Ivan Lessa: Uma medalha para Gisele Bündchen

A implicância da imprensa britânica e as preces das supermodelo para a carne no prato

BBC Brasil |

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"Ói nós lá", exclamemos jubilosos saltando de mastro em mastro feito Cristóvão Colombo quando finalmente sua expedição avistou terra, conforme a dissertação antológica de um aluno em prova de História cujo nome os registros do Colégio Mello e Souza preferiram poupar das gerações futuras, mal sabendo os queridos mestres o que o futuro – estávamos em 1947 – nos reservava a todos.

Enchida a linguiça, engatado o nariz de cera, passemos a nosso noticiário.

Estamos brilhando aqui fora. Em inglês, adquirimos um manto romântico misterioso e nostálgico reminiscente das melhores interpretações na Hollywood que se foi de astros como Ricardo Montalban e Cesar Romero.

Confiram o que o "Independent" da semana passada, em nota ilustrada de pé de página, tinha a nos dizer a respeito de Gisele Bündchen, cognominada por um Brasil brasileiro de "a modelo das multidões":

"Não seria uma maravilha se uma top model (é, o original é em inglês; vida curiosa, hem?) conseguisse falar com naturalidade sobre comida, sem se dilacerar de agonia diante de cada item em seu prato?"

Fiquei esperando o desaforo de um jornal tido como sério e de posição política considerada de esquerda liberal esclarecida. Não veio.

O que veio foi o seguinte: "Gisele Bündchen é magnificamente atlética e saudável, a modelo que mais fatura no mundo, casada com um esportista de primeiro time também de renome mundial; seu (lá dela) aspecto físico exala força e poder".

Aí eles dão aquela paradinha antes do passe ou chute para gol, que valeu para Ronaldinho Gaúcho a medalha Machado de Assis, a mais alta distinção com que a Academia Brasileira de Letras agracia nossos luminares, e prosseguem com o, para mim, desastre inevitável para nossas cores, o estufar do véu da noiva pelo petardo emitido por Ronaldinho Gaúcho que lhe valeu a acadêmica honraria.

Pois enganei-me redondamente como uma bola profissional de futebol número 5.

O "Independent", após mencionar sua infância beirando a espartana e elogiando sua vida junto ao seio familiar, tendo empregado quatro de suas cinco irmãs como supervisora, advogada, contadora e designer de seu website, elogia o paradigma que a "modelo das multidões" representa para o mundo tanto das celebridades quanto dos anônimos.

Aí vem a finta digna de medalha da ABL: quem redigiu a nota confessa que quase se deixou levar pela narrativa de uma jovem aparentemente simples que acabou valendo mais de US$ 150 milhões como resultado de seu papel de porta-bandeira para grifes de luxo tais como Versace, Dior e Givenchy.

Com a maldade dos jornalistas que não são obrigados a assinar uma coluna, a nota prossegue com veneno:

"Lembremos de alguns 'faux pa's (gafes, solecismos, pois não?) anteriores da formidável modelo. Lembremos de como Gisele, de certa feita, comentou que deveria haver uma lei mundial que obrigasse as mães a alimentar os filhos nos seus próprios seios."

Vai além, bem além, a nota: segundo diz, na última edição da revista Vogue, Gisele bate em outra tecla como se esta fosse uma falta na entrada da área adversária.

A top model confessa pertencer a uma cultura (vide Academia Brasileira de Letras) que se alimenta de carne, ou é carnívora, conforme se diz nos meios letrados.

Porém, e ela insiste em frisar, "limito minha ingestão a apenas uma vez a cada 15 dias". E o registro, como se pegando um pênalti: "E é aí que ela revela sua cabecinha de vento ao declarar que, antes de comer qualquer espécie de carne, ela nunca deixa de por as mãos sobre a dita cuja abençoando-a e agradecendo o fato de que, pelo menos, ela – a carne – teve vida um dia."

"E peixe?", perguntamos nós. Peixe tem alma? Gisele Bundchen diz uma oração cada vez que vai de sushi?

Ei, Academia Brasileira de Letras, pega mais uma verbinha e salta uma medalha Machado de Assis caprichada para mais um.

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