Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Adolescentes procuram ensino médio apenas por diploma

Enquanto escola abrir mão de educar, em vez de só ensinar conteúdos para o vestibular, alunos continuarão sem interesse por aulas

22/02/2011 07:00

  • Mudar o tamanho da letra:
  • A+
  • A-
Compartilhar:

Nos últimos 50 anos, muita coisa mudou no mundo. Temos a TV, o telefone, os carros, a internet, as redes sociais e uma infinidade de novas tecnologias. Apesar de tantas transformações, a sala de aula continua sendo muito parecida com o que era no começo do século anterior. Mesmo escolas que adotam novas tecnologias, como as lousas digitais, as utilizam para o mesmo método, em que o tradicional professor fala e aluno ouve (ou fica bagunçando à sua frente).

É a famosa e perversa educação bancária, na qual o professor tenta depositar conhecimento na cabeça do aluno. Aliás, nem educação é. Educar é capacitar para o convívio em sociedade, para o seu desenvolvimento de forma a incluir e ser incluído, para o respeito às diversidades e para a valorização das diversas capacidades e talentos.

O que a escola faz hoje é cuidar, e na maioria das vezes mal, do ensino que é tido pela simples transmissão de conhecimento. Muitos dos nossos líderes políticos têm muito ensino (conhecimento) e pouca educação (valores que se sobrepõem às necessidades fisiológicas). Só isso explica tanto desrespeito com aquilo que é público.

Aos saudosos, eu convidaria a uma visita à uma sala de aula. Não tem nenhum outro lugar que se sentiriam mais à vontade. A única diferença de 50 anos atrás é que o ensino se universalizou, pelo menos no oferecimento, e por isso, naturalmente, sua qualidade piorou.

Essa falta de sensibilidade para entender que o mundo mudou e que a escola precisa abandonar o ensino, em favor da educação, é o que faz com que o ensino médio seja extremamente desinteressante para o adolescente. E digo mais: se o mercado de trabalho não tivesse passado a exigir, em muitos casos, o diploma de ensino médio, nem mesmo os 50% dos ingressantes que hoje concluem esta etapa de ensino estariam nessa situação.

A verdade é que muitos alunos, principalmente de escolas públicas, frequentam as salas para adquirir o diploma e manter a rede de capital social, e não para passar pelos seus conteúdos. Esse desinteresse de quem sai e também de quem fica tem a ver, além da inutilidade do ensino médio para a vida cotidiana percebida pelo aluno, com a tradição de transformar educação em ensino desde o ensino fundamental.

Quem não foi educado para valorizar processos educativos chega ao ensino médio, quando tem mais autonomia, entendendo que os conteúdos ensinados ali não servem para nada e que tiram tempo que pode ser usado para o trabalho, para o lazer ou para o ócio.

As escolas que a sociedade entende como boas, na verdade, vivem em função do dia do vestibular. Ensinam o máximo possível para que os alunos acertem questões em um ou dois dias de prova de seleção. Isso é terrível.

Imaginem que estas escolas passam exatos 600 dias dedicadas a preparar o aluno para uma única finalidade. Sim, preparam para o vestibular e não para capacitar o aluno para a vida universitária, como tentam convencer. Isto devido ao fato de que o que é exigido pelo vestibular está totalmente dissociado das habilidades e competências necessárias para o sucesso no ensino superior.

Hoje, o vestibular é como aquelas licitações direcionadas, onde o governante "escolhe" quem vai vencer colocando no edital exigências que poucas empresas são capazes de cumprir. Cada questão de uma prova de vestibular faz isso. Seleciona só aqueles que passaram por aquele conteúdo, o que está longe de conseguir medir quem são os melhores talentos para entrar na universidade.

Como a sociedade reconhece essas escolas como boas, as outras, inclusive as públicas, tentam seguir o modelo. Até as piores colocadas nas avaliações de ensino médio se esforçam para ensinar algum conteúdo desimportante para o aluno, mas cobrado no vestibular, de física, química ou biologia e outras matérias.

Acontece que os alunos possuem talentos e interesses diferentes. Com a velocidade do mundo da informação isso fica mais latente. Como querer que o aluno ache normal ficar sentado pelo menos cinco horas por dia ouvindo alguns donos da verdade? Como querer que o aluno concorde em decorar os afluentes da margem direita e esquerda do Rio São Francisco para obter melhor consciência ambiental?

Como querer que fique quieto em sala um aluno que vive sob os estímulos de alta velocidade da TV, das grandes cidades, da internet, das baladas ou do mundo do trabalho ? Como querer que alunos com altas capacidades em desenho, em artes, em oratória, em inteligência emocional ou espacial, entre outras, tenham que se resignar e aceitar o currículo escolar em detrimento do desenvolvimento pessoal naquilo que gosta?

Com essa escola, que faz a opção de ensinar em detrimento de educar, essas e outras coisas não são possíveis. E, mais uma perversidade, a maioria dos que passam por ela e se formam acrescentam pouca coisa a mais que um diploma em suas vidas.

