Noutro mundo

Por BBC Brasil - Lucas Mendes, de Nova York |

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Congressista republicano do Texas levantou a possibilidade de o meteorito que atingiu a Rússia ser 'um foguetório de embriagados com vodca e nada para fazer'

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Um meteoro caiu na Rússia. Ou não? O presidente da Comissão de Ciência, Espaço e Tecnologia na Câmara americana é o texano Lamar Smith, um republicano. Ele convocou para a próxima semana uma audiência para decidir se os meteoros existem.

Leia também: Meteorito atinge região central da Rússia e deixa quase mil feridos

AP
Rastro deixado pelo meteorito é visto no céu de Chelyabinsk, na Rússia

"Para a imprensa irresponsável, o objetivo é assustar o público com uma questão que, no fim das contas, pode ser tão real quanto os unicórnios."

O republicano, que se diz um cético em questões científicas, levantou a possibilidade de se tratar de "um foguetório de russos embriagados com vodca e nada para fazer, nem aquecer, no inverno siberiano".

O meteoro, na visão do conservador amedrontado pelo Tea Party, pode ser um pretexto para deixar o governo gastar dinheiro com ciência "e isto", ele garante, "é a última coisa que nossa comissão vai aprovar".

Um repórter levantou a questão do meteoro gigante que teria matado os dinossauros. O deputado reagiu: "Agora vamos acreditar que os dinossauros existiram?"

Lamar Smith, um veterano no Congresso, que vem de cinco gerações de texanos, não é um primitivo. Tem diploma de Yale. Mas no Texas, tudo é maior, e o que acontece lá se espalha pelo resto do país, para o bem e para o mal. No momento, bem mais para o mal.

A atitude do deputado ilustra a desinformação dos livros didáticos texanos que incluem a teoria do criacionismo bíblico em oposição à Teoria da Evolução de Darwin. Dos três livros sobre educação sexual para o curso secundário, só um menciona o uso da camisinha e ainda enfatiza que ela não funciona.

O Estado tem um dos índices mais altos de gravidez entre adolescentes e um dos piores sistemas de saúde para pobres. A melhor opção da mãe solteira é sair do Estado. "No Texas, tudo é maior, e o que acontece lá se espalha pelo resto do país, para o bem e para o mal. No momento, bem mais para o mal."

Perto do senador Ted Cruz, recém-eleito, o deputado Lamar Smith é um moderado e, academicamente, primário. O senador tem diplomas de Princeton e Harvard, magna cum laude. Filho de pai cubano e nascido no Canadá, foi eleito com apoio do Tea Party contra um veterano republicano moderado, ex-vice-governador.

Cruz se tornou manchete nacional quando disse que a meta do plano da ONU para o meio ambiente era acabar com os campos de golfe, os pastos e estradas asfaltadas. Promete acabar com o "leão" americano, o IRS.

Senadores recém-eleitos costumam ouvir muito e falar pouco, mas, em menos de três meses de discursos e votos, os democratas gostariam de crucificar Ted Cruz, que não admite nenhum compromisso com a Casa Branca.

As "texanisses" incomodaram a escritora e colunista do New York Times Gail Collins, que dedicou seu sexto livro, As Texas Goes, aos desatinos e perigos do Estado mais influente do país, um poder que pertenceu a Nova York e à Califórnia no século 20.

Gail Collins destrincha educação, armas, poluição, finanças, modos e costumes texanos. Lá é mais fácil comprar armas do que em quase todos os Estados americanos e as armas vendidas no Texas são responsáveis por grande parte dos crimes no México e na Califórnia.

O ar do Texas é um dos mais imundos do país, porque as leis antiverde favorecem a milionária indústria de energia. Milhões de pulmões dos Estados vizinhos respiram o veneno texano. Os livros didáticos do Texas, pagos pelos contribuintes, são baratos e comprados pelos Estados vizinhos que também promovem a versão do mundo segundo a Bíblia.

O Texas, rico em gás e petróleo, escapou do pior na crise de 2008, mas tem os piores salários e benefícios do país, subvalores que se espalham pela vizinhança. E de onde veio o modelo que quebrou a regulamentação dos bancos e das financeiras e jogou o mundo na crise de 2008? Bingo! Texas.

Há um meteoro econômico no céu americano chamado sequester, previsto para chegar e queimar o país daqui a oito dias. É um corte indiscriminado de US$ 85 bilhões no orçamento militar e nos programas sociais. Suas consequências a longo prazo são imprevisíveis, mas este ano (o corte) vai gerar desemprego e jogar o país noutra recessão.

Os texanos no Senado e na Câmara poderiam, num instante, neutralizar o sequester, mas para estes dinossauros não existem meteoros.

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