Malvinas, Reagan e Thatcher no gelo

Disputa entre Reino Unido e Argentina motivou uma das maiores brigas entre presidente americano e premiê britânica, diz livro

BBC Brasil |

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Neste 2 de abril a invasão das ilhas que os britânicos chamam de Falklands, e os argentinos de Malvinas, vai fazer 30 anos . 74 dias depois, com 649 baixas, "los hermanos" se renderam.

Os britânicos perderam 255 militares e 3 moradores da ilha mas o triunfo reforçou o prestígio da primeira-ministra Margareth Thatcher e apressou a queda do regime militar liderado pelo ditador Leopoldo Galtieri.

As Malvinas ainda matam muita gente de tédio, mas a prosperidade e segurança dos seus 3 mil habitantes são invejáveis e custam caro à coroa. Quase tudo é de graça. Para problemas médicos complicados os moradores são levados para hospitais no Chile. Os universitários estudam de graça no Reino Unido. Um cidadão britânico custa ao Estado dez mil libras, um morador da ilha custa o dobro.

Saiba mais: Entenda a disputa entre Reino Unido e Argentina pelas Malvinas

Antes da invasão os britânicos queriam fazer um acordo com os argentinos e se livrar daquelas rochas geladas, distantes de manutenção cara. Desde então, encareceu mais ainda, mas os residentes da ilha detestam os argentinos. Querem continuar britânicos.

Quando os militares argentinos decidiram invadir a ilha para recuperar o minguante prestígio da ditadura, uma das fontes de informação dos generais foi o influente diplomata Vernon Walters que desde a Segunda Guerra teve conexões fortes com a América Latina em geral e com o Brasil em particular.

O diplomata disse aos militares que se invadissem as ilhas os ingleses iriam rugir e bufar mas não mandariam tropas. Pobre Argentina, pode chorar.

Há poucos dias, numa entrevista para o programa Milênio, passei algumas horas com o professor Richard Aldous, que acaba de publicar "Reagan e Thatcher: uma relação difícil", muito bem recebido por críticos e historiadores em vários países.

Foi o nono livro de Aldous que tem 42 anos anos e parece dez anos mais jovem. Ele teve acesso a documentos até então secretos e conta detalhes preciosos sobre as relações entre os dois líderes. As Falklands/Malvinas foi uma das maiores brigas entre Reagan e Thatcher que estavam no período de lua de mel, com o cowboy recém empossado e mulher, ainda não de ferro, em busca de uma liga poderosa.

A inglesa esperava apoio imediato e incondicional à invasão e não se importava com as preocupações do americano com as esquerdas latinas. A embaixadora americana na ONU, Jane Kirkpatrick, não resistia a um ditador de direita e apoiava os argentinos. Reagan colocou seu secretário de Estado, Alexander Haig, um general, numa ponte aérea entre Londres e Buenos Aires. A mulher ouvia e passava sermões no general. Ia adiante com armada a todo vapor , rumo às ilhas.

Aflito, Ronald Regan pegou no telefone e ligou para o general Galtieri em busca de concessões que pudessem frear Thatcher mas o general estava embriagado. Ligou de volta quatro horas depois. Reagan conta que o porre não tinha passado completamente mas a incoerência de Galtieri não era o maior problema. Vários generais argentinos davam ordens, ninguém se entendia, as promessas eram feitas e desfeitas em questão de horas.

O presidente Figueiredo, em maio, estava em Washington numa visita oficial. Richard Aldous conta que ele disse ao presidente Reagan que os ingleses planejavam bombardear forças argentinas no continente. O americano pegou de novo no telefone. Thatcher disse que faria tudo que fosse necessário para proteger seus soldados mas nunca mandou bombardear a Argentina.

A briga entre os dois provocada pelas ilhas foi uma das mais intensas mas não a mais longa. A União Soviética era o principal foco de atritos. A primeira foi sobre sanções econômicas, a mais grave foi sobre desarmamento.

Reagan queria um acordo radical para eliminar todas armas nucleares e exasperava Thatcher porque sem elas nenhum exército europeu seguraria o exército russo. O desarmamento só não foi adiante porque Reagan insistia na construção do projeto guerra nas estrelas que teria como objetivo destruir mísseis com armas instaladas no espaço.

Nem com a promessa que os Estados Unidos dividiriam todos segredos e recursos do SDI (Space Defense Iniciative) com os soviéticos Reagan conseguiu convencer o time do Gorbachev.

Reagan e Thatcher brigaram sobre orçamentos e redução de impostos e quando Reagan invadiu Granada, parte do Reino Unido, mas na frente das câmeras sempre mantiveram a postura de uma de união perfeita e indivisível.

Richard Aldous conta que durante a juventude os dois tiveram algumas semelhanças na vida, ambos de origens modestas. Ela, educada em Oxford, se achava moral e intelectualmente superior a Reagan mas as afinidades ideológicas eram profundas. Na velhice ambos tiveram a doença de Alzheimer.

Ela ainda está viva. Reagan, já com sinais de demência, terminou o mandato feliz em sair de Washington para o seu "Rancho nel Cielo" na Califórnia. Thatcher nunca aceitou o golpe dos aliados que a tiraram da liderança e nunca se ajustou à obscuridade. O alimento essencial dela era o poder.

O Reino Unidos, e as ilhas Falklands ou Malvinas, vão comemorar discretamente o 2 de abril. Mais cedo ou mais tarde, com ou sem petróleo no fundo do mar, a soberania das ilhas geladas vão esquentar a pauta da ONU.

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