Os vestibulares gratuitos apresentam altíssima taxas de abstenção; Cerca de 30% dos candidatos inscritos no Enem não fazem a prova

A análise dos dados de abstenções - falta do candidato inscrito - nos vestibulares e no Enem, mostra claramente que onde é facilitado o acesso o número de faltosos aumenta. Os vestibulares gratuitos apresentam altíssima taxas de abstenção.

O Enem é uma das provas que apresenta grandes taxas de abstenção. Sempre, desde a sua criação, esteve em torno de 30% dos inscritos. Se compararmos com a Fuvest, o maior vestibular do país, em alguns anos a taxa é seis vezes maior.

É fácil entender os motivos. Parte das inscrições é feita pelas escolas de Ensino Médio. Elas listam os alunos interessados e encaminham a inscrição. Quem quer se inscrever por conta própria entra na internet e faz tudo o que é preciso. Quem não deseja pagar pela prova declara que não possui recursos para tal e a inscrição é efetivada.

Outra coisa, específica do Enem, é que a maioria de seus inscritos não está em idade escolar. A grande explosão do número de inscritos no Enem aconteceu no segundo ano do Prouni, e não quando o exame começou a selecionar para as Universidades Federais.

Em 2006, por causa do Prounu, o Enem passou de 1,5 milhões de inscritos para 3 milhões. Hoje, tem em torno de 4 milhões de inscrições. Mesmo que a grande imprensa só tenha aumentado a cobertura do ENEM depois que ele começou a selecionar para nossas Federais, a maioria de seus participantes estão de olho em uma vaga no Prouni- o Prouni distribui mais vagas que o SISU. Este público, em boa parte mais velho, não vive o dia a dia das escolas e dos cursinhos pré-vestibulares. É natural que ele se desinteresse, em maior proporcionalidade, pelo exame, mesmo depois de inscrito.

A situação que está colocada é a seguinte: O que diminui a abstenção, e consequentemente economiza dinheiro público, é retroceder e deixar de democratizar o acesso aos vestibulares e ao Enem.

Vejamos o caso da UFRJ. A Universidade, que ainda faz vestibular para parte de suas vagas, tem a inscrição totalmente gratuita. Neste ano, no primeiro dia de prova, a abstenção da UFRJ foi de mais de 36%. No segundo dia de prova, que acontece só uma semana depois, dando muito tempo para os candidatos pensarem sobre o seu desempenho, mesmo sem saber concretamente como foram seus concorrentes, os faltantes aumentam para mais de 43%. Mais de 10% de quem fez a primeira prova desistiu da segunda.

Em vestibulares como Unicamp, Unesp e Fuvest, as taxas de abstenção são bem maiores entre os candidatos que recebem isenção da taxa de inscrição. Talvez isto ajude a explicar o motivo pelo qual, este ano, a Fuvest tenha aumentado sua abstenção, apesar de ter menos candidatos e menor relação candidato/vaga que nos anos anteriores.

A USP encontrou dificuldades para distribuir suas isenções para alunos de escolas públicas, ampliou os prazos para sua distribuição e apelou para a imprensa, na última hora, para ter mais candidatos com isenção. Melhor seria que a USP tivesse um programa que atuasse em todo os anos do Ensino Médio. Do jeito que faz, boa parte dos candidatos faz a inscrição à isenção por apelo emocional.

O caso é que as abstenções causam prejuízos milionários aos cofres públicos, mas acabar com estes prejuízos passa por uma solução perversa, que é dificultar as formas de inscrição.

Olhemos para o Enem. Mais de 1,3 milhões de faltosos. Um candidato ao Enem custa quase R$ 40,00. Sem estas faltas, a prova custaria ao menos 50 milhões a menos.

Algumas ações poderiam ser tomadas para diminuir as faltas, como, por exemplo, o candidato ter que confirmar o interesse pelo exame algumas semanas antes da prova. Não me atrevo a fazer a proposta de que candidato confirme interesse pela prova por que, do jeito que o ENEM tem mostrado a capacidade de criar problemas, é melhor não mexer com isto. A tentativa de economizar poderia sair muito mais caro.

Se olharmos de outro ponto de vista a democratização do acesso à prova, podemos ver os benefícios que isto traz. No Enem, mais de 70% dos candidatos fez a prova. Na UFRJ, totalmente gratuita, quase 60% dos candidatos foram nos dois dias de prova. Com certeza, se começarmos a cobrar de todos os candidatos, perderemos muito mais, excluindo os de menor renda, do que ganharemos.

Melhorando a forma de se inscrever para o Enem

Aproveito o tema para discutir as mudanças que o Enem fez, nos últimos anos, em seu sistema de inscrição. Antes o candidato ia em uma agência do Correio e entregava sua ficha de inscrição. Agora ela é feita exclusivamente na Internet.

A inscrição pela Internet, ao mesmo tempo, facilitou e dificultou as inscrições. Para quem tem acesso à Internet e consegue navegar na rede com desenvoltura, o acesso ficou mais fácil. Na verdade, até ajuda aqueles que nem sabem direito se vão fazer a prova.

Para alguns, por mais contraditório que seja, a Internet dificultou a inscrição. Há muito tenho defendido que o simples acesso à Internet não deixa a pessoa fora da condição de Analfabeto Digital. São vários os casos de pessoas que foram se inscrever para o Enem e não encontraram, no sistema, o lugar onde eles deveriam declarar que não tinham condições de pagar a taxa. Estes candidatos, ou deixaram de se inscrever para a prova, ou gastaram um dinheiro que fez falta no orçamento familiar.

Outra coisa é que estamos longe de o acesso à Internet ser universal. No Brasil, temos cerca de 20 milhões de pontos fixos de Internet. Apesar de ser uma das maiores redes do mundo, ainda não chega a todos os 190 milhões de habitantes do país.

Seria melhor, e mais democrático, que pudéssemos associar as duas formas de inscrição: pela Internet e pelos Correios. Quem quiser, faz sua inscrição pela Internet. Aos demais, é só entregar sua ficha de inscrição em uma das agências do Correio. São muitas e bem distribuídas as agências, o que não obriga os mais pobres a correr para um lugar com acesso à Internet e fica muito mais fácil de alguém colocar um X no lugar onde diz que o candidato não poderá pagar pelo exame.

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