Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Como valorizar o professor

Para melhorar o ensino, é necessário que docentes tenham curiosidade intelectual e tenham as condições adequadas para exercê-la

07/02/2011 11:04

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Volta às aulas e o governo federal começa o ano com um Plano Nacional de Educação (PNE) que tem como eixo central a valorização do professor. Em vários Estados e municípios aparecem propostas de reformulação de planos de cargos e salários dos docentes. Em alguns lugares ganham força as propostas de condicionar benefícios financeiros a metas e/ou resultados. Mesmo concordando que algumas dessas propostas são extremamente polêmicas e pouco contribuem para a melhoria da qualidade da educação no Brasil fica evidente que elas mostram que o papel do professor ganha mais espaço na agenda de debates da sociedade brasileira.

Nossos professores realmente são mal remunerados. Ganham, em média, 60% a menos que outros profissionais com o mesmo nível de escolaridade. Muitos administradores púbicos ainda tratam o professorado como uma espécie de "vocação missionária", quase religiosa, que exige sacrifícios. Os mais velhos talvez lembrem da frase "professor não é mal pago, é mal casado". Já foi atribuída a vários políticos, apesar de todos a repelirem, mas é a representação desta forma de tratar o professor.

Várias pesquisas indicam que a atuação do docente é, depois das condições sócio econômicas do aluno, o principal fator que influencia o rendimento escolar. Certamente aumentar a remuneração é uma das condições para melhorarmos a qualidade da educação. Mas não é a única.

Algumas escolas particulares, apontadas como provedoras de uma educação de melhor qualidade, têm em seu grupo de professores o grande diferencencial em relação às escolas públicas e às demais particulares. E o que teriam de diferente esses professores? Ensinam melhor por ganharem melhor? Frequentaram as melhores universidades? Contam com formação continuada? Conhecem os melhores livros? Possuem as melhores práticas pedagógicas? Tudo isso e mais algumas coisas podem ser verdade, mas certamente não são a causa da diferença. A qualidade é atingida em consequência da vivência cultural de cada professor, da forma que pensam a educação e das oportunidades que encontram durante a vida, tanto pessoal como profissional.

Se as condições sócio-econômicas influenciam o rendimento escolar do aluno, podemos supor que essas condições também influenciam a qualidade de aula do professor. E não falo só das condições financeiras dos docentes. São vários os fatores que compõem esse quadro.

Um professor que vive cercado de livros, jornais e revistas, além de frequentar bons sites de internet, certamente tem mais possibilidades de construir estratégias pedagógicas do que aqueles que vivem longe dessa realidade. Dedicar tempo a conhecer outras culturas, como visitar museus, fazer viagens, analisar pesquisas, conversar fora de sua rede de amigos, entre outras coisas, dá a um professor uma melhor compreensão da diversidade do mundo.

Ter contato com várias estratégias pedagógicas e estar aberto para compreendê-las faz diferença. A educação bancária, na qual o professor deposita conhecimento na cabeça do aluno, apesar de ainda ser a mais utilizada no Brasil, traz pouquíssimos resultados na construção da autonomia e no desenvolvimento das capacidades cognitivas do estudante. Ter tempo para tudo isso e para outras coisas importantes, como planejar aula, é fundamental. O professor que fica o dia todo dando aulas tem poucas chances de se atualizar.

Dominar as novas tecnologias de comunicação aumenta as possibilidades de intervenção pedagógica. É claro que, para a maior parte dessas coisas, o professor precisa ser melhor remunerado, para que incremente sua possibilidade de acesso. Mas somente o aumento de salários, o pagamento de prêmios por produtividade ou o cumprimento de metas não basta para que o professor dê uma aula de melhor qualidade.

Garantir que o aumento do rendimento dos professores tenha os resultados esperados na melhoria da qualidade de ensino passa pelos governos repensarem a concepção do que é a tão falada formação continuada. Este é o desafio do ano que começa. Governos, sociedade civil organizada e pais precisam repensar e construir uma nova concepção de formação para os professores.

Na sociedade da informação, não tem sentido nenhum que a educação seja conteudista. Esta educação, enciclopédica, é coisa do iluminismo. Lembrem que alguns pensadores se uniram para reunir todo conhecimento disponível em uma coleção de livros. Nasciam as enciclopédias. Durante muito tempo, pais acreditavam que ter uma destas enciclopédias em casa era garantia para que seus filhos tivessem uma ótima educação. E as salas das famílias de classe média exibiam orgulhosamente essas coleções, muitas encadernadas em couro e com letras, na capa, em fio de ouro. Difícil mesmo era alguém utilizar esses livros para outro fim que não o decorativo.

