anos e pai de uma menina de 9 anos, sou solidário a esta linha de visão. Então, SOFRO, SOFRO MUITO em ver a minha filha participar desse laboratório chamado CONTEUDISTA. Fiz parte desse laboratório. O passado do meu pai, quando ele se referia, era de 50 à 100 anos, o meu passado de 30 à 50 anos, hoje o passado é de apenas 5 anos.
      Pra que se educar com conteúdo. Como não sou químico, engº. químico e outros químicos, todas as fórmulas de química que aprendi só tomou o meu tempo. Quantas fórmulas está ROUBANDO tempo da minha filha DE SER CRIANÇA?
      POR FAVOR ME AJUDE. O QUE EU POSSO FAZER POR ELA?
      escantalejos@ig.com.br

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    • Natalia Menezes | 24/02/2011 09:46

      É muito relativo varia de escola para escola,pois umas passam conteudos em excesso enquanto outras faltam conteudos.
      Estou cursando Psicologia,no ano passado conheci várias teorias da aprendizagem e minha professora discutia bastante sobre o precariedade no ensino das escolas.
      É importante que haja uma interação entre aluno e professor para o processo de aprendizag em,pois não adianta o professor encher a lousa de matéria se os alunos não aprendem.Os alunos quando recebem as informações do professor não questionam e nem refletem,mas também não são estimulados pelos educadores.
      A realidade do Brasil nas escolas é dificil,pois há vários fatores que afetam a educação dos alunos como:superlotação de alunos em sala de aula,a mal remuneração dos professores,falta de recursos etc

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      kelly | 26/02/2011 12:54

      Sao tantas horas de aulas para desenvolver q nao temos tempo nem de refletir sobre o que estamos fazendo, sao apostilas, livros, planejamentos, variedade de turmas... enfim um turbilhao a nossa volta que parecemos trabalhar por produção.

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    • Eudes | 24/02/2011 02:08

      Está claro que o articulista escreve uma matéria TENDENCIOSA.
      Certamente por ter sofrido no ensino médio, EXAGERA DECLARADAMENTE em afirmar, segundo a sua PRÓPRIA verdade, que se dá mais ÊNFASE a uma "Revolução dos Cocos" do que a assuntos básicos das disciplinas.
      Arrisca-se, inclusive, em afirmar que a maioria dos professores só conhece a sua disciplina.
      Talvez esses profs tenham pulado o ensino médio e despencaram na graduação.
      QUE ABSURDO!!!
      Se o sr já lecionou no ensino médio, o que não parece, o fez há muuuuuuuuuuuuito tempo, mesmo, hein???
      Ou é mais um PSEUDOESPECIALISTA que gosta de dar palpites sem embasamento?
      A propósito, o ENEM que o Sr assessora é muuuuito MAL ELABORADO, CANSATIVO e não mede o real conhecimento do aluno: EXPERIÊNCIA de ANOS em salas de aula, com depoimentos de INÚMEROS alunos e professores. Sobre isso ninguém vai escrever NADA, não é?
      Querer fazer MÉDIA com a MAIORIA DA POPULAÇÃO que quando PODE, NÃO quer estudar é MODA: as matérias são lidas, assistidas, as páginas visitadas, os jornais vendidos e todo mundo ganha DINHEIRO BANALIZANDO, geralmente, a ESCOLA PÚBLICA já tão FRAQUINHA.
      QUE VERGONHA!!!!!

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    • pedro miguel | 24/02/2011 01:54

      excelente comentário. venho batendo nesta tecla já há algum tempo... nossas escolas tem muita variedade de temas, mas pouco aprofundamento e quase nenhuma fixação. dois anos depois de entrar na faculdade de humanas, pergunte a qualquer um para resolver uma regra de três e você vai ter um resultado pífio.

      a verdade é que o brasil tentou compensar a falta de qualidade e a falta de profissionais qualificados com excesso de conteúdo. países como eua e o reino unido tem poucas matérias obrigatórias, e um aluno nesses países termina o ensino médio aprendendo coisas que, para os brasileiros seria matéria de oitava série. no reino unido eles nem tem gramática ! todo o ensino é focado em redação e literatura (que inclui leitura das peças de teatro clássicas). em compensação o aluno tem uma gama enorme de matérias optativas para escolher e compor um curriculo mais adequado à faculdade de interesse (SE quiser fazer um curso superior).

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    • Wanderley | 24/02/2011 00:25

      Infelizmente...a Educação dos Professores hoje é para atender os Políticos e Empresários da área...como o do link acima patrocinado Colégio Winnicott
      Especializado em alunos com dificuldades na aprendizagem. E para que a população não tenha condições de lutar ou seja votar.......Antigamente tínhamos matérias excelentes como OSPB, EMC, que acho que muitos dos professores hoje nem sabem o que significa...a tendencia é o jovem ser alienados á droga, e drogas e ser protegidos por estes políticos que tem interesse em lucrar com a incompetência de professores, educadores, diretores de escola e acima de tudo adolescentes passiveis de tudo que é lixo cultural que lhes oferecem...

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    • Marcelo | 23/02/2011 23:52

      Com o perdão do espírito de porco, mas quando um educador escreve "preparar ele" é porque a vaca já foi pro brejo há muito tempo. O que falta é justamente capricho, atenção ao detalhe. Existe uma cultura de tentar fazer só o mínimo do mínimo necessário - na educação, no mercado de trabalho, na política, nas relações sociais. E essa cultura existe porque aqui não há incentivo pro indivíduo se superar. Em outros países, se você resolve trabalhar mais, a sociedade deixa grande parte dessa riqueza extra, que você produziu, no seu bolso. Aqui, se você resolve produzir mais riqueza do que o habitual, o estado imediatamente vai tentar roubá-la de você. O recado é claro: "seja medíocre, porque se você entrar numas de ser acima da média, nós vamos roubar toda a riqueza que o seu esforço superior produzir". Ora, uma cultura que tem como um dos principais pilares o princípio de desincentivar, o mais possível, a auto-superação e o auto-desenvolvimento do indivíduo não tem mesmo como produzir um sistema educacional decente. No Brasil, em decorrência da cultura brasileira, as fantasias comunistóides dos Paulos Freires da vida viraram evangelho. Aí não tem solução.

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    • Anonimojb | 23/02/2011 19:43

      ZERO

      Leia um pouquinho para saber com se começa uma grande desgraça, aprovado pelo MEC e note que a Unesp entra na formação dos autores.



      Zero,
      pra que te quero?
      É...
      sem você não consigo
      mostrar pro meu filho
      elefantes que fingo
      trazer escondidos
      bem dentro das mãos.

      É isso, zero,
      sem você não consigo
      nem contar pro amigo
      palitos que estão
      aqui aperados
      na palma da mão.

      Texto extraído de Matemática ao Vivo - Para uma Aprendizagem Construtivista, Ed. Scipione, 2000, 7ª edição(9ª impressão),
      Código PNLD: 12020-0, Pág. 40.
      Luiz Márcio Imenes, Eng.Civil/EP-ESP,
      Licenc. em Matemática/ FFCLM e Mestre em Educ. Mat./Unesp.
      José Jakubovic}, Licenc. em Mat./FFCLM.
      bf Marcelo Lelis, Bac. em Matemática/Ime-USP

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