Ivan Lessan: VA x AJ

Britânicos vão participar de plebiscito para adotar ou não votação alternativa

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Nesta quinta-feira, dia 5 de maio, os britânicos vão decidir aquilo que eu, sem nunca ter visto um Casamento Real no Brasil, sempre soube ser a mais legítima expressão política de um cidadão: como e em quem votar.

Não canso de repetir, sem estufar o peito, que, numa eleição, a única forma decente que as pessoas – obrigadas por lei, frise-se – têm de enfrentar na cabine eleitoral é a ela não comparecer. Ou se, por falta do que fazer, alguém der as caras no posto eleitoral: que assine o registro, dê um sorriso irônico e comprometedor para o presidente da mesa e seus mesários. Daí então não cumprir o dever – obrigação, melhor dizendo – a que chamam de cívico.

Mais uma vez, relembro aos meus 18 leitores, feito os 18 torcedores do Botafogo, que, numa eleição, só o Messias é o maioral. Messias, e não Tiririca ou rinoceronte. Messias era aquilo que só nós temos, feito açaí, bom futebol e bandeira com coisa escrita: despachante.

Qualquer problema, contanto que não entrasse a polícia no meio (mesmo assim, não sei não), o Messias resolvia. Botava seu terno preto surrado, carregava sua pasta de couro também surrada e partia para a luta com as nossas lendárias repartições, onde distribuía simpatia, um ou outro pequeno suborno, e estávamos conversados.

Messias perdeu uma boa fonte de renda com a ditadura. Acabou-se a sopa de ter carimbado na carteira de eleitor a imortal frase “Ausência justificada”. (Essa sim é que merecia estar numa bandeira. Na que tenho em casa, ao menos, é o que pedi para a costureira botar no lugar de “Ordem e Progresso”) AJ, eu a chamava, aglutinando, assim, partido e posição política. Parece que cantei a pedra muito antes dos britânicos, agora às voltas com sigla parecidinha.

Que, e volto aos dois assuntos do momento, só perde para a bela e eficiente execução do terrorista Bin Laden e o local da lua de mel do Duque e Duquesa de Cambridge, em matéria de espaço nos veículos de comunicação. Quinta-feira, dia 5, é dia de plebiscito aqui. Os britânicos, se tiverem saco para isso, irão comparecer a um posto eleitoral, e responder “Sim” ou “Não” aos dizeres que, numa cédula, pergunta se eles gostariam de ver adotado em todo o país o sistema de Votação Alternativa ("Alternative Voting", no dialeto local) ou AV, para abreviar o inabreviável.

Parece que, após décadas e mais décadas de democracia monarquista, a Grã-Bretanha resolveu enfim seguir o exemplo de países politicamente mais sofisticados, tais como Austrália, Fiji e Papua Nova Guiné. Parece que o AV é adotado também em em algumas jurisdições do país governado pelo agora comprovadamente norte-americano Barack Hussein Obama, feito San Francisco e Minnesota (e por falar nisso, mais uma vez parabéns pelo AV concedido a Osama Bin Laden, mil vezes maldito seja o seu nome. Só não entendo porque dar enterro de homem do mar a um rato imundo do deserto).

Até aí morreu, que Deus o tenha, Neves – Tancredo Neves, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. O que se quer saber é de que se trata afinal o AV. Simples, segundo alguns. Complicado dizem outros. Destrincho entendiado, digito eu.

Seguinte: quem tacar “Sim” em sua cédula estará optando por um sistema onde, em escrutínios futuros, no renomado papelzinho virão os nomes de mais de um candidato. Três ou, mais provável, cinco. Na cabina indevassável, o eleitor, como se estivesse dando nota a calouro em programa de televisão, colocará no quadradinho em branco diante do nome de cada candidato, em ordem ascendente, notas de 1 a 3, segundo sua preferência.

Serão seus votos preferenciais. No caso de não haver vitória, o candidato com o menor número de notas cai fora e seus votos são redistribuídos entre os que restarem. Igualzinho como fazem na escolha de quem vai ganhar Oscar e quem vai ser eleito em Fiji. Ninguém é obrigado a distribuir notas ao candidato. Se for um só, ele é que vai para o trono. O candidato que conseguir mais de 50% dos votos é declarado vencedor, após as devidas contagens e recontagens, caso necessárias.

Desconfio que é isso. Se não for, passa perto. O importante por aqui é o escrutínio. Quando em dúvida, o negócio é escrutinizar. Quem gosta da coisa e a promove é o partido dos liberal-democratas, ora em estado de coalisão em decúbito ventral. De qualquer forma, ninguém tem a obrigação de comparecer a um posto eleitoral. A única coisa que esse fenômeno típico da Papua Nova Guiné faz comigo é me dar uma baita duma saudade do bonérrimo e eficientíssimo, além de barateiro, Messias.

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