Verão londrino, primavera árabe

Até queimarem o livro do Salman Rushdie, islamismo, muçulmano, Corão para mim era tudo saco do mesmo gato, ou vice-versa

Ivan Lessa/BBC Brasil |

Mais de três décadas de Londres, outras tantas de aqui e ali. Nem uma semana de Arábia, a não ser que contem as duas horas e meia que passei vendo a estréia de Peter O'Toole no cinema, sob a batuta (diretor cinematográfico também usa o instrumento de regência, pois não?) de David Lean.

Até queimarem o livro do Salman Rushdie há alguns anos, islamismo, muçulmano, Corão para mim era tudo saco do mesmo gato, ou vice-versa, quero crer.

E confesso-o com o maior respeito e a devida covardia. Faço a afirmação sem medo de ser atingido por um fanático de qualquer estirpe, ou melhor dizendo, de qualquer religião, pois sou ateu, pagão e, quando pregressado no DOPS, o datilógrafo muito se espantou quando fiz a revelação.

Sua reação foi à altura da organização - estávamos em 1971 ou 72 -, com uma expressão indignada, mas sem sacar da malinha de torturas, disse para os botões de todos os presentes: “Ué! Então é judeu!”. Meu advogado, o doce e inesquecível Mânlio Marat, explicou o que até para mim era inexplicável: os fundamentos básicos de qualquer crença religiosa.

A história acaba bem. Fui um dos poucos guerrilheiros desarmados e sem anistias pecuniárias da imprensa dita "nanica", que então só havia a escrita, pois só algumas décadas depois é que poderíamos, como hoje, luxuriar-nos nas benesses informáticas e cibernéticas. Sim, sei que estou sendo redundante, vício que hoje virou virtude. Somos todos reduntantes.

Disso tudo, após esse nariz de cera digno de um adversário do Capitão América, para me mostrar atualizado na Sétima Arte, vou direto para o ponto que não entendo, como creio já ter dissertado tediosamente aqui mesmo nesse espaço que me abriga, no inverno, e me refresca, no calor: que história é essa de Primavera Árabe?

Lawrence, ou O'Toole, não deixaram claro. Quero entender mais, saber tudo a respeito, homem doméstico domesticado que sou. O que se passa? Quem passa? Só sei o que mostram na televisão. Sou sincero. Em jornal, acho profundamente chato ler a respeito.

Ninguém sabe direito o que está havendo. De batata mesmo, isso porque vi esta semana em vários canais, o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, com seus 83 anos e de maca, atrás das grades, num tribunal, sendo julgado por conspiração com o intuito de matar 850 ativistas pó-democracia. Parece-me que, não importa a temperatura reinante em terras que foram de Cleópatra (sou velhusco e mais do que metido a besta), a coisa lá esteja na estação que, em velha canção, batizamos de "estação do amor", no caso a tal da primavera, digo Primavera, que, aqui, é na base da maiúscula.

Sei pouca coisa mais de outro florescer ali pelas redondezas, se não estou, e devo estar, enganado. A Líbia de Khadafi, país em que, pelo que depreendi, está saindo um pau bravo devido às 100 mil maneiras de se escrever o nome do homem que se fez coronel e dirige os destinos (esses caras que dirigem destinos são fogo) do rico país em petróleo.

Sei que bons e maus, como nos velhos filmes em branco e preto de mocinho e bandido de antigamente, estão também às turras e ninguém sabe, ou me informou direito, com todas as letrinhas, quem está genhando a parada. Fico impedido de torcer.

Só peço à televisão que pare de me mostrar, por telejornal, de 3 a 4 ítens sobre a Olimpíada do ano que vem aqui em Londres. Dá vontade de pegar em armas, tornar-me ativista, batizar-me, qualquer coisa, menos a farta distribuição de medalhas de latão que andam se distribuindo às pamparras por aqui. Só aquele logotipo é o suficiente para boicotar os Jogos de 2012.

Mas volto aos – inevitável o jogo de palavras – meus "Jogos da Primavera Árabe". E a Síria? Sim, e a Síria? Andam cobrindo mal à beça a coisa. Vejo aquele presidente que é a cara do pai e cujo nome, tanto dele quanto do também papá ditador, sou incapaz de decorar. Culpa minha? Não. Da cobertura. Bisonha. Acho que a BBC nem tem jornalista lá. Feito os outros canais britânicos. Ficam dependendo do que resolvem mandar os primaveris canais árabes.

Não juro. Nada posso jurar em se tratando de Primavera Árabe. Eu gostaria de saber. Só. Solidão.Tenho pouco a fazer e, se é para me deprimir e passar mal, mandem para mim esses dados. Só peço que parem, mas parem mesmo, de cobrir com essa fúria os Jogos Olímpicos do ano que vem aqui em Londres. Assim é duro e, nunca se sabe, o povão é imprevisível. A qualquer momento é capaz de sair às ruas para protestar contra os excessos olímpicos em marcha, maratona, revezamento ou 200 metros com barreiras.

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