Hoje os conteúdos são infinitos e o conhecimento se desenvolve em uma velocidade que não poderíamos imaginar há 30 anos. Sempre me lembro do texto "Confesso que Estou Vivo", do sociólogo Betinho. Nele, são contadas as transformações na ciência e na forma de a sociedade conviver com os temas relacionados à AIDS desde que ele contraiu o vírus até o momento que escreve. É notório como, em cerca de 10 anos, tudo o que se sabia sobre a AIDS mudou, e muito. Consequentemente, uma escola que se dedicava só ao conteúdo teve muitas dificuldades para acompanhar essas e milhares de outras mudanças no mundo.

Por conta disso, da nova realidade derivada da sociedade da informação e dos constantes avanços tecnológicos, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) considera que um dos pilares para a educação em nosso século é fazer com que o aluno "aprenda a conhecer". Aprender a conhecer é muito mais importante do que acumular conteúdos. Quem aprende a conhecer domina os conteúdos mínimos para poder aprender qualquer conteúdo que seja necessário em sua vida e, mais importante ainda, tem vontade de aprender coisas novas durante toda a vida. Tem sede de conhecimento.

Para fazer com que o aluno "aprenda a conhecer" é necessário que também o professor o aprenda. Nossa tradição de educação é conteudista e a maioria das aulas de nossos cursos de licenciatura concentram-se em que os educadores acumulem conteúdo. As formações realizadas pelos governos, e também pelas escolas particulares, são, em sua maioria, uma extensão dos cursos de licenciatura. Professores que se reúnem uma ou mais vezes por mês para aprender mais conteúdos pouco podem melhorar suas práticas em sala de aula.

É neste sentido que a formação continuada deve ser repensada. Professores precisam "aprender a conhecer". Em todo professor é necessário que se incentive, ou que se recupere, a curiosidade intelectual. Com curiosidade intelectual, é necessário que o professor possa exercê-la. Para exercer essa curiosidade, são necessários estrutura, condições econômicas e tempo. Um professor que ganha pouco, em uma cidade sem biblioteca e acesso a internet e que dá aulas o dia todo, mesmo que adquira essa curiosidade, terá poucas chances de exercê-la. É do exercício desta curiosidade intelectual e dos processos cognitivos relacionados a ela que teremos a melhoria da qualidade do que é feito dentro das escolas brasileiras.

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    14 Comentários |

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    • Ricardo Faria | 11/05/2011 19:39

      Um corpo com hemorragia exige, antes de qualquer outro procedimento médico,que se estanque a hemorragia.A hemorragia da educação é o humilhante salário que é pago ao professor e aos demais profissionais da educação.Os pressupostos abordados pelo artigo são válidos mas, como destaquei,é indispensável primeiro estancar a hemorragia que está matando os docentes.

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    • MARIA REGINA POLONI FRACCA | 21/02/2011 08:46

      nós prefessores do Estado de São Paulo, fomos divididos por categorias, a "F" por exemplo, é obrigada a pegar no minimo 10 aulas, ou é atribuido compulsoriamente, onde, como,quando, ou se perde tudo, tenho dez anos de magisterio, e vou perder as aulas por compatibilidade de horario, professor trabalha, manhã, tarde, noite, só quer o direito de ir e vir, depois falam que falta professor.

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    • Juliana | 13/02/2011 11:01

      Muito bom o artigo, mas vejo-o como romântico demais. O ser humano deve inicialmente suprir suas necessidades básicas para aguçar áreas do cérebro que só serão estimuladas com uma boa alimentação e com a auto-estima em dia. É irrefutável a constatação que os professores, quer da rede pública, quanto da rede particular, estão mal remunerados e nada agregam à qualidade de vida de suas famílias. A pergunta que ouço constantemente em meu ambiente de trabalho em uma excelente escola da capital onde vivo é: Para que me especializar se não consigo dar uma vida digna aos meus filhos? Vamos nos ajudar e principalmente os profissionais particulares da pedagogia precisam normatizar as inúmeras demandas que nos tornam além de mal remunerados, escravizados por empregadores inescrupulosos e famílias desrespeitosas. Passem lá no Blog da Educadora e entrem na discussão sobre plano de carreira e piso salarial para a rede particular de ensino. É só acessar http://umaeducadora.blogspot.com

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    • José Sebastião Tito | 12/02/2011 23:59

      Na casa onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. O professor precisa de pão, pão financeiro, precisa ganhar o salário que realmente merece, dd a sua relevância histórica na na formação. Não adianta discursos nem ações enqto não houver salário digno no bolso do professor, somente depois disso é que se poderá atuar na melhoria das condições de trabalho e qualidade na educação no Brasil. São Paulo, estado e cidade, são uma vergonha no salário que pagam ao professor, sendo o estado eo município mais ricos do país. Chega de conversa, 10 mil no bolso do professor, por mês, já descontados o imposto de renda e a previdência. Salário digno já.

