Ivan Lessa: Sunday Bloody Sunday

Ânsia do jornalismo por "sangue" contou no final de semana com Noruega e Amy Winehouse

BBC Brasil |

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Eu não gostaria de ser editor de tabloide britânico. Sensacionalista ou comedido.

Na verdade, neste fim-de-semana que passou, eu não gostaria de tabalhar em redação de jornal algum no mundo inteiro. Nem mesmo para ir até a esquina comprar café e sanduíches.

Estivéssemos tratando de assunto menos trágico, eu apelaria para um pedantismo gálico e diria que o que houve foi um embarras de "richesses", ou, vertendo para o idioma pátrio, um excesso de riquezas. A bem dizer, um desmando de tragédias.

Os editores sabem e conhecem seus leitores, desde o primeiro búfalo a ilustrar caverna de troglodita, ao primeiro hieróglifo a fazer sucesso entre as 3 grandes pirâmides egípcias. O que o pessoal quer é sangue, muito sangue.

Lembremo-nos do slogan dado com o chamado “humor carioca” aos jornais que vendiam crime e nada mais que crime há algumas décadas, O Dia e A Notícia. Segundo a plebe rude, se espremidos deles escorria sangue.

E tome "Fera da Penha", "Crime da Mala", domésticas ingerindo formicida ou ateando fogo às vestes, marginais levando bala, indivíduos repugnantes seduzindo “dimenores”. O resto, bem, o resto eram anúncios, porque eles vendiam que não era brincadeira. Eram sérios, levavam na troça, seus personagens viravam personagens de Nelson Rodrigues.

Aqui, no domingo de manhã, eu dei uma conferida em 11 jornais nacionais. Impossível fugir aos dois assuntos que desde o dia anterior ganharam horas seguidas na televisão: o monstruoso massacre na Noruega e, no fim da tarde, a morte da cantora Amy Winehouse .

Gente, as editorias tiveram que se virar mais que charuto em boca de bêbado para encontrar um meio-termo justo entre os dois – quase impossível assim chamá-los – “eventos”.

A turma é boa, é mesmo da fuzarca. Maior parte achou melhor mesmo rachar os dois acontecimentos tétricos. Pela minha contagem, o monstro norueguês (já o apelidaram aí de “Demônio Louro”?) pegou no mínimo um terço das primeiras páginas dos jornais dito sérios (Sunday Telegraph, Observer, Independent on Sunday), ganhando assim a disputa com a problemática cantora popular.

Nos jornais brasileiros, a ênfase foi toda para Amy Winehouse, inclusive algo que eu desconhecia: a tal da maldição dos 27 anos , idade em que morreram outros ídolos da música popular, tais como Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin e Kurt Cobain.

A verdade é que, no fundo, admiro a cara de pau dos jornais e telejornais. Toda essa gente, motivada por curiosidade malsã, que foi ao bairro e à rua onde La Winehouse tomou, cheirou, se injetou ou fumou algo, ou tudo isso ao mesmo tempo, que pegou muitíssimo mal, toda essa gente, dizia eu, estava, segundo a mídia impressa e informática, lá comparecendo para render seu tributo ou última homenagem.

Ninguém teve peito para dizer que lá foram por doentia xeretice mesmo, a mesma que faz com que os jornais escandalosos vendam como “pãezinhos quentes”, para adaptar uma expressão local.

Ainda encontraram espaço, os jornais, para dedicar alguns parágrafos à tragédia que continua a ser a Somália , ao desastre pronto para acontecer no agora rachado entre dois Sudões (mais um para virar assunto e falta de providências), o desastre de trem na China no qual morreram 35 e a perda do artista Lucian Freud , aos 88 anos (será a “maldição dos 88 anos?”).

As páginas de esporte, as palavras cruzadas, o sudoku e as histórias em quadrinhos sairam ilesas da catástrofe humana e midiática.

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