Lucas Mendes: Lisboa, airosa e poderosa

E se você souber como é o estilo airoso português, por favor, me informe

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"Lisboa, velha cidade cheia de encantos e beleza", é velha mesmo, mas poucos portugueses sabem que é mais velha do que Londres, Paris e quase todas as grandes cidades europeias.

Os portugueses, como nós, são mal educados. Só 30% tinham curso secundário em 2009.

O parque Eduardo 7º confirma a segunda parte do verso. Cheio de encantos e beleza, é um dos maiores parques urbanos do mundo.

Shana Reis
Bonde em Lisboa

Excelente caminhada, árvores preciosas e estufas, mas misteriosamente vazio e desconhecido. Perguntei à jovem recepcionista do clube de tênis que Eduardo é este que dá nome ao parque. Ela pediu desculpas pela ignorância e arriscou "acho que era um inglês". Bingo.

Nem soube explicar qual era o feriado do domingo, mas o clube estaria fechado. Feriado no domingo? Respondeu com um sorriso. São tão educados.

A austeridade ainda não chegou a este clube no parque do rei inglês: RS$ 200 a hora para bater bola com um dos professores. Só bater bola. A lição é mais cara.

Preço de Nova York, mas a classe média e a classe C - e ela cresce em Portugal - sentem a crise europeia. Entre os jovens, o desemprego está na faixa de 40%, salários foram cortados, os serviços reduzidos, os impostos subiram.

O governo vendeu a parte dele na empresa de energia para uma estatal chinesa e num restaurante em Alcântara o custo da eletricidade subiu de 6% para 23% do faturamento.

Os portugueses sofrem como os gregos e espanhóis, mas não brigam, uma resignação que está também no nosso DNA. Enquanto os gregos gritam, quebram, queimam e ameaçam sair do euro, os portugueses até hoje fizeram duas greves gerais e protestos pacíficos. A maioria se sente culpada pela própria desgraça.

No Portugal do século 20, metade das casas não tinham água corrente e só 30% tinham eletricidade. Numa das crises financeiras, 1 milhão de empregados ficaram meses sem receber salários, trabalharam de graça, mas não abandonaram seus empregos.

Alcântara, um bairro feio, era uma força industrial no século passado. Hoje é um cemitério de fábricas, mas portugueses criativos transformaram um dos prédios gigantescos num centro de cultura e culinária.

Ler Devagar é uma livraria diferente de todas que você já viu, com suas longas estantes ao lado de uma rotativa gigante em desuso. Os negócios vão devagar, mas os portugueses tocam o bonde.

Outro encanto da cidade, a Avenida da Liberdade, a "Champs Elysees lisboeta", tem dez pistas de carros e 90 metros de largura.

Num café de calçada, no pé da avenida, durante uma xícara, meia dúzia de vendedores se aproximavam com óculos escuros nas mãos e nos ofereceram maconha e cocaína, uma cena das praças de Nova York das décadas de 80 e 90. Ainda não entendi o papel dos óculos escuros, mas estavam presentes em quase todas as praças.

Esta "Lisboa d’outras eras, dos cinco reis, das esperas" talvez não volte nunca mesmo, como cantava a rainha do fado.

Num momento de fraqueza, topei entrar no bonde, fazer turismo até o castelo com meus fiéis escudeiros, Nots e Bridges. Estávamos ensardinhados.

Nots, que já tinha passado por um contato com batedores de carteiras em Paris, rechaçou a mulher, mas o pateta aqui acostado pelo homem à direita e pela mulher à esquerda, quando percebeu o golpe, já era tarde.

Com extraordinária habilidade, ela levou quase todo meu dinheiro do bolso de uma calça jeans. Parabéns.

Sem nenhuma esperança de recuperar o prejuízo, fui à delegacia com a boa intenção de informar e alertar as autoridades para este perigo.

Para mim era novidade. "Queria registrar um roubo", disse ao policial na delegacia de proteção aos turistas.

"Foi no elétrico?", perguntou o simpático, educado e bem uniformizado cabo Silva.

"Foi."

"Foi no 28?"

"Foi."

"Na subida para o Castelo?"

"Foi."

"Uma mulher grávida?"

"Isto não sei. Não tinha barrigão. Mas como você sabe tanto e não faz nada?"

"Fazemos sim senhor. Temos policiais à paisana nos elétricos e damos muitos flagrantes, mas é um crime privado."

Não vou tentar explicar aqui o que é um "crime privado" em Portugal, mas dou resumo da ópera.

Segundo o cabo Silva: quando levamos o batedor de carteira para julgamento o juiz pergunta: "Onde esta a vítima?".

"Se não há vítima, não há crime e o bandido volta para a rua. Se o senhor quiser esperar para fazer o registo da ocorrência, pode esperar na fila ou voltar mais tarde. Há outras pessoas com problemas piores."

Fui embora. Tinha feito até seguro contra roubo, mas o prejuízo não justificava o tempo de espera e, afinal, só ajudaria a reforçar as estatísticas que não interessam à sofrida industria turística portuguesa nesta crise europeia.

Não sei como escapei de batedores nos metrôs e ruas de Nova York, onde havia 23 mil queixas deste crime em 1990. Em 2000, o número tinha caído para 5 mil. Hoje é tão insignificante que a polícia nem inclui nas estatísticas.

Um dia, depois da austeridade, Lisboa, mesmo sem voltar a outras eras, dos cinco reis e das esperas, talvez volte a se vestir airosamente. E se você souber como é o estilo airoso português, por favor, me informe.

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