Cotas em São Paulo, porém não muito

Por Mateus Prado |

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Projeto que reserva 50% das vagas da USP, Unicamp e Unesp propõe incluir segregando

Tem vezes que o calendário eleitoral trabalha em prol da população e da justiça social. Preocupado em não ficar atrás do governo federal, o governo do Estado de São Paulo convenceu a direção das três universidades paulistas (USP, Unicamp e Unesp) a adotar cotas. A partir de 2016, assim como nas federais, pelo menos 50% dos alunos de todos os cursos dessas três universidades deverão ser oriundos de escolas públicas.

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A iniciativa pegou muita gente de surpresa. Quem, há algum tempo, poderia imaginar que a elitista USP, do reitor Rodas, iria abrir suas portas para classes sociais diferentes, ainda mais em cursos como medicina, direito, relações Públicas, engenharia e arquitetura? A reação conservadora não se limitou às articulações internas. O diretor da Faculdade de Medicina, demonstrando preconceito e profundo desconhecimento da pesquisas pedagógicas no Brasil e no mundo (ou, quem sabe, apenas querendo manter suas vagas na elite paulista) , publicou um artigo dizendo que a adoção de cotas faria a USP perder qualidade. A verdade, demonstrada em várias pesquisas, é que alunos cotistas atingem menores taxa de evasão e saem da universidade com nota média maior do que a dos não cotistas.

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Mas a boa notícia (das cotas nas universidades paulistas) esconde uma grande armadilha. Um misto de preconceito, elitismo, desinformação e falta de relação entre as políticas de ingresso e as novas teorias pedagógicas fez com que o projeto de cotas virasse uma grande ofensa para movimentos sociais e parte da sociedade civil.

A proposta paulista de cotas propõe incluir segregando. A ideia é que os alunos de escolas públicas façam uma seleção diferenciada, e que então os aprovados façam um curso universitário online, com uma grade repleta de matérias absurdas. Somente depois de dois anos ralando na frente do computador eles poderão concorrer a uma das vagas disponibilizadas nas cotas. Alguém que, por exemplo, quiser utilizar seu direito de cota para entrar em medicina, só saberá se vai conseguir uma vaga nesse curso depois de passar pela seleção, fizer dois anos de curso e tiver suas notas no curso online comparadas com as dos demais cotistas que tiverem medicina como primeira opção.

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Isso não é cota, mas condenação, pena, e pena disfarçada de cota. Parece o limbo, aquele lugar para onde a almas puras vão para esperar para entrar no céu, mas é verdadeiro purgatório, que fará com que alunos passem por angústias e constrangimentos desnecessários e antipedagógicos para conquistar seu diploma em uma universidade pública. Cria, para os alunos cotistas, um estigma perverso, desumano e desnecessário.

A decisão da UFMG em aderir ao SISU como fase única

Há poucos dias, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que até então utilizava a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na primeira fase do vestibular, aderiu ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) como forma única de seleção. O anúncio provocou uma campanha na região de Belo Horizonte – comandada pela imprensa local, por escolas particulares e por cursinhos pré-vestibulares – pregando que a decisão da universidade fará com que haja uma invasão de paulistas e cariocas à UFMG e que os mineiros terão poucas possibilidades de aprovação no novo modelo de seleção.

Sem discutir se a preocupação é justa ou não (é bom lembrar que o estado de Minas Gerais tem 11 universidades federais, enquanto, por exemplo, o estado de São Paulo tem somente 3), até hoje não aconteceu a tal 'invasão' em nenhuma das universidades que utilizam o Sisu. A realidade mostra que somente cerca de 50% dos aprovados fazem inscrição a cada chamada e que os aprovados que moram perto da universidade estão mais dispostos a confirmar suas inscrições e frequentar os cursos de escolha.

A tentativa da UFES em manter suas vagas no Estado

Foi essa mesma preocupação que fez com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que antigamente só tinha vestibular seriado, passasse a utilizar a nota do Enem em sua seleção, mas sem colocar suas vagas no Sisu. A comunidade da universidade acreditou que fazendo com os candidatos fizessem inscrição na própria instituição faria com que aumentasse a proporção de aprovados do próprio Estado.

O erro da universidade foi não lembrar que um processo de seleção deste tipo, se não chama a atenção de todo o Brasil, como o Sisu, chama a atenção muito mais de alunos de Estados vizinhos do que de Estados distantes. Como a tendência é de que, quanto mais próximo de casa, mais provável a confirmação de matricula do aluno, o remendo saiu pior do que a encomenda.

Se as vagas fossem distribuídas pelo Sisu, mais alunos de lugares distantes seriam selecionados e, consequentemente, menor seria a proporção de inscritos de outros Estados. A universidade parece que não aprendeu a fórmula para deixar mais vagas no Estado e, no próximo Sisu, vai fazer uma experiência deixando somente alguns cursos com seleção exclusiva por esse sistema.

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