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    • Maria G. M. | 12/02/2011 19:13

      Reconheço verdade no texto acima.
      Como professora e apaixonada pelo que faço, optei por trabalhar apenas em uma escola, piorar minha condição financeira em prol de qualidade de vida e possibilidade de aprimorar meus conhecimentos, além de manter-me informada e atualizada.
      Pude fazer essa opção também pelo fato de receber por 20 aulas o correspondente ao salário mínimo do estado de São Paulo, pouco mais de R$ 600,00.
      No entanto, há colegas que necessitam trabalhar em diversos lugares e privilegiam a sobrevivência em detrimento da capacitação ( mesmo quando essa é oferecida de graça), da informação, da vivência cultural, como citou abaixo o Emerson.
      Tornamo-nos meros reprodutores conteudistas em vez de possibilitar a evolução do pensamento.
      Talvez esteja aí a causa de nos manterem nessa situação: não desejam uma educação de qualidade, não querem ver a população preparada para pensar e construir conhecimento.
      A propósito, o desrespeito por parte dos alunos nada mais é do que o reflexo do desrespeito com que os dirigentes políticos e os próprios gestores escolares nos tratam. Distantes da
      sala de aula, teorizam, pagam mal e cobram resultados,não importando por que caminho for ou com que qualidade.
      Somos as babás mais baratas do país.

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      Bonfim | 20/02/2011 14:27

      Se desses aula um dia numa escola da periferia... convivendo com o medo e a insegurança, mudaria tua forma de pensar. Se pra você está ótimo, parabéns. Para 99% dos professores não está.

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      Bonfim | 20/02/2011 14:21

      Parabens pelo comentário.

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    • Evatânia | 11/02/2011 18:24

      Acredito neste tema e é sempre bom lembra-lo. Mas quero colocar meu ponto de vista, volorização do professor passa pela auto valorização. Eu sei o quero. Onde vou trabalhar. Como vou trabalhar meus conhecimentos diante de um público que queria me ouvir. Sinto que estes tópicos deveriam ser trabalhados logo nos primeiros dias de aula de qualquer faculdade. Fortalecer os objetivos individuais e assim formar profissionais com cosnciência de seu trabalho.
      Isso não é receita de sucesso, mas inibe as reclamações.
      Não sou alienada, acredito apenas em esforço individual e capacidade de reconhecer onde está a minha melhor oportunidade. Eu também tenho que pagar as contas todo mês e acredito que meu público valoriza minhas formações, por isso, posso escolher quem quer ouvir o que tenho a dizer, quando estou em aula ou em uma palestra. Não digo que seja fácil chegar a este lugar, mas é através da consciência de valor que trago e passo aos meus alunos que posso caminhar. Que fique claro, não sou a melhor em ganhos salariais, mas tenho tudo que preciso... Mas quanto a valorização da categoria profissional... Será melhor quando alguém não precisar se medir por aquilo que tem e sim por aquilo que se é.
      Só para encerrar, tudo que Matheus Prado colocou está enserido em meus valores desde o início.

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    • EUNICE FRANKE SCHREINERT | 09/02/2011 19:46

      Que professor ,que pensador prático e realista sobre a importancia da valorização do professor!!!culpam diversos fatores sobre nosso ensino a família,a disciplina. os jovens sem perspectivas profissionais, quando na verdade,a própria filosofia formadora dos profissionais está equivocada!! Não poderá ser mais conteudista e sim,informativa que desenvolva a curiosidade intelectual a decoreba sem a crítica é um ensino medíocre assim como exigir um tratamento inter pessoal muito formal e distante.entre aluno e professor.. PARABÉNS PROFESSOR TARSO!!!A ESPERANÇA AINDA ME CONFORTA.....

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    • Lucineide dos Reis | 09/02/2011 19:02

      Olá como estudante de letras e futura docente,vejo a claramente a desvalorização na area da educação.Até na faculdade onde é um dos cursos menos procurados.Pra farmácia que tem 105 alunos.Minha sala tem apenas 37.

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