Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

A redação do Enem e suas exigências

Método de correção é injusto e sem critérios claros. Para fazer a dissertação, é preciso defender argumentos que demonstrem ética

08/10/2010 13:36

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O novo Enem promete que a nota final chega o mais perto possível das verdadeiras competências e habilidades do aluno. Se acreditarmos que o exame tem método “anti-chute”, com questões de dificuldades distintas e todo tipo de avanço da pedagogia e da psicologia aplicados para descobrir quem deu um “jeitinho” de acertar os itens sem utilizar suas aptidões, deveríamos perguntar por que a redação não segue a mesma lógica.

A prova representa um quinto da nota, mas como as universidades definem o peso de cada etapa em suas seleções, ainda pode valer muito mais. Mesmo assim, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) insiste no velho método de entregar a redação para dois corretores, com a possibilidade de um terceiro realizar o desempate quando a nota apontada por eles for muito distante.

Esse sistema é extremamente injusto. Imagine a prática acontecendo com as cerca de quatro milhões de provas realizadas em todo o Brasil. Sem critérios mais objetivos e claros, fica impossível que todos tenham o texto avaliado com o mesmo padrão de exigência. Um corretor que tem experiência anterior em um vestibular como o da Fuvest certamente olhará a redação com mais rigor que um que só corrige redações para o Enem.

Um caminho mais coerente a seguir seria o de tornar a redação uma espécie de prova eliminatória. Funcionaria mais ou menos assim: uma série de itens seriam propostos, como “defender ponto de vista”, “construir argumentação lógica”, “dar coesão ao texto”, “usar razoavelmente a língua culta”, entre outros. O Enem poderia, então, eliminar a possibilidade de conceder uma vaga no ensino superior para quem não cumprisse os itens.

Outra solução, melhor ainda, seria dar um valor único para todos os alunos que cumprissem cada item, deixando a nota da redação mais justa e não prejudicando milhões de candidatos. Assim, os corretores deixariam de dar uma nota pra cada aluno, mas teriam somente que indicar, em quadrinhos, se o aluno cumpriu cada item, e o trabalho de dar a nota ficaria para os computadores leitores dos itens assinalados. Quem atendesse às exigências propostas teria nota máxima na redação.

Ética é exigência

Mesmo com o problema de atribuição de notas, a redação do Enem tem seus avanços em relação à dos vestibulares convencionais. Bastam duas coisas para o candidato não zerar na “redação”. Primeiro, o texto precisa ter ao menos oito linhas (30 é o máximo), além de conter uma proposta de intervenção na sociedade que seja ética.

Se um vestibular convencional exige que você demonstre na redação a sua capacidade argumentativa, o Enem quer que esta capacidade esteja direcionada para uma proposta que demonstre uma postura ética.

Por exemplo, em uma redação sobre aquecimento global de um vestibular convencional você pode até encontrar argumentos e defender, como fazem alguns cientistas, que o fenômeno não existe. O Enem claramente acredita no aquecimento global e não iria tolerar uma redação que dissesse o contrário.

Dissertação é modelo

Não é difícil indicar sobre quais assuntos versarão o tema, sempre relacionado a uma das competências pedidas na prova objetiva. Então, questões como “o que estamos fazendo com a terra”, cultura, identidade, cidadania e democracia (algumas das competências da área de humanas), ou biodiversidade, ética em pesquisa, saúde pública, conservação ambiental e ciclo da água (algumas das competências da área de natureza) certamente estarão nas redações do Enem deste e dos próximos anos.

O modelo exigido é a dissertação, na qual o candidato precisa desenvolver um raciocínio, apresentando argumentos de forma ordenada para fundamentar sua posição. Na prova, alguns textos “indutores” são apresentados, para facilitar a busca por argumentos e para que os candidatos entendam melhor a proposta.

Existem várias formas de fazer uma dissertação com sucesso, mas há uma que não falha: cinco parágrafos, com cerca de quatro ou cinco linhas em cada um deles é a fórmula perfeita. Três argumentos para chegar à sua conclusão é o razoável, e uma dica importante é escolhe-los e decidir como desenvolvê-los antes de começar a escrever. A partir deles, você fará uma introdução em que dirá a sua opinião sobre o tema e quais argumentos irá utilizar durante o texto. Em cada um dos próximos três parágrafos você desenvolverá um dos argumentos, de forma clara, podendo utilizar informações do texto ou aquelas que você tem como bagagem cultural. No quinto e último parágrafo, é hora de fechar a redação, recuperando os três argumentos e chegando à conclusão que planejou.

