Ivan Lessa: Violento ataque à BBC

Grupo do magnata Rupert Murdoch critica demissões da rede de comunicação

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Parece que essas coisas pegam. Chamemo-la de murdochmania.

Com uma porção extra de espuma para barba como único resultado positivo de seu depoimento perante a comissão de inquérito parlamentar, o magnata Rupert Murdoch ainda teve a satisfação de ver as ações de seu império subirem de cotação no mercado acionário.

Sobrou mesmo foi para políticos e policiais britânicos. A lenha continua e continuará.

Um tabloide a menos, outros vestindo jubilosos camisas 3. E toca a faturar.

Murdoch já retornou à sua terra adotiva, os Estados Unidos, e continuará seu caminho de paz e amor, ou, a bem dizer, seu caminho de brigas e desamores.

Uma das pinimbas do ex-antípoda magnata sempre foi e continuará a ser a BBC. Deu chance, abriu brecha e seu império de mídia impressa e eletrônica se volta contra a Beeb, como é conhecida afetuosamente na intimidade e, se der jeito, com uma boa dose de ironia na implicante desintimidade.

Como saiu em outro tabloide, o Daily Mail, tido como classe média, ou misto-quente, nem tanto pra baixo nem muito pra cima, a nota em que catei os dados que irei enumerar ganharia, no mínimo, um tom mais cafajeste e alarmante em qualquer outro veículo murdochiano daqui, a saber, Sun, Times e SundayTimes.

Com 37 anos ao todo de BBC, enfileiro os dados com uma ponta de prazer. Uma ponta apenas. Humano sou.

Afinal, foi outro dia mesmo, no 14 de julho (alguma influência da revolução francesa?), que o sindicato nacional de jornalistas (o NUJ, National Union of Journalists) decretou uma greve de 24 horas destinada a interromper as transmissões televisivas e radiofônicas da BBC e já deu a data da próxima, 29 de julho.

Tudo devido à demissão involuntária de um bom número de funcionários – aqui polidamente chamada de redundancy – inclusive por estas bandas do Serviço Mundial.

Ao todo, dependendo da fonte, contanto que não seja o News of the World, 387 dispensas, que é uma palavrinha mais simpática que demissão. Para não citar mais um importante fator na medida dita drástica: o alto salário dos executivos da BBC, segundo o sindicato,

A manchete do já referido Daily Mail era simples e direta e eu traduzo com isenção: “BBC paga a atores 1 milhão de libras para mostrar aos chefes como lidar com funcionários rebeldes”.

Ou seja, em dinheiro de dívida do governo de Barack Obama, 1 milhão e 600 mil dólares.

A agenda foi transformada em pequenas pecinhas que serviam de inspiração para a classe patronal lidar e dar um jeito – sem maiores violências, claro – na classe jornalística.

Os opúsculos teatrais didáticos foram encenados na Academia da BBC no decorrer dos últimos 5 anos. Cá entre nós, musical do insuportável Andrew Lloyd-Webber custa muito mais caro e duvide-o-dó que tenha texto melhor.

Um porta-voz do sindicato que aderiu à greve, algo irritado, ponderou: “Há muita gente nas diversas equipes genuínas de trabalho já irritadas com a situação. Não há nenhuma necessidade de atores.” Parecia Samuel Beckett sileciando sobre uma de suas peças.

Eu aí discordo.

Jornalista é jornalista, ator é ator. Um não se mete com o metiê do outro. Mas isso é uma opinião pessoal e só contaria ponto se eu fosse o Hugh Grant, que andou dando uma de jornalista, e bom, numa hora vaga de sua vida ora não tão atarefada quanto já foi.

O título das pecinhas, que aliás não têm o nome de seu autor ou autores divulgados, não são bem um chamariz com a instigante sonoridade de “Amor a Quanto Obrigas”, “Cupido é Moleque Teimoso”, “Amar Foi Minha Ruína” ou, indo mais longe, “Escravas do Desejo”.

Mas, justiça seja feita, dão a pala do que está sendo tratado: “Conversações Corajosas”, “Dirigindo Seu Apresentador” e “Treinamento Para a Diversidade”.

Todos esses títulos foram obtidos e divulgados graças à lei existente da liberdade de informação, portanto ninguém teve que ser grampeado, político imprensado ou policial subornado. Coisa rara nesses dias.

Parabéns, Daily Mail, vai por aí que você vai bem.

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