Sugestões para melhorar a correção da redação do Enem

Por Mateus Prado |

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Prova dissertativa ainda é o principal motivo de críticas ao Exame Nacional do Ensino Médio

O esforço do MEC para melhorar a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) continua seguindo uma pauta reativa. A cada grande problema pautado pela sociedade anuncia-se uma nova solução. Claro que é bom o governo ter alguma sensibilidade para a opinião publica, mas seria bem melhor se conseguisse ser propositivo no aprimoramento do exame, impedisse erros tolos e tornasse o exame tão comum e rotineiro a ponto de permitir que a sociedade pudesse discutir melhorias mais profundas na prova e nas políticas educacionais que influencia.

Coluna anterior: Erro gramatical não é problema na redação do Enem

Pouco depois de assumir o Ministério da Educação, Aloizio Mercadante anunciou centenas de pontos que deveriam ser acompanhados para que fossem reduzidas, ou eliminadas, injustiças relacionadas à prova. Mas só tratou de um com a imprensa: a redação. Um ano depois e, mesmo sendo a prioridade do governo, a prova ainda é o principal motivo de críticas ao Enem.

O governo anunciou, de forma 'fatiada', algumas mudanças para a redação no próximo ano. Os corretores recebem uma nota pelo seu desempenho na análise e ranqueamento dos textos. Essa nota é uma relação entre as notas que os alunos recebem entre um corretor e outro. Quanto mais próxima as notas entre diferentes corretores, maior a nota do corretor.

Para facilitar o entendimento, e simplificando esse sistema, imagine que você é um corretor. Cada redação que você analisou será corrigida, também, por pelo menos mais um corretor. Se todas as correções tiverem notas próximas de seus pares corretores, sua nota será 10. Se todas tiverem notas distantes, será 0.

No último Enem o MEC retirava do sistema de correção somente aqueles que ficassem com nota menor que 5. Essa tolerância com a diferença de notas entre os corretores era muito grande, principalmente se considerarmos que o Enem tem um manual e um treinamento claro de como deve ser ranqueado cada tipo de texto. A partir de 2013, o MEC vai tirar da correção quem tiver nota menor que 7.

Também serão zeradas as redações que tiverem 'deboches'. Acabou a farra das receitas de macarrão e dos hinos de times. No último ano essas redações recebiam notas por causa da pressão do MEC para que as redações não fossem zeradas e porque o corretor que zerasse uma nota corria grande risco de ter sua própria nota rebaixada. Agora terá uma categoria exclusiva, com local para que o corretor indique, para este tipo de texto. Ninguém mais correrá risco de ter sua nota rebaixada por zerar (na verdade desclassificar ) esses textos.

E, absurdamente, quem tirar nota 1000 vai ganhar do MEC a chance de ir para uma banca com vários corretores e correr o risco ter sua nota rebaixada. A decisão fará com que corretores sintam-se inibidos de dar nota 1000 para boas redações e que alunos tenham que torcer para que sua redação receba 920,940, 960 ou 980 pontos, e não 1000, sob o risco iminente de ter sua nota diminuída por uma banca.

Já que o MEC tem anunciado aos poucos as mudanças na correção da redação, deixo aqui algumas propostas para o MEC e Inep:

- Menos redações por corretor - ganhando cerca de 2 reais pela correção de cada redação e corrigindo milhares de redações, com pouco tempo para cada uma, fica muito diferente o critério do corretor nos primeiros e nos últimos dias de trabalho. Pagar mais por redação, dar mais tempo de correção e monitorar se o corretor esta utilizando este tempo para o trabalho deixa a análise menos subjetiva. Fontes do MEC dizem que hoje os corretores tentem a dar notas maiores nos últimos dias de correção, quando estão mais cansados.

- Mais corretores por redação - hoje a redação passa por dois corretores, e só vai para um terceiro se tiver grande diferença em suas avaliações. Aumentar o número para 4 ( um número bom ), ou 5 ( um número ótimo ) corretores mínimos para toda redação diminui muito, probabilisticamente, a injustiça com bons textos.

- Diminuir os limites para a redação ir para a banca - Hoje uma redação precisa ter uma diferença entre os corretores de 120 pontos em uma competência (com nota máxima de 200) para poder ir para um terceiro corretor e depois para uma banca. É uma diferença muito grande. Uma diferença de 80 pontos em uma competência já é mais do que suficiente para saber que ela foi corrigida com padrões diferentes pelos corretores ( a nota aumenta de 40 em 40 pontos ).

- Usar a TRI para a Redação - A TRI está ai pra ser usada, principalmente onde é mais necessária. Com a tecnologia de TRI, que o MEC diz dominar bem, apesar de não abrir os dados variáveis para que a sociedade saiba como foram calculadas as notas das provas objetivas, dá pra melhorar muito a correção a nota da redação.

É muito simples. É só o MEC colocar nos malotes virtuais redações padrozinadas para as notas 200, 400, 600, 800 e 1000. Fazendo isso, e utilizando a TRI, o MEC poderia atribuir notas relacionais. O aluno não ficaria com a nota absoluta recebida pelos corretores, mas sim com notas que fossem a relação entre a nota dada pelos corretores à sua redação, às redações padrões e ao comportamento do conjunto de corretores em relação ao conjunto de redações.

- Divulgar padrões esperados das redações - alguns lugares do mundo divulgam uma espécie de 'gabarito' da redação. Trata-se de um texto, pós-prova, que indica qual era a expectativa da banca em relação à proposta de texto apresentada. Serve, também, como uma referencia para os corretores.

O Enem já divulga, desde o ano passado, um manual que tem muito claro como será corrigido o texto. Mas isso não resolve problemas de como saber o que seria uma 'proposta inovadora' ou se o aluno 'respeitou os direitos humanos'. Com a utilização de redações padrão para orientar as notas das provas e a divulgação dessas redações, a sociedade teria mais claro quais as expectativas do MEC para os textos dos alunos.

- Cumprir TAC (Termo de Ajuste de Conduta) - O TAC que o MEC assinou com o Ministério Público trazia o compromisso de que os alunos teriam acesso aos espelhos de correção da redação. O MEC não fez isso. O que ele fez foi divulgar, para cada aluno, a média da nota entre os corretores. Precisa ter coragem de divulgar os verdadeiros espelhos e expor para o debate da sociedade possíveis contradições neste modelo de correção.

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