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

» Mais textos deste articulista

    Notícias Relacionadas


    4 Comentários |

    Comente
    • Alexandre de Almeida Cabral | 22/02/2011 20:45

      O ato de educar é formar, mais do que informar, indivíduos pensadores e críticos da sua própria existência e de seu mundo circundante. Esse é o pressuposto fundamental que todos os educadores e professores tem que ter para a formação dos estudantes. Porém, a existência do vestibular limita, e muito, as ações dos professores nas salas de aula, pois o vestibular direciona, pré-determina, impõe conteúdos goela abaixo nos professores e estudantes, e assim, uniformiza e universaliza a mediocridade, forçada, dos professores e, conseqüentemente, dos estudantes. Com isso, as estruturas de poder vigentes se perpetuam "ad infinitum". Muitos entram em universidades semi-analfabetos ou analfabetos funcionais, até mesmo em universidades públicas boas, pois o vestibular nada avalia dos ingressantes, pois tudo é baseado na "decoreba". Limitando, assim, as potencialidades de cada estudante, porque a dita formação do jovem se resumiu em informação. Ou seja, o jovem não teve a formação adequada de, por exemplo, estruturar de pensamentos, concatenar idéias e entende-las, de questionar aquilo que é passado como verdade absoluta nas mídias em geral, nas próprias salas de aula, já que o professor é normalmente um ser monolítico, que acha que está educando o aluno depositando conhecimentos em suas mentes goela abaixo, etc. Enfim, para resumir, a informação não é formação, ela são apenas palavras sem nexo com a verdadeira realidade. Por isso, é que essa cultura maldita jornalística, que trata dos fatos como informação que nada forma e sim deforma, mantém a vigência do poder de dominação sobre o povo. E, assim, a educação brasileira permanece um lixo.

      Responder comentário | Denunciar comentário
    • Cristiano Moura Gonzaga | 22/02/2011 13:49

      Olá,
      Antes quero parabenizá-lo pelo excelente texto. Mas, não obstante seja um texto muito esclarecedor,o Instituo Henfil no qual o senhor é o presidente nacional, não é aquele mesmo que estampa propagandas em ônibus, etc. do tipo " Cursinho Henfil: aulas inesquecíveis ,professores show". Este tipo de tratamento dispensado à Educação não é o mesmo que o senhor tanto critica e lamenta? Será que o que falta mesmo na Educação não é um discurso afinado com a prática?
      Quando vejo este tipo de propaganda fico envergonhado duplamente. Como professor e como cidadão.
      É no mínimo contraditório, para não dizer cinismo, alguém criticar, com razão, o atual quadro lamentável em que se encontra a Educação em geral e o Ensino Médio em particular e presidir um instituto que lança mão do que é mais nefasto em termos de formação digna. Aliás, que tipo de educação um adolescente vai buscar com "profeesores show"???
      Como dizia Sérgio Buarque de Hollanda, o problema dos homens públicos brasileiros é que são de muita retórica e nenhuma ação.

      Responder comentário | Denunciar comentário
      Josefina Karen M Carreta | 22/02/2011 20:55

      Não podia ser mais feliz o seu comentário!
      Nós professores nos desdobramos em sala, para transformar nossos alunos em cidadão conscientes, na prática, de verdade, não só no discurso.
      Tenho e tive muitos alunos bem sucedidos e todos de escolas públicas! Eu e meus colegas temos noção que quem "educa" é a família e nós professores damos a formação.

      Denunciar comentário
    • José Candido Primo | 22/02/2011 09:23

      Estou gostando muito destas entrevistas, destes textos que sairam no dia 21 e22/02. Sou Professor, mas estou fora da sala de aula até por não suportar certas falhas que as Escola públicas vem cometendo e que os colegas de profissão não sentem responsável ou ator das necessidades que temos de oferecer aos nossos adolecente e jovens que precisa e muito encontrar dentro da sala de aula.
      Au ler estas reportagem, estou centindo mais encorajado de procurar a pequena e umilde Escola que temos neste Distrito de Colniza-MT, (Guariba), a princípio, faser um comentário desta matéria que o IG está proporcionando aos leitores e depois quem sabe propor algumas inovações para os estudantes do ensino médio.
      Apesar de que persebo nossos Professores muito, muito acomodados, despreparados não gostam de ler bons livros, trocar opiniões com outros proficionais. Como ouvio de um ótimo Professor que tive no Magistério "nasceram cansados". Quem sabe, podemos estar tentando algo novo e que venha de encontro com as necessidades deste novo país que tanto almejamos e não estamos oferecendo nada ou quase nada para os avanços que precisamos.
      Estamos localizados ao Noroeste de Estado de Mato Grosso, um Município onde IDH é baxíscimo. Gostaria de receber mais textos, reportagens de proficionais mais preparados assim mi preparar melhor.

      Responder comentário | Denunciar comentário

    Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!




    *Campos obrigatórios

    "Seu comentário passará por moderação antes de ser publicado"


    Previsão do Tempo

    CLIMATEMPO

    Previsão Completa

    • Hoje
    • Amanhã

    Trânsito Agora

    INDICADORES ECONÔMICOS

    Câmbio

    moeda compra venda var. %

    Bolsa de Valores

    indice data ultimo var. %
    • Fonte: Thomson Reuters
    Ver de novo