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Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    21 Comentários |

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    • Leonora | 06/06/2011 17:45

      Não sabia que o aluno era obrigado a ser "ético" no Enem. Ética é uma coisa extremamente subjetiva. Dizer que o aquecimento global "não existe", ou não é causado pelo homem, não é anti-ético, desde que se fundamente em fatos científicos. Aborto é ético para alguns, e para outros é uma completa ofensa a vida. Estão tratando o estudante como um ser desprovido de um senso crítico, ou melhor, estão esmagando este senso crítico em detrimento das próprias concepções do órgão a respeito do certo e do errado. Não deveríamos ter que fazer redações hipócritas só para tirarmos uma boa nota; deveríamos sim desenvolver argumentos com os quais concordamos, apresentar o nosso ponto de vista logicamente, dizer o que realmente pensamos. É isso que nós fara no futuro bons cidadãos, e não seguir cegamente o senso comum. O Enem nos aliena, pelo menos neste aspecto.

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    • Erica | 07/11/2010 01:41

      O Enem foi feito d uma forma mto inteligente e interessante, mas o problema é q tem mta coisa q os alunos nao conseguem entender. A prova disgasta mto, a pessoa dpois s sente exausta(pelo menos eu fiquei). Acho q o Enem podia ser um pouco menos puxado. Eu acho que exagerarem na dose, ficou complicada demais...

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    • Fabiano | 04/11/2010 20:21

      Sou professor, já corrigi a prova do Enem, assim como já fui corretor de outros vestibulares de universidades públicas do estado de São Paulo. Fico muito incomodado quando pessoas que não são profissionais da área de Língua Portuguesa se acham no direito de dar falar sobre correção de redação. Concordo com o fato de que a correção do ENEM não tem a qualidade que deveria ter, mas fico abismado quando alguém fora da área se acha no direito de dar palpites sobre formas de correção. Considero espantoso alguém que se diz da área da educação querer corrigir uma redação sem avaliar a qualidade dela. Só basta ver se o aluno fez tudo? Não importa a qualidade? Caso o educador não saiba, uma redação é diferente de uma resposta de uma questão qualquer. Faça suas críticas às provas do vestibular que você quiser, mas não fale sobre aquilo que você não vivencia.

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      Anna Ribeiro | 03/01/2011 00:12

      De pleno acordo,a redação não pode ser corrigida como se da àrea das exatas fosse!
      A coerencia e a argumentação lógica deverão ter peso maior ,e que eu saiba o computador não tem competencia para tal.
      Lógico que entre outros fatores,a linguagem também terá peso importante.

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    • glaucia | 04/11/2010 17:09

      que legal vou fazer enem e nao sou tao boa na redaçao, mais valeu a dica espero tirar uma nota boa !!!!!!!!!!!

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    • cido | 04/11/2010 15:16

      estou me formando em tecnologia da informação me inscrevi no enem e vou fazer sera que conseguindo uma boa nota posso concorrer a uma bolsa de estudos pelo prouni

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    • maria lucia | 04/11/2010 12:50

      olá professor,preciso de umas dicas como mim preparar para um concurso ou vestibular se parei de estudar ha 25 anos atras, hoje despertou o desejo de mim preparar pois tenho necessidades por motivos financeiros. Mande-me dicas pelo meu e-mail.

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    • Cláudia França | 04/11/2010 12:39

      Uma questão que considero incorreta é os diferentes temas da redação, de acordo com a cor da prova. Penso que o tema deveria ser o mesmo para todos, do contrário, passa a ser questão de sorte do aluno. O tema que caiu para o meu filho foi etica e sua nota foi regular. Acredito que se ele tivesse tido a "sorte" de fazer a dissertação sobre o pré sal ou a gripe suina (que foram temas também no enem do ano passado), ele teria se saído melhor, pois fez alguns trabalhos sobre esses assuntos no ensino médio.

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    • maria | 04/11/2010 12:10

      Essas dicas são muito boas para quem já esqueceu como se faz uma boa redação.valeu

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    • Renan | 04/11/2010 10:04

      acho inadimiscível, essa quantidade de questões.......

      o ideal seria 30 num dia, e 30 no outro, pq depois da questao numero 30 a mente de todo mundo já está cansada, de tanto ficar lendo aqueles textos enormes.

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