Erro gramatical não é problema na redação do Enem

Por Mateus Prado |

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Maior injustiça na correção de textos de candidatos do exame está relacionada aos milhares de bons textos que receberam notas baixas

O problema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não está associado às pessoas que tiraram nota 1000 apesar de alguns erros gramaticais, mas nas milhares de notas baixas dadas a quem fez bons textos.

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O conceito de “boa redação” não é relacionado a um ou outro erro gramatical. A boa redação precisa demonstrar entendimento do tema apresentado, apresentar uma proposta ética e inovadora de intervenção na situação problema, ter dois ou três fortes argumentos que construam a argumentação de forma evolutiva, com introdução, parágrafos de argumentos que associam esses entre si, ao problema e à solução que será apresentada e uma conclusão que deixe clara a proposta inovadora de resolução de situação problema.

Se o aluno cumprir isso e errar duas palavras e uma concordância não há problemas, ele pode ter nota 1000. É claro que é importante que a imprensa mostre quais redações tiraram nota 1000 e qual a qualidade delas, mas, da forma que está sendo feito, reforça o entendimento equivocado de que quem é ‘bem educado’ e pode ocupar uma vaga nas universidades públicas é quem, entre outras coisas, tem necessariamente o domínio aprofundado das normas cultas da língua portuguesa. O que esperamos de um aluno no ensino superior é que ele tenha domínio da língua portuguesa. Dois erros de grafia, em uma prova em que o tempo total não é suficiente para resolver as questões e fazer a redação, não constituem, de jeito nenhum, um problema grave e que deva ser punido.

Focar o debate nos erros de grafia e de concordância é simplificar um debate sobre aquele que é o maior problema do Enem. O Ministério da Educação propõe, de forma acertada, a avaliação de cinco competências na redação, e cada uma delas com no máximo 200 pontos a serem conquistados pelo aluno. Isso é muito diferente do que é feito na maior parte das salas de aula, nos vestibulares convencionais e nos concursos públicos.

Entre as avaliações que o Enem faz, ou deveria fazer, está a análise de se o aluno compreendeu o tema da proposta de redação, se ele consegue construir, de forma evolutiva, argumentos para sua tese, se ele consegue caracterizar autoria para seu texto e se ele consegue concluir o texto com uma proposta ética e inovadora de intervenção na situação problema apresentada.

Para a vida acadêmica e para a vida em sociedade essas capacidades cognitivas listadas acima são muito mais importantes do que saber se o aluno errou duas grafias. Só fica mais importante a grafia e a concordância se o erro permanece em toda a prova. Mas, geralmente, quem permanece com o erro gramatical em toda a prova não consegue ter, pelo menos no texto escrito, essas outras competências.

O grave problema é que há muitas pessoas que fazem isso e não recebem nota 1000. São poucos os corretores que seguem as regras de correção do manual, por isso ocorrem as injustiças. As regras do manual, em cada uma das cinco competências, são claras, mas, em cada uma das cinco competências, os cerca de 4 mil corretores encontram muito mais do que 50 tons de critérios para avaliar os alunos. Não seguem, em sua maioria, a regra do manual. Seguem a regra de sua experiência pessoal de vida, adapta aos critérios propostos pelo Enem.

E aí são milhares de alunos que fazem boas redações e encontram corretores que descontam pontos por um ou dois erros de grafia, mesmo que o manual seja claro em dizer que isso não é permitido. Seguem descontando pontos nas outras cinco competências, que não estão relacionadas diretamente ao domínio da norma culta, como se estivessem corrigindo a redação de um aluno seu, da escola em que trabalha ou de outro vestibular.

Alunos que façam redações nem tão boas, com erros de português e que recebam notas altas, são de longe o problema. Essa realidade seria insignificante se milhares de alunos com boas redações não fossem injustiçados com notas baixas, até por que existe alguma correlação entre boa redação e nota nas provas objetivas, ou seja, se alguém tivesse uma nota alta em redação, sem merecer isso, ela seria anulada pelas baixas notas nas provas objetivas.

Eu denunciei, nesta coluna do IG Educação, uma prática que o MEC adotou para enganar o Ministério Publico, e a sociedade, em relação ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que obrigava a divulgação dos espelhos de correção da redação. O MEC não publicou os espelhos, mas só um resumo da nota média recebida pelos alunos, o que prejudicou o debate. Se não tivesse sido assim, ficaria ainda mais claro como a seleção, preparação e acompanhamento dos corretores é mal feita.

Sobre Miojo e Palmeiras

Os casos, que agora devem aparecer em série na imprensa, de candidatos que colocaram textos estranhos à proposta de texto no meio de suas redações são motivos, sim, para desconsiderar e zerar as redações. Esses alunos fugiram do tema, fugiram do assunto (isso quer dizer que nem tangenciaram o tema), não caracterizam autoria, não demonstraram argumentos evolutivos, desrespeitaram os corretores e o exame e fizeram isso de forma proposital. Não tem nem discussão, deveriam ter zerado e ponto.

Há duas explicações possíveis para esses casos terem passado. Uma é de que os corretores não leram toda a redação, o que acontece com frequência. Dados internos do MEC, que eles fazem questão de não divulgar para a sociedade, demonstram que, a cada dia que passa, a nota média que os corretores atribuem às redações é maior. Mas isso, apesar de ter possibilidade probabilística de ter acontecido, é mais difícil, por que a redação passa por pelo menos dois corretores.

A outra explicação, mais provável, está relacionada ao esforço que o MEC faz para não dar notas zero. No último ano de Enem, uma das maiores críticas foi justamente a chuva de zeros recebidos pelos alunos. Descoberta a febre, preferiram quebrar o termômetro do que descobrir sua origem.

Neste último Enem, os corretores tiveram duas capacitações (quem realmente foi capacitado). Na primeira, anterior à prova, o Inep foi muito claro em sua orientação para os corretores evitarem notas muito baixas e em pedir que tudo que estivesse no texto e fosse ‘aproveitável’ deveria ser considerado. E depois, houve a capacitação pós-prova. Todos sabem que o tema da redação de 2012, apesar de ser bem mais difícil de o aluno fugir dele, era um verdadeiro “caçador de fascistas e xenófobos”. Milhares de pessoas colocaram que as fronteiras do país deviam ser fechadas para estrangeiros, que devíamos endurecer as leis contra a imigração, que os estrangeiros roubam nossos empregos, entre outras coisas. Na regra do Enem, isso significa desrespeito aos direitos humanos e era motivo para estas redações serem zeradas, o que não aconteceu.

E não aconteceu porque o MEC, preocupado com as críticas, orientou os corretores a não zerarem as redações. E o corretor que não seguiu as orientações, claramente não pedagógicas e preocupadas em agradar os candidatos que fizeram o Enem, era facilmente descoberto pelo sistema que anula os malotes de correção dos corretores que dão muitas notas zero ou que não seguem alguns outros padrões de nota esperados pelo MEC.

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